A retomada da hegemonia norte-americana

TAVARES, M. C. A retomada da hegemonia norte-americana. Revista de Economia Política, São Paulo, v. 5, n.º 2, p. 5-15, abril-junho, 1985.

  • Até o final dos anos 1970 parecia impossível aos EUA, segundo a autora, conseguirem reafirmar sua hegemonia, mesmo sendo potência dominante. Conseguiram evitar que surgissem dois polos de poder econômico: na Europa, a Alemanha, e na Ásia, o Japão, ambos submetidos aos interesses americanos.
  • Outras circunstâncias da década de 1970 pareciam corroborar com a tese de que os EUA não conseguiriam reafirmar sua hegemonia:
    • o sistema bancário privado operava totalmente fora do controle dos bancos centrais.
    • o sub-sistema de filiais transnacionais operava divisões regionais de trabalho intra-firma, à revelia dos interesses americanos, o que gerava acirramento inter-capitalista, também desfavorável aos EUA.
    • a inexistência de um polo hegemônico na economia mundial estava desestruturando a ordem criada no pós-guerra.
  • Os EUA tentaram reverter isso através da diplomacia do dólar forte (1979): não permitiriam mais a desvalorização que vinha ocorrendo desde 1970 e declararam que o dólar se manteria como padrão internacional, restaurando a hegemonia de sua moeda. Essa restauração teve como custo uma recessão que durou 3 anos, quando houve violenta elevação da taxa de juros.
  • Diante de um intenso confronto de interesses e conflitos internos, os EUA fizeram e continuam fazendo uma política de várias faces visando a sua recuperação econômica, a partir dos anos 1980 com Reagan: utilizaram uma política keynesiana “bastarda”, “de cabeça para baixo”, combinada com política monetária dura.
  • Política contraditória: redistribuía a renda em favor dos ricos, aumentava o déficit fiscal e elevava a taxa de juros. Foi isso que fez os americanos se recuperarem e, além disso, submeterem os seus parceiros a desafiar militar e economicamente seus adversários.
  • O FED conseguiu retomar o controle do sistema bancário privado internacional, ao manter uma política monetária dura e forçar a supervalorização do dólar. Isso porque, depois da crise do México, o crédito interbancário moveu-se para os EUA e o sistema passou para o controle do FED. Assim, todos os grandes bancos internacionais estavam em NY financiando obrigatoriamente o déficit fiscal americano.
  • Os EUA apresentam, então, um déficit fiscal estrutural, decorrente de política financeira e armamentista “agressivas” e “imperiais”. O componente financeiro do déficit é crescente devido à rolagem da dívida pública, que se torna único instrumento de o país obter liquidez internacional forçada e canalizar movimento de capital bancário japonês/europeu para o mercado monetário americano.
  • De 1979 a 1981 os países relutaram em aderir a política ortodoxa americana, mas acabaram se submetendo, ou seja, ficaram todos alinhados em termos de políticas cambial, taxas de juros, monetária e fiscal. Todos os países foram obrigados a adotar políticas monetárias/fiscais restritivas e superávits comerciais crescentes, diminuindo potencial de crescimento endógeno e convertendo déficits públicos em déficits financeiros.
  • Japão: país que mais adotou políticas heterodoxas no pós-guerra e agora seu mercado financeiro está totalmente atrelado ao americano, situação que só pode mudar se o sistema bancário americano entrar em turbulência ou o dólar desvalorizar.
  • 1982-84: os EUA dobraram seu déficit comercial a cada ano e, junto com o recebimento de juros, permitiu que absorvessem transferências reais de poupança do resto do mundo. Suas relações de troca melhoraram e os custos internos caíram, diante do bom desempenho das importações. Estão modernizando sua indústria de ponta a baixo custo com equipamentos de último tipo e capitais de risco de toda parte do mundo.
  • Os EUA não precisavam de uma divisão internacional do trabalho (DIT) que os favorecesse, pois tinham uma relação econômica especial com o resto do mundo, exportavam e importavam basicamente tudo, mas agora (1985) usam sua hegemonia para instaurar uma DIT em seu benefício exclusivo e refazer sua posição como centro tecnológico dominante.
  • Observando-se a estrutura de investimentos de 1983/1984, percebe-se que os EUA estão concentrando esforços no desenvolvimento dos setores de ponta e submetendo a velha indústria à concorrência internacional de seus parceiros.
  • Obtêm apoio dos seus sócios exportadores, graças ao enorme déficit comercial e à retomada do crescimento; garantem apoio dos banqueiros graças às altas taxas de juros; e, garantem sua posição para o futuro com as joint-ventures dentro do país, que também ajudam a recuperar a economia.
  • A recuperação econômica americana está sendo feita com a técnica latino-americana/japonesa: financiamento do investimento com base no crédito de CP, endividamento externo e déficit fiscal. Não há inflação porque a moeda é hegemônica e sobrevalorizada. Estão usando, portanto, técnicas heterodoxas.
  • A heterodoxia também se manifesta na política orçamentária: trocaram despesas com bem-estar social por armas e fizeram redistribuição de renda em favor dos ricos, reduziram a carga tributária sobre a classe média e eliminaram impostos sobre juros pagos aos bancos para compras de consumo durável.
  • O endividamento das famílias passou a ser um bom negócio, porque parte da carga financeira da dívida é descontada no imposto de renda. Tomou-se muito crédito de CP para o ramo imobiliário e de bens duráveis, além de os EUA terem financiado investimentos no terciário e na indústria de ponta.
  • A taxa de juros estava em declínio por três motivos: absorção de liquidez internacional, posição menos ortodoxa do FED e queda da inflação. A queda da inflação é em virtude da baixa dos custos internos provocada pela sobrevalorização do dólar e pela concorrência das importações.
  • Desde 1982, as rendas de americanos no exterior não cobriam o déficit em transações correntes, porém a entrada de capitais estrangeiros fez essa cobertura. Aumentou o investimento em capital de risco e basicamente toda Europa e Japão estavam investindo nos EUA, gerando uma taxa de crescimento entre 7 e 8%.
  • Havia agora um excesso de capital e de “poupança externa”, devido ao resto do mundo ter obedecido à política conservadora (sincronização das políticas ortodoxas), que significou manter níveis baixos de investimento e de crescimento e forçar as exportações. Então nesse momento todos os países estavam com superávits menos os EUA.
  • Ao abrirem sua economia, provocaram maciça transferência de capitais do resto do mundo para os EUA e exatamente isto permite fechar o déficit estrutural financeiro do setor público. A novidade é que agora todo o mundo estava financiando o Tesouro, os consumidores e investidores americanos, ocorrendo transferência de “poupança real”.
  • Muitos pensavam que a alta taxa de juros frearia os investimentos, porém os americanos não estavam financiando o investimento através do mercado de capitais; o mercado relevante é o monetário; eles estavam substituindo o tradicional endividamento de LP por crédito de CP ou recursos próprios e capital de risco.
  • Os juros podiam baixar desde que mantivessem um ligeiro diferencial com os países europeus, isso porque a dívida pública americana estava sendo financiada por uma corrida de todos os capitais bancários do mundo para os EUA.
  • Os EUA não precisam resolver seu problema de financiamento interno enquanto a taxa de crescimento dos países europeus for inferior à taxa americana. Até então os países do resto do mundo estavam investindo preferencialmente nos EUA, enquanto as políticas nacionais destinam-se a segurar as estruturas produtivas industriais.
  • Entretanto, ao mesmo tempo em que aumentava a concorrência inter-capitalista, via-se uma melhora na eficiência das indústrias modernas do Japão e de alguns países da Europa. Mas paralelamente os EUA aproveitavam essa situação modernizando sua estrutura produtiva às custas por exemplo da América Latina.
  • Japoneses e europeus responderam aliando-se forçosamente aos Estados Unidos. A Europa continuava paralisada e alinhada por questões de segurança e estratégia, mas também por sua incapacidade de fazer uma política econômica comum na época.
  • Caso os EUA consigam manter sua política até 1988, a retomada da hegemonia terminará convertendo a economia americana numa economia “cêntrica” e não apenas dominante:
    • será uma década de absorção de liquidez, capitais e crédito do resto do mundo;
    • terão alcançado crescimento à custa da estagnação relativa de seus competidores capitalistas;
    • terão financiado modernização do terciário e de seu parque industrial aproveitando as “economias externas” (periferia ou não).
  • Os problemas estruturais americanos dizem respeito ao reajuste de sua infraestrutura básica, o que requer processo prévio de consolidação bancária e de reestruturação da dívida interna americana.
  • Se os EUA fizerem uma “reciclagem” da sua estrutura financeira, então o dólar poderia deslizar outra vez. Isso não era recomendável até 1988, pois o dólar desvalorizando geraria fuga maciça de capitais e o sistema financeiro poderia quebrar.
  • Situação do Brasil se essas hipóteses se confirmarem:
    • condenado a renegociar a dívida externa ano após ano;
    • se verá forçado a pagar pelo menos parte dos juros aos banqueiros internacionais e tentar capitalizar a outra parte;
    • o país precisaria acumular um superávit comercial equivalente ao montante de juros devidos: isso não ocorria porque mantínhamos um superávit com os EUA superior à remessa de juros aos banqueiros americanos, mas inferior ao pago ao conjunto do sistema bancário internacional;
    • o país está totalmente subordinado à política econômica americana em política de exportação, cambial e de dívida e é forçado a fazer exatamente o contrário dos EUA, perdendo nas relações de troca e inflação.
    • em alguns mercados somos supridores de 2ª linha de produtos agrícolas, nos espaços abertos pelas flutuações cíclicas da oferta americana, aí onde a concorrência será mais acirrada pelo mercado americano.
  • Do ponto de vista do IED (investimento estrangeiro direto) americano, a prioridade são os setores de informática, bancos e armas, sobre os quais pretendem ter uma hegemonia incontestável e que apresentam maiores probabilidades de expansão no LP, para capitais americanos já sediados no país.
  • A autora deixa no ar, por fim, um questionamento sobre a soberania brasileira (“devedor soberano”) diante de sua dívida externa sem ceder nos seus próprios interesses, em suma reconhecer a realidade mundial, sem se deixar intimidar por ela.
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A Nova Ordem Econômica Global

GILPIN, R. The New Global Economic Order. In: ________ Global Political Economy: Understanding the International Economic Order.  Princeton, NJ: Princeton University Press. p. 3-24, 2001.

  • Globalização tem sido uma das características mais importantes dos assuntos econômicos e políticos internacionais desde o fim da Guerra Fria, embora a extensão e significado do seu conceito tem sido exagerado e mal compreendido.
  • Globalização na verdade não é tão extensiva nem tão abrangente como muitos creem, porque este ainda é um mundo onde políticas nacionais e economias domésticas são os principais determinantes dos assuntos econômicos.
  • Entretanto, a globalização e a crescente interdependência entre as economias nacionais são importantes. Como se pode observar a principal conquista do pós-II Guerra foi restaurar o nível de integração econômica internacional anterior à I Guerra.
  • O foco dessa abordagem é nos “sistemas nacionais de política econômica” e a importância destes para assuntos econômicos domésticos ou internacionais.
  • Conforme as economias foram se tornando mais e mais integradas, as diferenças entre as economias nacionais aumentaram drasticamente.
  • Em meados dos anos 1980, uma revolução nos assuntos econômicos internacionais ocorreu quando as empresas multinacionais (MNEs) e o investimento estrangeiro direto (IED) passaram a impactar em cada aspecto da economia global. A expensão das multinacionais, agora não apenas americanas, integrou mais completamente as economias nacionais e, mais importante, MNEs conduziram à internacionalização de serviços e da produção.
  • Hoje o debate sobre desenvolvimento econômico recai sobre o papel apropriado do Estado e do mercado no processo de desenvolvimento. Ainda, o regionalismo econômico inundou o mundo e tem um impacto significante na economia internacional.
  • Desde meados da década de 1980 ocorreram desenvolvimentos no setor financeiro que também contribuíram para maior integração da economia global.

Mudanças na economia global

  • A principal mudança foi o fim da Guerra Fria e da ameaça soviética aos EUA e seus aliados europeus e japoneses.  Os EUA e seus aliados, durante a Guerra Fria, subordinaram potenciais conflitos econômicos à necessidade de se manter cooperação política e de segurança. Essa ênfase na questão securitária e na coesão de alianças forneceu o amálgama necessário para unir a economia mundial e facilitar compromissos de diferentes interesses nacionais sobre questões econômicas.
  • Com o fim da Guerra Fria, a liderança americana e a cooperação econômica entre os poderes capitalistas diminuiu. Simultaneamente, o mundo orientado para o mercado cresceu amplamente graças a incorporação de países menos desenvolvidos e ex-comunistas ao sistema de mercado. Esses passaram a ter uma atuação mais efetiva no âmbito da OMC.
  • A globalização econômica forneceu alguns desenvolvimentos-chave em comércio, finanças e investimento estrangeiro direito pelas corporações multinacionais. O comércio internacional cresceu mais que a produção econômica global.
  • Com a grande expansão do comércio de mercadorias, o comércio em serviços também cresceu, e, com a queda nos custos de transporte, mais e mais mercadorias tornaram-se comercializáveis. Isso gerou maior competição internacional.
  • Anos 1980-1990: a competição comercial torna-se mais intensiva, na medida em que se incorporam as economias industrializadas do Leste Asiático, que passaram da substituição de importações para estratégias de crescimento liderado pelas exportações. Mesmo assim, as mais competitivas continuavam sendo as firmas americanas.
  • Alguns desenvolvimentos contribuíram para a expansão do comércio global:
    1. diminuição das barreiras ao comércio, devido a sucessivas rodadas de negociações entre os países;
    2. desregulamentação e privatização, abrindo as economias nacionais à importação;
    3. avanços tecnológicos nas comunicações e transportes, o que reduziu custos e encorajou a expansão.
  • A desregulamentação financeira, desde meados dos anos 1970, e a criação de novos instrumentos, como os derivativos, além de avanços tecnológicos nas comunicações, contribuíram para um sistema financeiro internacional mais integrado. Derivativos, títulos mobiliários reagrupados e demais ativos financeiros têm contribuído para a complexidade e instabilidade das finanças internacionais, com um profundo impacto na economia global.
  • A revolução financeira aproximou mais e mais as economias nacionais e aumentou o capital disponível para países em desenvolvimento.
  • Como muitos dos fluxos financeiros são de curto prazo, altamente voláteis e especulativos, o sistema financeiro internacional se tornou o aspecto mais instável da economia capitalista global, o que tem deixado os governos mais vulneráveis a mudanças bruscas nos movimentos de capitais especulativos. Isso aconteceu na crise financeira europeia de 1992, que obrigou a Grã-Bretanha a abandonar o Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio.
  • Para uns, a globalização financeira exemplifica o triunfo saudável e benéfico do capitalismo global; para outros, o sistema financeiro internacional está fora de controle e deveria ser melhor regulado. De qualquer forma, na área das finanças internacionais é que o termo globalização é mais apropriadamente aplicado.
  • O uso do termo globalização se tornou popular na segunda metade dos anos 1980 em conexão com o imenso aumento no investimento estrangeiro direto pelas corporações multinacionais, expandindo-se mais rápido que o comércio e a produção globais e geralmente dos países mais industrializados para os em vias de industrialização. A maior parte dos IED tem sido em serviços e indústrias high tech (automotiva e de informação).
  • Combinado ao aumento do comércio e dos fluxos financeiros, a crescente importância das MNEs transformou significativamente a economia internacional.
  • O fim da Guerra Fria forneceu a condição política necessária para a criação de uma economia verdadeiramente global.
  • Desenvolvimentos econômicos, políticos e tecnológicos (novas tecnologias em transporte, principalmente interoceânico e surgimento do computador e avanços nas telecomunicações) têm sido a força motriz da globalização econômica. Os avanços em transporte reduziram custos e abriram mais o mercado global; já as novas tecnologias de informação contribuíram para aumentar os fluxos financeiros globais.
  • O tempo e o espaço foi comprimido, como resultado dessas mudanças tecnológicas, e isso reduziu os custos do comércio internacional.
  • A globalização também tem se dado através da cooperação econômica internacional e de novas políticas econômicas, sob a liderança dos EUA. Mais e mais nações adotaram políticas neoliberais, como desregulamentações e privatizações, resultando numa economia global crescentemente voltada para o mercado.
  • Alguns observadores acreditam que está ocorrendo uma grande mudança na economia internacional de orientada pelo Estado para orientada pelo mercado, rumo a um mundo sem fronteiras. O estado-nação seria um anacronismo e estaria em retração.
  • Muitos ainda acreditam que o declínio do Estado está conduzindo a uma economia internacional verdadeiramente aberta e global caracterizada pelo comércio irrestrito, fluxos financeiros e pela atividade internacional das MNEs.
  • Críticos, entretanto, apontam para os altos custos da globalização econômica, que incluem a crescente desigualdade entre nações e dentro delas, altos níveis de desemprego, degradação ambiental, exploração descontrolada, além das consequências devastadoras para as economias nacionais da desregulamentação dos fluxos financeiros internacionais. Ainda, consideram que o mercado desregulado e outras forças econômicas têm causado disputas intensas entre nações, classes econômicas e grupos poderosos, o que poderia resultar em uma competição entre blocos regionais dominados por alguma grande potência econômica.
  • Para Gilpin, a noção de que a globalização é responsável pela maioria dos problemas econômicos, políticos entre outros é evidentemente falsa ou enormemente exagerada. Fatores como desenvolvimentos tecnológicos e políticas nacionais imprudentes são mais importantes como causa desses problemas do que a globalização.
  • O fato é que a globalização não é tão penetrante, abrangente ou significativa como muitos nos fazem acreditar, porque:
    • a maioria das economias nacionais ainda são mais auto-suficientes que globalizadas;
    • a globalização ainda é restrita a um limitado, embora crescente, número de setores econômicos;
    • a globalização é amplamente restrita a tríade de países industrializados: EUA, Europa Ocidental e Japão, além dos mercados emergentes do leste da Ásia.
    • muitos dos ataques à globalização feitos por seus críticos são inapropriados, pois se devem a mudanças que nada tem a ver com a globalização em si.
  • O fim da Guerra Fria e o crescimento da globalização econômica coincidiram com uma nova revolução industrial baseada no computador e a ascensão da informação ou “economia-internet”, o que alterou muitos aspectos dos assuntos econômicos.
  • Durante as últimas décadas do século XX, houve uma mudança significativa na distribuição da indústria global das antigas economias industrializadas, EUA, Europa e Japão, para Ásia-Pacífico, América Latina e outras economias em rápido processo de industrialização.
  • Embora os EUA e outras economias industrializadas ainda possuem grande parcela da riqueza e produção globais, eles declinaram em termos relativos enquanto economias em vias de industrialização, especialmente a China, ganharam importância econômica. O sucesso econômico da Ásia-Pacífico é impressionante e esses mercados emergentes continuarão a ser importantes atores na economia global.
  • Em resposta aos desenvolvimentos políticos, econômicos e tecnológicos, surge um novo regionalismo econômico, baseado na crescente regionalização do investimento direto, da produção e de outras atividades econômicas. Cada arranjo regional representa esforços cooperativos de estados individuais para promover tanto seus interesses nacionais quanto seus objetivos políticos e econômicos coletivos.
  • O regionalismo econômico do século XXI é uma importante resposta do Estado-nação a problemas políticos compartilhados e à alta interdependência e competitividade da economia global.
  • Esses desenvolvimentos levaram a uma nova governança global, que deveria promover a abertura dos mercados, guiada por prescrições de políticas neoclássicas e baseada nos princípios do mercado.
  • Os objetivos da nova governança global seriam livre comércio, liberdade de movimento de capitais e acesso irrestrito das multinacionais aos mercados ao redor do globo, segundo a visão americana.
  • A experiência histórica revela que as atividades econômicas não são apenas determinadas pelo mercado, mas também por normas, valores e interesses dos sistemas político e social nos quais a economia está inserida. Os fatores políticos são tão importantes, ou até mais, que os econômicos.
  • A economia global é fortemente afetada por interesses políticos e de segurança de potências como Estados Unidos, Europa Ocidental, Japão, Rússia e China e pelas relações entre estes. É altamente improvável que tais países deixariam a distribuição do produto econômico global e o impacto das forças econômicas em seus interesses nacionais totalmente nas mãos do mercado.
  • Diante disso, constata-se que as teorias econômicas são insuficientes para se entender os desenvolvimentos e a significância destes para os assuntos econômicos e políticos, o que se leva à necessidade de novos estudos, não apenas os predominantemente baseados em modelos matemáticos abstratos.

Perspectivas Intelectuais

  • Com o fim do comunismo e o fim da estratégia de substituição de importações, adotada pelos países menos desenvolvidos, a relevância da perspectiva marxista declinou e se viu uma ascensão e aceitação dos princípios da corrente liberal, como abertura das economias a importações e ao investimento estrangeiro direto, a diminuição gradual da importância do Estado na economia e mudanças para estratégias de crescimento via exportação.
  • O marxismo sobrevive como uma ferramenta analítica e de crítica ao capitalismo e ele vai continuar sobrevivendo enquanto as falhas do sistema persistirem: os altos e baixos da evolução cíclica do capitalismo, a pobreza generalizada lado a lado com a grande acumulação e as intensas rivalidades das economias capitalistas sobre porções do mercado.
  • Cada uma das três perspectivas (liberalismo, marxismo e nacionalismo) é composta por elementos analíticos e normativos.
  • O liberalismo econômico não é apenas uma ferramenta analítica baseada nas teorias e pressupostos da economia neoclássica, mas é também uma normativa comprometida com o mercado ou com a economia capitalista.
  • Marx aceitou as ideias analíticas básicas da economia liberal de sua época, mas desprezou o capitalismo e questionou sobre as origens do sistema, as leis que governavam sua evolução e seu destino final. Marxistas estão mais interessados na dinâmica do sistema capitalista no longo prazo.
  • O nacionalismo econômico, em seu elemento analítico, reconhece a natureza anárquica dos assuntos internacionais, a primazia do Estado nestes e a importância do poder nas relações interestatais. Em seu elemento normativo está comprometido ao estado-nação, à construção do Estado e à superioridade moral de um Estado sobre todos os outros.
  • Gilpin aceita o nacionalismo econômico em sua abordagem estatocêntrica, como uma perspectiva analítica, sem se comprometer com seus normativos. O normativo com que se compromete é o do liberalismo econômico: livre comércio e mínimas barreiras para fluxos de mercadorias, bens e serviços; e capital cruzando fronteiras, embora em certas circunstâncias políticas nacionalistas como proteção comercial podem ser justificadas.

Minha Perspectiva: Realismo Estatocêntrico

  • Realismo é uma posição filosófica e uma perspectiva analítica; não é necessariamente um comprometimento moral com o Estado-nação, tampouco uma teoria científica, já que suas hipóteses não podem ser provadas nem refutadas por pesquisa empírica.
  • Nem todos os realistas são nacionalistas, embora todos os nacionalistas sejam realistas. Morgenthau e Hedley Bull, por exemplo, são realistas não nacionalistas.
  • Embora os realistas reconheçam o papel central do Estado, da segurança e do poder nos assuntos internacionais, eles não necessariamente aprovam esta situação.
  • Morgenthau, em seu Politics Among Nations (1972), condenou o nacionalismo universal, ou seja, o comportamento imperialista, como sendo imoral. Um de suas mensagens básicas foi que Estados deveriam tentar respeitar os interesses dos demais Estados.
  • Há uma variedade de pensamento realista, sendo dois principais:
    1. realismo estatocêntrico: realismo tradicional de Tucídides, Maquiavel e Morgenthau, que coloca o Estado como ator principal nos assuntos internacionais e considera que não há autoridade superior a estas unidades políticas soberanas. Essa posição afirma que a análise deve focar no comportamento individual dos Estados.
    2. realismo sistêmico: também chamado de realismo estrutural ou neo-realismo, associado a Kenneth Waltz e sua obra Theory of International Politics (1979), que enfatiza a distribuição de poder entre Estados dentro de um sistema internacional que atua como principal determinante do comportamento estatal.
  • O realismo estatocêntrico vê o Estado como principal ator nos assuntos internacionais porque ele assume que o sistema internacional é anárquico, com ausência de uma autoridade superior. Anarquia nesse sentido significa que os Estados não têm a quem recorrer quando enfrentam problemas, embora eles cooperem uns com os outros e criem instituições em muitas áreas.
  • As preocupações centrais dos Estados são seus interesses nacionais, definidos em termos de segurança militar e independência política.
  • Para os realistas, poder e relações de poder tem enorme importância nos assuntos internacionais. O poder pode assumir a forma de relacionamentos militares, econômicos e psicológicos entre os Estados, conforme aponta E. H. Carr.
  • Apesar da ênfase no poder, outros fatores como ideias, normas e valores também desempenham papel importante nos assuntos internacionais e isso não é desconsiderado pelos realistas.
  • Gilpin define “economia política global” como a interação entre mercado e poderosos atores como Estados, firmas multinacionais e organizações internacionais. Assume que o estado territorial continua a ser ator primário em ambas as esferas doméstica e internacional, embora não seja o único ator importante. Apesar da importância destes outros atores, Gilpin enfatiza que são governos nacionais que tomam as principais decisões sobre políticas econômicas e continuam a estabelecer as regras dentro das quais outros atores funcionam e eles usam seu considerável poder pra influenciar resultados econômicos.
  • Gilpin assume que os interesses e políticas dos Estados são determinados por uma elite política dominante, pelas pressões de grupos no interior da sociedade nacional e pela natureza do sistema nacional da economia política.
  • A posição estatocêntrica do autor assume que a segurança nacional é e sempre será a principal preocupação do Estado. Em um sistema internacional de auto-ajuda, Estados devem estar constantemente preocupados com possíveis ameaças a sua independência política e econômica.
  • Estados devem estar continuamente atentos a mudanças nas relações de poder e as consequências para seus interesses nacionais da alteração na balança de poder internacional.
  • Uma das mais importantes críticas ao realismo é o construtivismo, que considera que a política internacional é socialmente construída ao invés de constituir uma realidade objetiva. Os dois pressupostos básicos do construtivismo, de acordo com Alexander Wendt, são:
    1. estruturas humanas são determinadas principalmente por ideias compartilhadas ao invés de forças materiais;
    2. as identidades e interesses dos seres humanos são construídas ou são produtos destas ideias compartilhadas ao invés de serem produtos da natureza.
  • A principal crítica do construtivismo ao realismo é que este é puramente materialista e analisa a política global em termos de forças tecnológicas, circunstâncias físicas e demais fatores objetivos. Para os construtivistas, a ênfase está no papel das ideias, estruturas sociais e vontades humanas nos assuntos políticos; as pessoas podem construir um universo mais político e mais humano que o descrito pelos realistas.
  • Para Gilpin, ideias são obviamente importantes, mas o mundo é composto de muitos limitantes econômicos, tecnológicos, entre outros, que restringem a sabedoria e praticidade de certas ideias e construções sociais.
  • Uma das ideias-chave para a análise de política internacional pelos construtivistas é a ideia de identidade, ou como uma sociedade se define. Os realistas negligenciam a importância da identidade e focam em interesses materiais e considerações sobre poder.
  • Os realistas de fato priorizam interesses a identidade, embora reconheçam a importância da identidade no comportamento do Estado. Identidades políticas e econômicas, ou ideologias, podem ter uma forte influência sobre o comportamento nacional. Realistas divergem dos construtivistas sobre esta identidade ser o fator mais importante e o único determinante da política externa de uma nação.
  • A posição estatocêntrica da economia política internacional rejeita a noção de que forças tecnológicas e econômicas tem eclipsado o papel do Estado e criado uma economia global em que as fronteiras e governos nacionais não são importantes. Em uma economia internacional altamente integrada, o Estado continua agindo para alterar as forças econômicas em favor de seus interesses e de seus cidadãos.
  • Os meios pelos quais a economia internacional funciona são determinados tanto pelo mercado como pelas políticas dos estados-nação, especialmente as dos mais poderosos. Sozinhos, mercado e forças econômicas não podem dar conta da estrutura e funcionamento da economia global.
  • A interação entre ambições políticas e rivalidades estatais, incluindo os esforços cooperativos, criam a estrutura das relações políticas dentro da qual mercados e forças econômicas operam. Os Estados estabelecem as regras que empreendedores individuais e multinacionais devem seguir, e tais regras refletem os interesses políticos e econômicos dos Estados dominantes.
  • Em cada sociedade, os objetivos das atividades econômicas e o papel dos mercados na obtenção desses objetivos são determinados por processos políticos e em último grau são responsabilidades delegadas pela sociedade ao Estado.