A Nova Ordem Econômica Global

GILPIN, R. The New Global Economic Order. In: ________ Global Political Economy: Understanding the International Economic Order.  Princeton, NJ: Princeton University Press. p. 3-24, 2001.

  • Globalização tem sido uma das características mais importantes dos assuntos econômicos e políticos internacionais desde o fim da Guerra Fria, embora a extensão e significado do seu conceito tem sido exagerado e mal compreendido.
  • Globalização na verdade não é tão extensiva nem tão abrangente como muitos creem, porque este ainda é um mundo onde políticas nacionais e economias domésticas são os principais determinantes dos assuntos econômicos.
  • Entretanto, a globalização e a crescente interdependência entre as economias nacionais são importantes. Como se pode observar a principal conquista do pós-II Guerra foi restaurar o nível de integração econômica internacional anterior à I Guerra.
  • O foco dessa abordagem é nos “sistemas nacionais de política econômica” e a importância destes para assuntos econômicos domésticos ou internacionais.
  • Conforme as economias foram se tornando mais e mais integradas, as diferenças entre as economias nacionais aumentaram drasticamente.
  • Em meados dos anos 1980, uma revolução nos assuntos econômicos internacionais ocorreu quando as empresas multinacionais (MNEs) e o investimento estrangeiro direto (IED) passaram a impactar em cada aspecto da economia global. A expensão das multinacionais, agora não apenas americanas, integrou mais completamente as economias nacionais e, mais importante, MNEs conduziram à internacionalização de serviços e da produção.
  • Hoje o debate sobre desenvolvimento econômico recai sobre o papel apropriado do Estado e do mercado no processo de desenvolvimento. Ainda, o regionalismo econômico inundou o mundo e tem um impacto significante na economia internacional.
  • Desde meados da década de 1980 ocorreram desenvolvimentos no setor financeiro que também contribuíram para maior integração da economia global.

Mudanças na economia global

  • A principal mudança foi o fim da Guerra Fria e da ameaça soviética aos EUA e seus aliados europeus e japoneses.  Os EUA e seus aliados, durante a Guerra Fria, subordinaram potenciais conflitos econômicos à necessidade de se manter cooperação política e de segurança. Essa ênfase na questão securitária e na coesão de alianças forneceu o amálgama necessário para unir a economia mundial e facilitar compromissos de diferentes interesses nacionais sobre questões econômicas.
  • Com o fim da Guerra Fria, a liderança americana e a cooperação econômica entre os poderes capitalistas diminuiu. Simultaneamente, o mundo orientado para o mercado cresceu amplamente graças a incorporação de países menos desenvolvidos e ex-comunistas ao sistema de mercado. Esses passaram a ter uma atuação mais efetiva no âmbito da OMC.
  • A globalização econômica forneceu alguns desenvolvimentos-chave em comércio, finanças e investimento estrangeiro direito pelas corporações multinacionais. O comércio internacional cresceu mais que a produção econômica global.
  • Com a grande expansão do comércio de mercadorias, o comércio em serviços também cresceu, e, com a queda nos custos de transporte, mais e mais mercadorias tornaram-se comercializáveis. Isso gerou maior competição internacional.
  • Anos 1980-1990: a competição comercial torna-se mais intensiva, na medida em que se incorporam as economias industrializadas do Leste Asiático, que passaram da substituição de importações para estratégias de crescimento liderado pelas exportações. Mesmo assim, as mais competitivas continuavam sendo as firmas americanas.
  • Alguns desenvolvimentos contribuíram para a expansão do comércio global:
    1. diminuição das barreiras ao comércio, devido a sucessivas rodadas de negociações entre os países;
    2. desregulamentação e privatização, abrindo as economias nacionais à importação;
    3. avanços tecnológicos nas comunicações e transportes, o que reduziu custos e encorajou a expansão.
  • A desregulamentação financeira, desde meados dos anos 1970, e a criação de novos instrumentos, como os derivativos, além de avanços tecnológicos nas comunicações, contribuíram para um sistema financeiro internacional mais integrado. Derivativos, títulos mobiliários reagrupados e demais ativos financeiros têm contribuído para a complexidade e instabilidade das finanças internacionais, com um profundo impacto na economia global.
  • A revolução financeira aproximou mais e mais as economias nacionais e aumentou o capital disponível para países em desenvolvimento.
  • Como muitos dos fluxos financeiros são de curto prazo, altamente voláteis e especulativos, o sistema financeiro internacional se tornou o aspecto mais instável da economia capitalista global, o que tem deixado os governos mais vulneráveis a mudanças bruscas nos movimentos de capitais especulativos. Isso aconteceu na crise financeira europeia de 1992, que obrigou a Grã-Bretanha a abandonar o Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio.
  • Para uns, a globalização financeira exemplifica o triunfo saudável e benéfico do capitalismo global; para outros, o sistema financeiro internacional está fora de controle e deveria ser melhor regulado. De qualquer forma, na área das finanças internacionais é que o termo globalização é mais apropriadamente aplicado.
  • O uso do termo globalização se tornou popular na segunda metade dos anos 1980 em conexão com o imenso aumento no investimento estrangeiro direto pelas corporações multinacionais, expandindo-se mais rápido que o comércio e a produção globais e geralmente dos países mais industrializados para os em vias de industrialização. A maior parte dos IED tem sido em serviços e indústrias high tech (automotiva e de informação).
  • Combinado ao aumento do comércio e dos fluxos financeiros, a crescente importância das MNEs transformou significativamente a economia internacional.
  • O fim da Guerra Fria forneceu a condição política necessária para a criação de uma economia verdadeiramente global.
  • Desenvolvimentos econômicos, políticos e tecnológicos (novas tecnologias em transporte, principalmente interoceânico e surgimento do computador e avanços nas telecomunicações) têm sido a força motriz da globalização econômica. Os avanços em transporte reduziram custos e abriram mais o mercado global; já as novas tecnologias de informação contribuíram para aumentar os fluxos financeiros globais.
  • O tempo e o espaço foi comprimido, como resultado dessas mudanças tecnológicas, e isso reduziu os custos do comércio internacional.
  • A globalização também tem se dado através da cooperação econômica internacional e de novas políticas econômicas, sob a liderança dos EUA. Mais e mais nações adotaram políticas neoliberais, como desregulamentações e privatizações, resultando numa economia global crescentemente voltada para o mercado.
  • Alguns observadores acreditam que está ocorrendo uma grande mudança na economia internacional de orientada pelo Estado para orientada pelo mercado, rumo a um mundo sem fronteiras. O estado-nação seria um anacronismo e estaria em retração.
  • Muitos ainda acreditam que o declínio do Estado está conduzindo a uma economia internacional verdadeiramente aberta e global caracterizada pelo comércio irrestrito, fluxos financeiros e pela atividade internacional das MNEs.
  • Críticos, entretanto, apontam para os altos custos da globalização econômica, que incluem a crescente desigualdade entre nações e dentro delas, altos níveis de desemprego, degradação ambiental, exploração descontrolada, além das consequências devastadoras para as economias nacionais da desregulamentação dos fluxos financeiros internacionais. Ainda, consideram que o mercado desregulado e outras forças econômicas têm causado disputas intensas entre nações, classes econômicas e grupos poderosos, o que poderia resultar em uma competição entre blocos regionais dominados por alguma grande potência econômica.
  • Para Gilpin, a noção de que a globalização é responsável pela maioria dos problemas econômicos, políticos entre outros é evidentemente falsa ou enormemente exagerada. Fatores como desenvolvimentos tecnológicos e políticas nacionais imprudentes são mais importantes como causa desses problemas do que a globalização.
  • O fato é que a globalização não é tão penetrante, abrangente ou significativa como muitos nos fazem acreditar, porque:
    • a maioria das economias nacionais ainda são mais auto-suficientes que globalizadas;
    • a globalização ainda é restrita a um limitado, embora crescente, número de setores econômicos;
    • a globalização é amplamente restrita a tríade de países industrializados: EUA, Europa Ocidental e Japão, além dos mercados emergentes do leste da Ásia.
    • muitos dos ataques à globalização feitos por seus críticos são inapropriados, pois se devem a mudanças que nada tem a ver com a globalização em si.
  • O fim da Guerra Fria e o crescimento da globalização econômica coincidiram com uma nova revolução industrial baseada no computador e a ascensão da informação ou “economia-internet”, o que alterou muitos aspectos dos assuntos econômicos.
  • Durante as últimas décadas do século XX, houve uma mudança significativa na distribuição da indústria global das antigas economias industrializadas, EUA, Europa e Japão, para Ásia-Pacífico, América Latina e outras economias em rápido processo de industrialização.
  • Embora os EUA e outras economias industrializadas ainda possuem grande parcela da riqueza e produção globais, eles declinaram em termos relativos enquanto economias em vias de industrialização, especialmente a China, ganharam importância econômica. O sucesso econômico da Ásia-Pacífico é impressionante e esses mercados emergentes continuarão a ser importantes atores na economia global.
  • Em resposta aos desenvolvimentos políticos, econômicos e tecnológicos, surge um novo regionalismo econômico, baseado na crescente regionalização do investimento direto, da produção e de outras atividades econômicas. Cada arranjo regional representa esforços cooperativos de estados individuais para promover tanto seus interesses nacionais quanto seus objetivos políticos e econômicos coletivos.
  • O regionalismo econômico do século XXI é uma importante resposta do Estado-nação a problemas políticos compartilhados e à alta interdependência e competitividade da economia global.
  • Esses desenvolvimentos levaram a uma nova governança global, que deveria promover a abertura dos mercados, guiada por prescrições de políticas neoclássicas e baseada nos princípios do mercado.
  • Os objetivos da nova governança global seriam livre comércio, liberdade de movimento de capitais e acesso irrestrito das multinacionais aos mercados ao redor do globo, segundo a visão americana.
  • A experiência histórica revela que as atividades econômicas não são apenas determinadas pelo mercado, mas também por normas, valores e interesses dos sistemas político e social nos quais a economia está inserida. Os fatores políticos são tão importantes, ou até mais, que os econômicos.
  • A economia global é fortemente afetada por interesses políticos e de segurança de potências como Estados Unidos, Europa Ocidental, Japão, Rússia e China e pelas relações entre estes. É altamente improvável que tais países deixariam a distribuição do produto econômico global e o impacto das forças econômicas em seus interesses nacionais totalmente nas mãos do mercado.
  • Diante disso, constata-se que as teorias econômicas são insuficientes para se entender os desenvolvimentos e a significância destes para os assuntos econômicos e políticos, o que se leva à necessidade de novos estudos, não apenas os predominantemente baseados em modelos matemáticos abstratos.

Perspectivas Intelectuais

  • Com o fim do comunismo e o fim da estratégia de substituição de importações, adotada pelos países menos desenvolvidos, a relevância da perspectiva marxista declinou e se viu uma ascensão e aceitação dos princípios da corrente liberal, como abertura das economias a importações e ao investimento estrangeiro direto, a diminuição gradual da importância do Estado na economia e mudanças para estratégias de crescimento via exportação.
  • O marxismo sobrevive como uma ferramenta analítica e de crítica ao capitalismo e ele vai continuar sobrevivendo enquanto as falhas do sistema persistirem: os altos e baixos da evolução cíclica do capitalismo, a pobreza generalizada lado a lado com a grande acumulação e as intensas rivalidades das economias capitalistas sobre porções do mercado.
  • Cada uma das três perspectivas (liberalismo, marxismo e nacionalismo) é composta por elementos analíticos e normativos.
  • O liberalismo econômico não é apenas uma ferramenta analítica baseada nas teorias e pressupostos da economia neoclássica, mas é também uma normativa comprometida com o mercado ou com a economia capitalista.
  • Marx aceitou as ideias analíticas básicas da economia liberal de sua época, mas desprezou o capitalismo e questionou sobre as origens do sistema, as leis que governavam sua evolução e seu destino final. Marxistas estão mais interessados na dinâmica do sistema capitalista no longo prazo.
  • O nacionalismo econômico, em seu elemento analítico, reconhece a natureza anárquica dos assuntos internacionais, a primazia do Estado nestes e a importância do poder nas relações interestatais. Em seu elemento normativo está comprometido ao estado-nação, à construção do Estado e à superioridade moral de um Estado sobre todos os outros.
  • Gilpin aceita o nacionalismo econômico em sua abordagem estatocêntrica, como uma perspectiva analítica, sem se comprometer com seus normativos. O normativo com que se compromete é o do liberalismo econômico: livre comércio e mínimas barreiras para fluxos de mercadorias, bens e serviços; e capital cruzando fronteiras, embora em certas circunstâncias políticas nacionalistas como proteção comercial podem ser justificadas.

Minha Perspectiva: Realismo Estatocêntrico

  • Realismo é uma posição filosófica e uma perspectiva analítica; não é necessariamente um comprometimento moral com o Estado-nação, tampouco uma teoria científica, já que suas hipóteses não podem ser provadas nem refutadas por pesquisa empírica.
  • Nem todos os realistas são nacionalistas, embora todos os nacionalistas sejam realistas. Morgenthau e Hedley Bull, por exemplo, são realistas não nacionalistas.
  • Embora os realistas reconheçam o papel central do Estado, da segurança e do poder nos assuntos internacionais, eles não necessariamente aprovam esta situação.
  • Morgenthau, em seu Politics Among Nations (1972), condenou o nacionalismo universal, ou seja, o comportamento imperialista, como sendo imoral. Um de suas mensagens básicas foi que Estados deveriam tentar respeitar os interesses dos demais Estados.
  • Há uma variedade de pensamento realista, sendo dois principais:
    1. realismo estatocêntrico: realismo tradicional de Tucídides, Maquiavel e Morgenthau, que coloca o Estado como ator principal nos assuntos internacionais e considera que não há autoridade superior a estas unidades políticas soberanas. Essa posição afirma que a análise deve focar no comportamento individual dos Estados.
    2. realismo sistêmico: também chamado de realismo estrutural ou neo-realismo, associado a Kenneth Waltz e sua obra Theory of International Politics (1979), que enfatiza a distribuição de poder entre Estados dentro de um sistema internacional que atua como principal determinante do comportamento estatal.
  • O realismo estatocêntrico vê o Estado como principal ator nos assuntos internacionais porque ele assume que o sistema internacional é anárquico, com ausência de uma autoridade superior. Anarquia nesse sentido significa que os Estados não têm a quem recorrer quando enfrentam problemas, embora eles cooperem uns com os outros e criem instituições em muitas áreas.
  • As preocupações centrais dos Estados são seus interesses nacionais, definidos em termos de segurança militar e independência política.
  • Para os realistas, poder e relações de poder tem enorme importância nos assuntos internacionais. O poder pode assumir a forma de relacionamentos militares, econômicos e psicológicos entre os Estados, conforme aponta E. H. Carr.
  • Apesar da ênfase no poder, outros fatores como ideias, normas e valores também desempenham papel importante nos assuntos internacionais e isso não é desconsiderado pelos realistas.
  • Gilpin define “economia política global” como a interação entre mercado e poderosos atores como Estados, firmas multinacionais e organizações internacionais. Assume que o estado territorial continua a ser ator primário em ambas as esferas doméstica e internacional, embora não seja o único ator importante. Apesar da importância destes outros atores, Gilpin enfatiza que são governos nacionais que tomam as principais decisões sobre políticas econômicas e continuam a estabelecer as regras dentro das quais outros atores funcionam e eles usam seu considerável poder pra influenciar resultados econômicos.
  • Gilpin assume que os interesses e políticas dos Estados são determinados por uma elite política dominante, pelas pressões de grupos no interior da sociedade nacional e pela natureza do sistema nacional da economia política.
  • A posição estatocêntrica do autor assume que a segurança nacional é e sempre será a principal preocupação do Estado. Em um sistema internacional de auto-ajuda, Estados devem estar constantemente preocupados com possíveis ameaças a sua independência política e econômica.
  • Estados devem estar continuamente atentos a mudanças nas relações de poder e as consequências para seus interesses nacionais da alteração na balança de poder internacional.
  • Uma das mais importantes críticas ao realismo é o construtivismo, que considera que a política internacional é socialmente construída ao invés de constituir uma realidade objetiva. Os dois pressupostos básicos do construtivismo, de acordo com Alexander Wendt, são:
    1. estruturas humanas são determinadas principalmente por ideias compartilhadas ao invés de forças materiais;
    2. as identidades e interesses dos seres humanos são construídas ou são produtos destas ideias compartilhadas ao invés de serem produtos da natureza.
  • A principal crítica do construtivismo ao realismo é que este é puramente materialista e analisa a política global em termos de forças tecnológicas, circunstâncias físicas e demais fatores objetivos. Para os construtivistas, a ênfase está no papel das ideias, estruturas sociais e vontades humanas nos assuntos políticos; as pessoas podem construir um universo mais político e mais humano que o descrito pelos realistas.
  • Para Gilpin, ideias são obviamente importantes, mas o mundo é composto de muitos limitantes econômicos, tecnológicos, entre outros, que restringem a sabedoria e praticidade de certas ideias e construções sociais.
  • Uma das ideias-chave para a análise de política internacional pelos construtivistas é a ideia de identidade, ou como uma sociedade se define. Os realistas negligenciam a importância da identidade e focam em interesses materiais e considerações sobre poder.
  • Os realistas de fato priorizam interesses a identidade, embora reconheçam a importância da identidade no comportamento do Estado. Identidades políticas e econômicas, ou ideologias, podem ter uma forte influência sobre o comportamento nacional. Realistas divergem dos construtivistas sobre esta identidade ser o fator mais importante e o único determinante da política externa de uma nação.
  • A posição estatocêntrica da economia política internacional rejeita a noção de que forças tecnológicas e econômicas tem eclipsado o papel do Estado e criado uma economia global em que as fronteiras e governos nacionais não são importantes. Em uma economia internacional altamente integrada, o Estado continua agindo para alterar as forças econômicas em favor de seus interesses e de seus cidadãos.
  • Os meios pelos quais a economia internacional funciona são determinados tanto pelo mercado como pelas políticas dos estados-nação, especialmente as dos mais poderosos. Sozinhos, mercado e forças econômicas não podem dar conta da estrutura e funcionamento da economia global.
  • A interação entre ambições políticas e rivalidades estatais, incluindo os esforços cooperativos, criam a estrutura das relações políticas dentro da qual mercados e forças econômicas operam. Os Estados estabelecem as regras que empreendedores individuais e multinacionais devem seguir, e tais regras refletem os interesses políticos e econômicos dos Estados dominantes.
  • Em cada sociedade, os objetivos das atividades econômicas e o papel dos mercados na obtenção desses objetivos são determinados por processos políticos e em último grau são responsabilidades delegadas pela sociedade ao Estado.

 

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Globalização Econômica: Aspectos Relevantes

MOREIRA, M. B. Globalização Econômica: Aspectos Relevantes. In: Jorge Alberto Machado (org.) Trabalho, Economia e Tecnologia. Novas Perspectivas para a Sociedade Global. São Paulo: Tendez e Praxis. p. 95-119, 2003.

  • Globalização é um conceito recente e polissêmico que pode ser entendido como “o resultado de um processo dialético envolvendo um sistema de forças muito diversificadas – econômicas, sociais, político-ideológicas (…) que desde as últimas três décadas do século XX vem modelando e remodelando a divisão internacional do trabalho, favorecendo a acumulação de capital e promovendo a homogeneização dos comportamentos e dos consumos humanos”.
  • O agente crítico da globalização é o capital financeiro internacional (conjunto das empresas transnacionais e instituições financeiras com dimensão e âmbito de atuação transnacional), que desenvolve estratégias para adaptar os padrões de acumulação a condições geoeconômicas e geopolíticas em mudança acelerada.
  • Aspectos da globalização que trouxeram implicações para o capitalismo mundial:
    • o processo ideológico que conduziu à hegemonia da ortodoxia neoliberal e a revolução nos transportes/logística e nas tecnologias de informação, como condições necessárias para a globalização;
    • a mudança dos modelos organizativos das empresas: pós-fordistas, novas formas de gestão à distância e articulação em rede;
    • a concentração espacial da vertente produtiva, acompanhando as tendências oligopolistas das grandes empresas transnacionais;
    • emergência de um mercado financeiro global: associada ao crescimento dos fluxos financeiros, maioria especulativos.
  • Reconhece-se a emergência do conceito ‘globalização’ para dar conta das mudanças no capitalismo mundial, porém não significa concordar com os que consideram o processo inevitável, irreversível e defensável.
  • Essas mudanças provocaram alterações significativas e dramáticas no relacionamento Estado-nação e capital, com efeitos nos povos que passam frequentemente pelo crescimento das desigualdades e pelo aumento da exclusão social.
  • Na esfera política, há convergência de autores de esquerda sobre a globalização ser uma nova roupagem do imperialismo americano, através do “globalizador” Consenso de Washington.
  • Num nível de análise mais abrangente, Rodrik fala no trilema da globalização: procura-se integração econômica, democracia e não se abdica da autodeterminação do Estado-nação, não sendo possível assegurar todas essas condições simultaneamente.

1 – A gênese da globalização

  • A abordagem proposta centra a gênese da globalização na ligação entre o mundo das ideias e a forma como elas servem para transformar o mundo através de fenômenos de agency. 
  • Esses fenômenos estão na base da emergência da hegemonia ideológica neoliberal e explicam por que essa ideologia se tornou instrumento para o início do processo de globalização. A globalização e o suporte ideológico neoliberal se reforçam mutuamente.
  • O deflagrar da globalização se deu graças à ação do governo hegemônico (EUA) e seu aliado ideológico preferencial (UK), mas isso num contexto em que a ideologia neoliberal já tinha se tornado hegemônica.
  • A contestação do paradigma keynesiano e a emergência da hegemonia da ideologia neoliberal devem-se muito em parte a círculos acadêmicos e opinion makers conservadores, em um contexto favorável à luta ideológica liberal contra os totalitarismos (especial a URSS).
  • O paradigma keynesiano foi substituído pelo neoclássico, segundo Krugman, graças à inevitabilidade de formalização matemática que dominava a produção teórica e o ensino das disciplinas econômicas. Isso também explica a queda da sub-disciplina Economia do Desenvolvimento e a consolidação do paradigma neoclássico.
  • Os estudos sobre falhas de governo também contribuíram para a hegemonia da ideologia neoliberal, pois a reforçavam e davam bases empíricas para se pregar a não intervenção do Estado, consequentemente pregando a extensão do mercado a esferas que antes não penetrava.
  • Esse movimento ocorre no contexto do final dos anos 1970 e início dos anos 1980, quando Thatcher inicia seu programa liberalizador.
  • Os EUA pressionaram o mundo para a liberalização do comércio internacional e, no âmbito das finanças, tanto Wall Street quanto Londres esforçaram-se para consolidar suas posições de domínio com a instauração de um mercado financeiro global.
  • Instituições de Bretton Woods ou da OCDE também contribuíram oferecendo estudos que demonstravam ganhos da liberalização dos mercados e a suposta superioridade dos países mais abertos. Essas instituições atendiam assim ao interesse do país economicamente hegemônico e mais influente, os EUA.
  • A hegemonia do paradigma neoclássico e a reafirmação das vantagens da liberdade de comércio permitiram aos seus defensores preparar um normativo de desenvolvimento, que seria usado pelo FMI, através da imposição de regras rígidas do Consenso de Washington aos países em dificuldades.
  • Assim foi possível passar uma mensagem, que sobrevaloriza o componente individual e privado, aos opinion makers e destes aos órgãos de poder e à opinião pública em geral, graças também aos meios de comunicação concentrados em redes globais. Redes estas que propagam a ideologia dominante como sua e ignoram as visões críticas.

2 – A lógica e a dinâmica do capitalismo global

  • A distinção entre capital nacional e internacional faz cada vez menos sentido, pois mesmo empresas voltadas apenas para mercados nacionais não deixam de obedecer a uma lógica e dinâmica compreendidas em uma perspectiva global. Entretanto, o local de origem das empresas transnacionais continua sendo importante no contexto de competitividade entre nações.
Os agentes econômicos da globalização
  • A hipótese do autor parte da ideia de que os agentes do capitalismo global mostram lógicas e dinâmicas diferenciadas, por vezes até concorrentes, cujos efeitos a nível local são também suficientemente diferentes.
  • A análise baseia-se na premissa de que os agentes do capitalismo que se regem por uma lógica e dinâmica globais obedecem a três modelos-tipo distintos.
    1. Os agentes do capitalismo global com preocupações produtivas:  são as empresas transnacionais envolvidas na produção de bens, que procuram economias de escala e baseiam sua competitividade em mecanismos oligopolistas para eliminar concorrência e garantir grandes mercados, além de fazerem uso de outsourcing para se adaptar aos desafios da globalização.  Exemplos: indústrias de capital intensivo (aeronáutica, petrolífera, química, high tech etc) e grandes firmas transnacionais no setor de infra-estrutura.
    2. Os agentes do capital global com preocupações comerciais:  esse modelo-tipo se baseia nas funções de intermediação, os agentes não necessitam estar envolvidos em qualquer atividade produtiva e permanecem próximos do consumidor, pois se interessam pela logística da distribuição e novas formas de vendas. Lidam com bens e serviços e procuram a maior flexibilidade possível, garantida pela possibilidade de se abastecer a nível global, pela capacidade organizativa de coordenação multi-espacial e pela alavanca financeira que lhes dá ligação de proximidade com os consumidores, que pagam à vista enquanto os fornecedores pedem prazos maiores. Exemplos: empresas detentoras de notórias marcas registradas (GAP, Liz Clairborne, Nike etc), cadeias de supermercados (Walmart, Ahold, Carrefour, Marks & Spencer etc). Um aspecto importante deste tipo de agentes transnacionais é o contínuo reforço do seu poder de mercado, em parte por seu país de origem, mas principalmente pela internacionalização, o que permite a eles negociarem com os agentes do capital global com preocupações produtivas em posição de força.
    3. Os agentes do capitalismo global com lógica financeira especulativa: baseia-se na especulação, que por sua vez confere enorme poder aos agentes do capital especulativo em razão dos elevados fluxos de capitais dedicados a atividades especulativas em escala global. Os movimentos especulativos tendem a um jogo de soma nula para os agentes envolvidos, porém há efeitos para a coletividade, como a instabilidade que provocam e o fato de as crises serem exponencialmente maiores no mundo globalizado. São maiores porque os montantes envolvidos na especulação crescem enormemente e tem efeitos imediatos sobre o globo. A lógica e a dinâmica deste modelo-tipo ganharam outra dimensão com a desregulação financeira e a liberdade de movimento de capitais. Os agentes especulativos foram os que mais aproveitaram a revolução das tecnologias e passaram a atuar em vários mercados em tempo real. O crescimento do poder deste tipo de capital está ligado ao peso dos investidores institucionais, detentores do “dinheiro estratégico”.
  • Em cada empresa transnacional encontramos um misto das características de cada modelo-tipo, sendo assim o capital global voltado para a produção de bens vai se adaptando a estas novas tendências.
  • Quanto ao capital especulativo, há de se destacar a possibilidade que ele tem de manipular cotações de empresas e influenciar taxas de câmbio, para obter mais-valias a curto prazo. Para isso precisa ter à disposição fundos avultados e ausência de forças reguladoras.
  • A dinâmica dos agentes especulativos depende muito da vontade política e da capacidade dos estados-nação ou de entidades reguladoras supranacionais. Quando se criam condições favoráveis à total desregulamentação, o poder do capital especulativo cresce.
  • Há uma evidente contradição entre o capital especulativo e os outros dois tipos, no sentido de que estes preferem um ambiente mais estável, enquanto aquele vê excelentes oportunidades de negócios na instabilidade e volatilidade dos mercados financeiros.
  • As preocupações especulativas estão presentes nos outros agentes do capitalismo global e são dele parte indissociável.

3 – Os impactos da globalização

A globalização e suas implicações políticas
  • Em razão da globalização, o papel do Estado se alterou significativamente e as empresas transnacionais passaram a mostrar-se mais impositivas e menos preocupadas em se adaptar às exigências dos países onde se instalam.
  • O capital global libertou-se de muitas formas de regulação do estado-nação e conseguiu assumir funções e poderes reguladores antes prerrogativas dos estados.
  • Com a conivência do estado-nação, o capital global se auto-investiu de poder de ditar políticas econômicas através do instrumento “julgamento do mercado”.
  • A ditadura do mercado é resultado da tirania financeira, é legitimada pela ideologia neoliberal e validada por instituições internacionais como o FMI, a OMC e o Banco Mundial.
  • Com a globalização, o capital global libertou-se de grande parte das atividades reguladoras do Estado, as que restringiam a mobilidade e as que defendem direitos do trabalho, sem que isso implicasse necessariamente em níveis superiores de integração econômica.
  • Os efeitos da globalização são sentidos em diferentes intensidades, dependendo de quão aberto o país é ao mercado internacional e da forma como esse país consegue pôr em práticas políticas econômicas e sociais que possam servir de contraponto aos efeitos devastadores do mercado livre.
  • Ofereceu-se ao capital global a possibilidade de instituir a racionalidade comercial, na medida em que a OMC ou acordos regionais como o NAFTA significam que legalmente se pode penalizar estados que interfiram na liberdade de comércio. Portanto, o poder e a legitimidade democrática ficam sujeitos à racionalidade comercial.
Impacto nas economias
  • A questão da liberdade do comércio e das finanças constituem pilares da globalização, porém não há evidência comprovada de que países mais abertos possuam desempenho melhor que os que mantêm graus de proteção → contestação ao Consenso de Washington.
  • Surgiram acadêmicos que questionaram o paradigma dominante, como Stiglitz (2001) e Rodrik (2000), que destacava a importância das instituições para o bom funcionamento do mercado; e críticos dentro da teoria mainstream, como Krugman (1997) e Bhagwati (1998), sobre os excessos da liberalização dos mercados financeiros.
  • O que se exige não é menos globalização, mas uma menos centrada no Consenso de Washington e na ditadura das finanças e dos mercados, sem deixar de se preocupar de procurar formas transnacionais para resolver questões econômicas, sociais e ambientais.
  • Questão dos bens e serviços públicos: um impacto negativo da tirania financeira resulta da dificuldade de criar e manter os bens públicos necessários para o bem estar das sociedades e respectivo desenvolvimento. Deixar tudo a critério do mercado corresponde alargar os espaços de exclusão.
  • Talvez nos países desenvolvidos o mercado possa ser mais ágil que o Estado, no entanto surgem dois problemas:
    1. o capital privado só se arrisca nessas áreas em parceria e com apoio do Estado.
    2. como assegurar aos excluídos que não podem pagar os preços de mercado para ter acesso a bens e serviços públicos.
  • Nos países subdesenvolvidos, a tendência é de o capital global só dotar de bens e serviços públicos áreas geográficas e setores atrativos para ele, deixando parte do globo condenada à exclusão  e subdesenvolvimento.

Conclusão

  • Estamos diante de um processo em que à utopia do capital se contrapõe a utopia de uma outra globalização necessária para resolver problemas como os que ultrapassam a dimensão econômica (ambiental, de saúde pública etc) e também os econômicos, que a lógica do mercado não está em condições de satisfazer, caso dos bens e serviços públicos de âmbito internacional.