Globalização financeira e globalização produtiva

GONÇALVES, R. et al. Globalização financeira e globalização produtiva. In: ______ Economia internacional: teoria e experiência brasileira. Rio de Janeiro: Elsevier e Campus, 2004. cap. 11. p. 221-236.

Globalização financeira

  • A globalização financeira é a interação de 3 processos distintos mas que ocorreram simultaneamente ao longo dos últimos vinte anos:
    1. aceleração dos fluxos internacionais: incluindo empréstimos, financiamentos e investimentos de portfólio, que cresceram a uma taxa de 17% anual num período de 10 anos, não incluindo empréstimos inter-companhias. Quanto ao investimento internacional, o crescimento de fluxos ocorreu por emissão de títulos (bônus e notas) e de ações.
    2. acirramento da concorrência no sistema financeiro internacional: maior disputa por transações financeiras internacionais envolvendo bancos e instituições financeiras não-bancárias. Passaram a atuar diretamente os grupos transnacionais e os investidores institucionais passaram a adotar estratégias de diversificação de porfolio.
    3. integração crescente entre os sistemas financeiros nacionais: proporção crescente de ativos financeiros emitidos por residentes está nas mãos de não-residentes e vice-versa.
  • Fatores determinantes da globalização financeira:
    • Ascensão das ideias liberais ao longo dos anos 1980, tendo como resultado uma onda de desregulamentação do sistema financeiro internacional, que vinha desde a ruptura do sistema de Bretton Woods.
    • Mudanças institucionais relacionadas à própria dinâmica do sistema financeiro internacional: a instabilidade gerada pelo fim do sistema de Bretton Woods nos países desenvolvidos provocou um processo de inovação e adaptação institucional no sistema financeiro, desenvolvendo novos instrumentos de proteção a riscos e incertezas, como o mercado de derivativos de moedas e taxas de juros.
    • Progresso tecnológico associado à revolução da informática e das telecomunicações: reduziu drasticamente os custos de transação e operacionais em escala global, tornando as operações financeiras mais baratas.
    • Mudanças das estratégias dos investidores institucionais e das empresas transnacionais (ETs) que operam em escala mundial: fundos mútuos, companhias de seguro e fundos de pensão dos países desenvolvidos depararam-se com instabilidade nas taxas de juro/câmbio, além dos próprios limites de expansão dos mercados de capitais e o resultado foi uma nova orientação no sentido de maior dispersão geográfica (aumento dos investimentos cruzados nos países desenvolvidos e penetração em mercados de capitais de emergentes).
    • Políticas econômicas adotadas pelos países desenvolvidos nas últimas décadas: especialmente no que tange à taxa de juro. A partir dos anos 1980 houve aumento nas taxas de juros reais de CP e LP, o que incentivou investimentos financeiros nos mercados de capitais dos países desenvolvidos. A opção dos governos era a restrição monetária, e isso deslocou capitais da esfera produtivo para a financeira. Outro resultado é a financeirização das ETs (parcela crescente dos ativos totais das empresas são ativos financeiros). Contribuiu também a instabilidade e o desalinhamento das taxas de câmbio envolvendo as principais moedas do mundo.
    • Fatores sistêmicos: a globalização financeira é parte integrante de um movimento de acumulação em escala global caracterizado pelas dificuldades de expansão da esfera produtiva real. 1) Países desenvolvidos apresentam menor potencial de ampliação de mercados domésticos e são ricos em capital, logo, há deslocamento de recursos da esfera produtiva para a financeira, contribuindo para a expansão do mercado de capitais doméstico e internacional. 2) houve mudanças nas estruturas produtivas dos países, com base em aquisições e fusões de empresas, que envolveram fluxos financeiros internacionais.

Globalização produtiva

  • A globalização produtiva é também resultado de três processos:
    1. avanço da internacionalização da produção: em termos de inserção produtiva, os mecanismos relevantes são o IED (empresa produz no país hospedeiro) e as relações contratuais (faz um residente produzir). A partir dos anos 1980 houve aumento nos fluxos de IED e das relações contratuais, assim como da atuação das ETs (embora tenha sido cíclico) e depois estes fluxos passaram a aumentar mais que o total da renda mundial.
    2. acirramento da concorrência internacional: não é possível de ser mensurado, mas se verifica uma crescente importância da questão da competitividade na agenda política econômica dos países, o que sugere uma maior disputa no sistema econômico mundial.
    3. maior integração entre as estruturas produtivas das economias nacionais: na medida em que IED, operações de empresas transnacionais e relações contratuais em escala mundial aumentaram mais que o total da renda mundial, verifica-se uma maior integração entre as economias nacionais.
  • Mecanismos que permitem a inserção produtiva dos países na economia internacional, ou seja, globalização financeira: fluxos de IED, operações das empresas transnacionais e das relações contratuais.

Volatilidade e vulnerabilidade

  • O sistema financeiro internacional possui riscos específicos que provocam a instabilidade desse sistema e a volatilidade dos fluxos de investimento internacional, gerando o problema da vulnerabilidade externa.
    • Risco de crédito: incapacidade do devedor de cumprir com suas obrigações.
    • Risco de mercado: perdas decorrentes da queda no preço dos ativos.
    • Risco de liquidação: descompasso de tempo entre uma operação de crédito e uma de débito, ou seja, a contrapartida de uma operação não ocorre.
    • Risco de liquidez: falta temporária de recursos para saldar um débito.
    • Risco operacional: falta de controle ou gerenciamento adequado das transações financeiras.
    • Risco legal: resultado de imperfeições nos mecanismos jurídico e institucional que balizam as operações.
    • Risco sistêmico: quando o sistema financeiro internacional é paralisado por um evento desestabilizador.
  • Causas da volatilidade do investimento internacional:
    • desenvolvimento do mercado de euromoedas nos anos 1960 e sua extraordinária expansão: permitiu aos bancos escapar de restrições nos sistemas financeiros nacionais, facilitando a expansão dos fluxos internacionais de capitais de curto prazo e especulativos.
    • falta de decisão por parte dos governos dos países desenvolvidos sobre a evolução do sistema monetário internacional após o fim de Bretton Woods (1971): incapacidade desses países de estabelecer um novo conjunto de regras, práticas e procedimentos, além da falta de regulação do mercado internacional de moedas e do sistema internacional de taxas de câmbio, desregrado.
    • globalização financeira: a volatilidade está associada em grande parte ao investimento de portfólio de curto ou longo prazo. O IED não é tão volátil, mas possui padrão de flutuação cíclica, que pode se tornar um fator desestabilizador externo para economias nacionais.

Vulnerabilidade das economias nacionais

  • Vulnerabilidade externa: baixa capacidade de resistência de uma economia nacional frente a pressões, fatores desestabilizadores ou choques externos. Possui duas dimensões: opções de resposta com os instrumentos de política disponíveis e custos de enfrentamento ou de ajuste em face dos eventos externos.
  • Vulnerabilidade unilateral: alta sensibilidade a eventos externos, sofrendo de forma significativa as mudanças no cenário internacional, enquanto eventos internos nestes países têm impacto quase nulo sobre o sistema econômico mundial.
  • A volatilidade do investimento internacional se manifesta por meio de mudanças abruptas na quantidade e no preço do capital externo.
  • A vulnerabilidade externa implica em resistência aos efeitos negativos da volatilidade do investimento internacional, através de políticas macroeconômicas tradicionais (monetária e fiscal restritivas) ou controle direto sobre os fluxos de capital, além de políticas cambial e comercial.
  • Mudanças abruptas no investimento internacional tem efeitos sobre as economias nacionais através de três mecanismos:
    1. processo de ajuste das contas externas: está ligado ao gerenciamento das reservas internacionais do país. Turbulência no sistema financeiro internacional afeta fontes de financiamento externo e pode esgotar as reservas no CP, assim o país é forçado a adotar políticas contracionistas (redução do nível dos gastos e mudança na composição dos gastos).
    2. impacto nas esferas monetária e financeira: impacto se dá no mercado de câmbio. A volatilidade do investimento internacional gera maior instabilidade no mercado de câmbio e um desalinhamento da taxa de câmbio. A volatilidade financeira internacional também gera instabilidade no sistema monetário nacional, afetando a oferta de moeda e o volume de crédito interno. Há manifestação de vulnerabilidade externa quando o sistema financeiro doméstico fica com ativos/passivos em moeda estrangeira.
    3. impacto sobre a dimensão real da economia: a volatilidade da taxa de câmbio encurta o horizonte de investimentos, tendo em vista riscos e incertezas, além de custos de transação. A maior volatilidade das taxas de juros, resultado do impacto dos fluxos financeiros internacionais sobre a política monetária, também afeta negativamente os investimentos produtivos, em razão das expectativas alteradas. O impacto mais direto da volatilidade do investimento internacional sobre a vulnerabilidade dos países decorre do aumento do passivo externo de CP, resultante da importância crescente dos fluxos de investimento de portfólio de CP ou de natureza especulativa.

 

Anúncios

A Nova Ordem Econômica Global

GILPIN, R. The New Global Economic Order. In: ________ Global Political Economy: Understanding the International Economic Order.  Princeton, NJ: Princeton University Press. p. 3-24, 2001.

  • Globalização tem sido uma das características mais importantes dos assuntos econômicos e políticos internacionais desde o fim da Guerra Fria, embora a extensão e significado do seu conceito tem sido exagerado e mal compreendido.
  • Globalização na verdade não é tão extensiva nem tão abrangente como muitos creem, porque este ainda é um mundo onde políticas nacionais e economias domésticas são os principais determinantes dos assuntos econômicos.
  • Entretanto, a globalização e a crescente interdependência entre as economias nacionais são importantes. Como se pode observar a principal conquista do pós-II Guerra foi restaurar o nível de integração econômica internacional anterior à I Guerra.
  • O foco dessa abordagem é nos “sistemas nacionais de política econômica” e a importância destes para assuntos econômicos domésticos ou internacionais.
  • Conforme as economias foram se tornando mais e mais integradas, as diferenças entre as economias nacionais aumentaram drasticamente.
  • Em meados dos anos 1980, uma revolução nos assuntos econômicos internacionais ocorreu quando as empresas multinacionais (MNEs) e o investimento estrangeiro direto (IED) passaram a impactar em cada aspecto da economia global. A expensão das multinacionais, agora não apenas americanas, integrou mais completamente as economias nacionais e, mais importante, MNEs conduziram à internacionalização de serviços e da produção.
  • Hoje o debate sobre desenvolvimento econômico recai sobre o papel apropriado do Estado e do mercado no processo de desenvolvimento. Ainda, o regionalismo econômico inundou o mundo e tem um impacto significante na economia internacional.
  • Desde meados da década de 1980 ocorreram desenvolvimentos no setor financeiro que também contribuíram para maior integração da economia global.

Mudanças na economia global

  • A principal mudança foi o fim da Guerra Fria e da ameaça soviética aos EUA e seus aliados europeus e japoneses.  Os EUA e seus aliados, durante a Guerra Fria, subordinaram potenciais conflitos econômicos à necessidade de se manter cooperação política e de segurança. Essa ênfase na questão securitária e na coesão de alianças forneceu o amálgama necessário para unir a economia mundial e facilitar compromissos de diferentes interesses nacionais sobre questões econômicas.
  • Com o fim da Guerra Fria, a liderança americana e a cooperação econômica entre os poderes capitalistas diminuiu. Simultaneamente, o mundo orientado para o mercado cresceu amplamente graças a incorporação de países menos desenvolvidos e ex-comunistas ao sistema de mercado. Esses passaram a ter uma atuação mais efetiva no âmbito da OMC.
  • A globalização econômica forneceu alguns desenvolvimentos-chave em comércio, finanças e investimento estrangeiro direito pelas corporações multinacionais. O comércio internacional cresceu mais que a produção econômica global.
  • Com a grande expansão do comércio de mercadorias, o comércio em serviços também cresceu, e, com a queda nos custos de transporte, mais e mais mercadorias tornaram-se comercializáveis. Isso gerou maior competição internacional.
  • Anos 1980-1990: a competição comercial torna-se mais intensiva, na medida em que se incorporam as economias industrializadas do Leste Asiático, que passaram da substituição de importações para estratégias de crescimento liderado pelas exportações. Mesmo assim, as mais competitivas continuavam sendo as firmas americanas.
  • Alguns desenvolvimentos contribuíram para a expansão do comércio global:
    1. diminuição das barreiras ao comércio, devido a sucessivas rodadas de negociações entre os países;
    2. desregulamentação e privatização, abrindo as economias nacionais à importação;
    3. avanços tecnológicos nas comunicações e transportes, o que reduziu custos e encorajou a expansão.
  • A desregulamentação financeira, desde meados dos anos 1970, e a criação de novos instrumentos, como os derivativos, além de avanços tecnológicos nas comunicações, contribuíram para um sistema financeiro internacional mais integrado. Derivativos, títulos mobiliários reagrupados e demais ativos financeiros têm contribuído para a complexidade e instabilidade das finanças internacionais, com um profundo impacto na economia global.
  • A revolução financeira aproximou mais e mais as economias nacionais e aumentou o capital disponível para países em desenvolvimento.
  • Como muitos dos fluxos financeiros são de curto prazo, altamente voláteis e especulativos, o sistema financeiro internacional se tornou o aspecto mais instável da economia capitalista global, o que tem deixado os governos mais vulneráveis a mudanças bruscas nos movimentos de capitais especulativos. Isso aconteceu na crise financeira europeia de 1992, que obrigou a Grã-Bretanha a abandonar o Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio.
  • Para uns, a globalização financeira exemplifica o triunfo saudável e benéfico do capitalismo global; para outros, o sistema financeiro internacional está fora de controle e deveria ser melhor regulado. De qualquer forma, na área das finanças internacionais é que o termo globalização é mais apropriadamente aplicado.
  • O uso do termo globalização se tornou popular na segunda metade dos anos 1980 em conexão com o imenso aumento no investimento estrangeiro direto pelas corporações multinacionais, expandindo-se mais rápido que o comércio e a produção globais e geralmente dos países mais industrializados para os em vias de industrialização. A maior parte dos IED tem sido em serviços e indústrias high tech (automotiva e de informação).
  • Combinado ao aumento do comércio e dos fluxos financeiros, a crescente importância das MNEs transformou significativamente a economia internacional.
  • O fim da Guerra Fria forneceu a condição política necessária para a criação de uma economia verdadeiramente global.
  • Desenvolvimentos econômicos, políticos e tecnológicos (novas tecnologias em transporte, principalmente interoceânico e surgimento do computador e avanços nas telecomunicações) têm sido a força motriz da globalização econômica. Os avanços em transporte reduziram custos e abriram mais o mercado global; já as novas tecnologias de informação contribuíram para aumentar os fluxos financeiros globais.
  • O tempo e o espaço foi comprimido, como resultado dessas mudanças tecnológicas, e isso reduziu os custos do comércio internacional.
  • A globalização também tem se dado através da cooperação econômica internacional e de novas políticas econômicas, sob a liderança dos EUA. Mais e mais nações adotaram políticas neoliberais, como desregulamentações e privatizações, resultando numa economia global crescentemente voltada para o mercado.
  • Alguns observadores acreditam que está ocorrendo uma grande mudança na economia internacional de orientada pelo Estado para orientada pelo mercado, rumo a um mundo sem fronteiras. O estado-nação seria um anacronismo e estaria em retração.
  • Muitos ainda acreditam que o declínio do Estado está conduzindo a uma economia internacional verdadeiramente aberta e global caracterizada pelo comércio irrestrito, fluxos financeiros e pela atividade internacional das MNEs.
  • Críticos, entretanto, apontam para os altos custos da globalização econômica, que incluem a crescente desigualdade entre nações e dentro delas, altos níveis de desemprego, degradação ambiental, exploração descontrolada, além das consequências devastadoras para as economias nacionais da desregulamentação dos fluxos financeiros internacionais. Ainda, consideram que o mercado desregulado e outras forças econômicas têm causado disputas intensas entre nações, classes econômicas e grupos poderosos, o que poderia resultar em uma competição entre blocos regionais dominados por alguma grande potência econômica.
  • Para Gilpin, a noção de que a globalização é responsável pela maioria dos problemas econômicos, políticos entre outros é evidentemente falsa ou enormemente exagerada. Fatores como desenvolvimentos tecnológicos e políticas nacionais imprudentes são mais importantes como causa desses problemas do que a globalização.
  • O fato é que a globalização não é tão penetrante, abrangente ou significativa como muitos nos fazem acreditar, porque:
    • a maioria das economias nacionais ainda são mais auto-suficientes que globalizadas;
    • a globalização ainda é restrita a um limitado, embora crescente, número de setores econômicos;
    • a globalização é amplamente restrita a tríade de países industrializados: EUA, Europa Ocidental e Japão, além dos mercados emergentes do leste da Ásia.
    • muitos dos ataques à globalização feitos por seus críticos são inapropriados, pois se devem a mudanças que nada tem a ver com a globalização em si.
  • O fim da Guerra Fria e o crescimento da globalização econômica coincidiram com uma nova revolução industrial baseada no computador e a ascensão da informação ou “economia-internet”, o que alterou muitos aspectos dos assuntos econômicos.
  • Durante as últimas décadas do século XX, houve uma mudança significativa na distribuição da indústria global das antigas economias industrializadas, EUA, Europa e Japão, para Ásia-Pacífico, América Latina e outras economias em rápido processo de industrialização.
  • Embora os EUA e outras economias industrializadas ainda possuem grande parcela da riqueza e produção globais, eles declinaram em termos relativos enquanto economias em vias de industrialização, especialmente a China, ganharam importância econômica. O sucesso econômico da Ásia-Pacífico é impressionante e esses mercados emergentes continuarão a ser importantes atores na economia global.
  • Em resposta aos desenvolvimentos políticos, econômicos e tecnológicos, surge um novo regionalismo econômico, baseado na crescente regionalização do investimento direto, da produção e de outras atividades econômicas. Cada arranjo regional representa esforços cooperativos de estados individuais para promover tanto seus interesses nacionais quanto seus objetivos políticos e econômicos coletivos.
  • O regionalismo econômico do século XXI é uma importante resposta do Estado-nação a problemas políticos compartilhados e à alta interdependência e competitividade da economia global.
  • Esses desenvolvimentos levaram a uma nova governança global, que deveria promover a abertura dos mercados, guiada por prescrições de políticas neoclássicas e baseada nos princípios do mercado.
  • Os objetivos da nova governança global seriam livre comércio, liberdade de movimento de capitais e acesso irrestrito das multinacionais aos mercados ao redor do globo, segundo a visão americana.
  • A experiência histórica revela que as atividades econômicas não são apenas determinadas pelo mercado, mas também por normas, valores e interesses dos sistemas político e social nos quais a economia está inserida. Os fatores políticos são tão importantes, ou até mais, que os econômicos.
  • A economia global é fortemente afetada por interesses políticos e de segurança de potências como Estados Unidos, Europa Ocidental, Japão, Rússia e China e pelas relações entre estes. É altamente improvável que tais países deixariam a distribuição do produto econômico global e o impacto das forças econômicas em seus interesses nacionais totalmente nas mãos do mercado.
  • Diante disso, constata-se que as teorias econômicas são insuficientes para se entender os desenvolvimentos e a significância destes para os assuntos econômicos e políticos, o que se leva à necessidade de novos estudos, não apenas os predominantemente baseados em modelos matemáticos abstratos.

Perspectivas Intelectuais

  • Com o fim do comunismo e o fim da estratégia de substituição de importações, adotada pelos países menos desenvolvidos, a relevância da perspectiva marxista declinou e se viu uma ascensão e aceitação dos princípios da corrente liberal, como abertura das economias a importações e ao investimento estrangeiro direto, a diminuição gradual da importância do Estado na economia e mudanças para estratégias de crescimento via exportação.
  • O marxismo sobrevive como uma ferramenta analítica e de crítica ao capitalismo e ele vai continuar sobrevivendo enquanto as falhas do sistema persistirem: os altos e baixos da evolução cíclica do capitalismo, a pobreza generalizada lado a lado com a grande acumulação e as intensas rivalidades das economias capitalistas sobre porções do mercado.
  • Cada uma das três perspectivas (liberalismo, marxismo e nacionalismo) é composta por elementos analíticos e normativos.
  • O liberalismo econômico não é apenas uma ferramenta analítica baseada nas teorias e pressupostos da economia neoclássica, mas é também uma normativa comprometida com o mercado ou com a economia capitalista.
  • Marx aceitou as ideias analíticas básicas da economia liberal de sua época, mas desprezou o capitalismo e questionou sobre as origens do sistema, as leis que governavam sua evolução e seu destino final. Marxistas estão mais interessados na dinâmica do sistema capitalista no longo prazo.
  • O nacionalismo econômico, em seu elemento analítico, reconhece a natureza anárquica dos assuntos internacionais, a primazia do Estado nestes e a importância do poder nas relações interestatais. Em seu elemento normativo está comprometido ao estado-nação, à construção do Estado e à superioridade moral de um Estado sobre todos os outros.
  • Gilpin aceita o nacionalismo econômico em sua abordagem estatocêntrica, como uma perspectiva analítica, sem se comprometer com seus normativos. O normativo com que se compromete é o do liberalismo econômico: livre comércio e mínimas barreiras para fluxos de mercadorias, bens e serviços; e capital cruzando fronteiras, embora em certas circunstâncias políticas nacionalistas como proteção comercial podem ser justificadas.

Minha Perspectiva: Realismo Estatocêntrico

  • Realismo é uma posição filosófica e uma perspectiva analítica; não é necessariamente um comprometimento moral com o Estado-nação, tampouco uma teoria científica, já que suas hipóteses não podem ser provadas nem refutadas por pesquisa empírica.
  • Nem todos os realistas são nacionalistas, embora todos os nacionalistas sejam realistas. Morgenthau e Hedley Bull, por exemplo, são realistas não nacionalistas.
  • Embora os realistas reconheçam o papel central do Estado, da segurança e do poder nos assuntos internacionais, eles não necessariamente aprovam esta situação.
  • Morgenthau, em seu Politics Among Nations (1972), condenou o nacionalismo universal, ou seja, o comportamento imperialista, como sendo imoral. Um de suas mensagens básicas foi que Estados deveriam tentar respeitar os interesses dos demais Estados.
  • Há uma variedade de pensamento realista, sendo dois principais:
    1. realismo estatocêntrico: realismo tradicional de Tucídides, Maquiavel e Morgenthau, que coloca o Estado como ator principal nos assuntos internacionais e considera que não há autoridade superior a estas unidades políticas soberanas. Essa posição afirma que a análise deve focar no comportamento individual dos Estados.
    2. realismo sistêmico: também chamado de realismo estrutural ou neo-realismo, associado a Kenneth Waltz e sua obra Theory of International Politics (1979), que enfatiza a distribuição de poder entre Estados dentro de um sistema internacional que atua como principal determinante do comportamento estatal.
  • O realismo estatocêntrico vê o Estado como principal ator nos assuntos internacionais porque ele assume que o sistema internacional é anárquico, com ausência de uma autoridade superior. Anarquia nesse sentido significa que os Estados não têm a quem recorrer quando enfrentam problemas, embora eles cooperem uns com os outros e criem instituições em muitas áreas.
  • As preocupações centrais dos Estados são seus interesses nacionais, definidos em termos de segurança militar e independência política.
  • Para os realistas, poder e relações de poder tem enorme importância nos assuntos internacionais. O poder pode assumir a forma de relacionamentos militares, econômicos e psicológicos entre os Estados, conforme aponta E. H. Carr.
  • Apesar da ênfase no poder, outros fatores como ideias, normas e valores também desempenham papel importante nos assuntos internacionais e isso não é desconsiderado pelos realistas.
  • Gilpin define “economia política global” como a interação entre mercado e poderosos atores como Estados, firmas multinacionais e organizações internacionais. Assume que o estado territorial continua a ser ator primário em ambas as esferas doméstica e internacional, embora não seja o único ator importante. Apesar da importância destes outros atores, Gilpin enfatiza que são governos nacionais que tomam as principais decisões sobre políticas econômicas e continuam a estabelecer as regras dentro das quais outros atores funcionam e eles usam seu considerável poder pra influenciar resultados econômicos.
  • Gilpin assume que os interesses e políticas dos Estados são determinados por uma elite política dominante, pelas pressões de grupos no interior da sociedade nacional e pela natureza do sistema nacional da economia política.
  • A posição estatocêntrica do autor assume que a segurança nacional é e sempre será a principal preocupação do Estado. Em um sistema internacional de auto-ajuda, Estados devem estar constantemente preocupados com possíveis ameaças a sua independência política e econômica.
  • Estados devem estar continuamente atentos a mudanças nas relações de poder e as consequências para seus interesses nacionais da alteração na balança de poder internacional.
  • Uma das mais importantes críticas ao realismo é o construtivismo, que considera que a política internacional é socialmente construída ao invés de constituir uma realidade objetiva. Os dois pressupostos básicos do construtivismo, de acordo com Alexander Wendt, são:
    1. estruturas humanas são determinadas principalmente por ideias compartilhadas ao invés de forças materiais;
    2. as identidades e interesses dos seres humanos são construídas ou são produtos destas ideias compartilhadas ao invés de serem produtos da natureza.
  • A principal crítica do construtivismo ao realismo é que este é puramente materialista e analisa a política global em termos de forças tecnológicas, circunstâncias físicas e demais fatores objetivos. Para os construtivistas, a ênfase está no papel das ideias, estruturas sociais e vontades humanas nos assuntos políticos; as pessoas podem construir um universo mais político e mais humano que o descrito pelos realistas.
  • Para Gilpin, ideias são obviamente importantes, mas o mundo é composto de muitos limitantes econômicos, tecnológicos, entre outros, que restringem a sabedoria e praticidade de certas ideias e construções sociais.
  • Uma das ideias-chave para a análise de política internacional pelos construtivistas é a ideia de identidade, ou como uma sociedade se define. Os realistas negligenciam a importância da identidade e focam em interesses materiais e considerações sobre poder.
  • Os realistas de fato priorizam interesses a identidade, embora reconheçam a importância da identidade no comportamento do Estado. Identidades políticas e econômicas, ou ideologias, podem ter uma forte influência sobre o comportamento nacional. Realistas divergem dos construtivistas sobre esta identidade ser o fator mais importante e o único determinante da política externa de uma nação.
  • A posição estatocêntrica da economia política internacional rejeita a noção de que forças tecnológicas e econômicas tem eclipsado o papel do Estado e criado uma economia global em que as fronteiras e governos nacionais não são importantes. Em uma economia internacional altamente integrada, o Estado continua agindo para alterar as forças econômicas em favor de seus interesses e de seus cidadãos.
  • Os meios pelos quais a economia internacional funciona são determinados tanto pelo mercado como pelas políticas dos estados-nação, especialmente as dos mais poderosos. Sozinhos, mercado e forças econômicas não podem dar conta da estrutura e funcionamento da economia global.
  • A interação entre ambições políticas e rivalidades estatais, incluindo os esforços cooperativos, criam a estrutura das relações políticas dentro da qual mercados e forças econômicas operam. Os Estados estabelecem as regras que empreendedores individuais e multinacionais devem seguir, e tais regras refletem os interesses políticos e econômicos dos Estados dominantes.
  • Em cada sociedade, os objetivos das atividades econômicas e o papel dos mercados na obtenção desses objetivos são determinados por processos políticos e em último grau são responsabilidades delegadas pela sociedade ao Estado.

 

Globalização: Notas Sobre um Conceito Controverso

PRADO, L. C. D. Globalização: notas sobre um conceito controverso. IE-UFRJ. 2003.

Introdução

  • ideias importam em relações internacionais, pois legitimam o poder e são sua essência; nesse sentido, o artigo busca analisar a história de uma ideia: globalização.
  • o uso popular do conceito de globalização como expressão de uma mudança econômica produzida pela dinâmica das inovações tecnológicas, sendo simultaneamente fenômeno inevitável e desejável, é impreciso, embora cumpra seu papel de legitimar certa interpretação do mundo.

Definindo Globalização

  • apenas no final da década de 1980 e durante os anos 1990 que o termo globalização passou a ser empregado com dois sentidos: positivo, como processo de integração da economia mundial; e, normativo, prescrevendo uma estratégia de desenvolvimento baseada na rápida integração com a economia global.
  • a globalização pode ser interpretada sob quatro linhas básicas:
    1. globalização como um período histórico: Ramonet afirma que a globalização é a característica do ciclo histórico iniciado com o fim da Guerra Fria; autores como Wallerstein e Arrighi usam o conceito de “sistema-mundo” e também interpretam a globalização como período histórico.
    2. globalização como compressão do tempo e do espaço: autores como Harvey e Giddens; a organização do “espaço” define relações sociais; a liberdade do capital de mover-se por todo o globo dá aos capitalistas uma vantagem sobre os trabalhadores, que têm menor poder de ação em razão de restrições migratórias e custos de mudança. Da mesma forma, “tempo” representa fonte de valor e poder, por isso as empresas capitalistas submetem o trabalho a constantes pressões para reduzir o tempo e aumentar a produtividade.
    3. globalização como hegemonia dos valores liberais: autores como Hirsch e Fukuyama. Para Hirsch, a economia mundial é dominada por três blocos de riqueza (Am. do Norte, Europa e Japão), o investimento estrangeiro direto é concentrado em um número limitado de países, e diferencia empresas transnacionais (realmente internacionalizadas mas em menor número) das multinacionais (cultural e economicamente vinculadas ao país de origem, mas que opera em vários outros). Para Fukuyama, a globalização é a universalização dos valores da democracia liberal e da ordem econômica baseada nos princípios da economia de mercado, cujo exemplo ideal é o norte-americano.
    4. globalização como fenômeno sócio-econômico: Reinaldo Gonçalves afirma que a globalização define-se pela interação de 3 processos distintos – expansão dos fluxos internacionais de bens, serviços e capitais; acirramento da concorrência internacional; maior integração entre os sistemas econômicos nacionais. Para François Chesnay, economista da OCDE, globalização traduz a capacidade estratégica do grande grupo oligopolista em adotar abordagem e conduta globais, relativas simultaneamente a mercados compradores, fontes de aprovisionamento, localização da produção industrial e estratégias dos principais concorrentes.
  • Globalização, para Prado, é o processo de integração de mercados domésticos na formação de um mercado mundial integrado. Toma-se a abordagem da globalização como fenômeno sócio-econômico, o qual é dividido em três processos: globalização comercial, globalização produtiva e globalização financeira.

Medindo a Globalização

Globalização Comercial

  • É a integração dos mercados nacionais através do comércio internacional e pode ser facilmente mensurada.
  • Se o crescimento do comércio mundial der-se a uma taxa de crescimento média anual superior a do PIB mundial, há globalização comercial.
  • Se o fenômeno for exclusivamente regional e explicado por políticas econômicas dos países da região, esse processo é chamado de integração econômica.
  • Primeira onda de globalização comercial (1820-1913): entre o fim das Guerras Napoleônicas e início da Grande Depressão da década de 1930 houve um primeiro período de crescimento da globalização.
  • Segunda onda de globalização comercial (1929-1950): a partir do pós-Guerra, houve um grande clico expansivo da globalização.
  • A globalização comercial, portanto, não é um fenômeno novo.
  • A dinâmica do processo de globalização só pode ser entendida considerando as demais dimensões: produtiva e financeira.

Globalização Produtiva

  • É o processo de integração das estruturas produtivas domésticas em uma estrutura produtiva internacional.
  • É a relação entre a parcela da produção internacionalizada e o PIB mundial.
  • O processo de globalização produtiva se dá:
    • pelo investimento direto internacional e a reinversão dos lucros desses investimentos
    • pela difusão de padrões tecnológicos e modelos de organização industrial
    • pela internacionalização das estruturas de mercado e da competição empresarial.
  • Esse processo está associado a uma estrutura produtiva formada por empresas locais, beneficiando-se de vantagens competitivas tradicionais, usando tecnologia e técnicas desenvolvidas a partir da realidade doméstica, com relativo isolamento da competição internacional, exceto através do comércio exterior. Tais empresas beneficiam-se de oligopólios diferenciados (pela força de suas marcas), oligopólios concentrados (devido a barreiras protecionistas) e de rendimentos crescentes de escala.
  • O comércio internacional reflete vantagens competitivas adquiridas, explicadas por aspectos institucionais domésticos e pela estratégia global das grandes empresas transnacionais.
  • A globalização produtiva é um processo mais recente: aceleração do fenômeno até a I Guerra Mundial, seguido de um retrocesso no Entre-Guerras e de uma grande aceleração no pós-guerra.
  • Diáspora da burguesia cosmopolita: expansão do comércio internacional a partir do fim das Guerras Napoleônicas. Até a década de 1850, o movimento internacional de K era associada principalmente a empréstimos com grande participação dos bancos de negócios britânicos, em sua maioria direcionados a governos ou empreendimentos avalizados pelos governos. Os primeiros investimentos diretos no séc. XIX se destinavam a empresas de infraestrutura (portos e ferrovias). Após 1870, começaram a ser realizados os primeiros investimentos diretos na indústria manufatureira.
  • As estruturas produtivas do século XIX eram fundamentalmente nacionais, a competição se dava pelo comércio e não por uma competição direta através da produção nos mercados nacionais.
  • Crescimento da globalização comercial → revolução nos meios de comunicação → condições tecnológicas para maior integração produtiva internacional.
  • A globalização produtiva só ocorreu, portanto, após o surgimento da moderna empresa industrial (entre 1880 e a Segunda Guerra Mundial), a qual ultrapassa as fronteiras nacionais, mas busca no mercado internacional o controle de recursos que não eram supridos domesticamente. Eram chamadas de ETAs (Empresas Transnacionais Antigas) por Swartz, e operavam muitas vezes em mercados ligados por relações coloniais. Havia baixa articulação internacional, a não ser vínculos de propriedade e comerciais.
  • Após a II Guerra, surgem as ETs (Empresas Transnacionais Modernas), predominantemente americanas, que alteraram a natureza do investimento direto internacional graças a alguns fatores:
    • o tempo e o espaço foram comprimidos pelas melhorias nos transportes e comunicações;
    • a projeção do poder político e econômico americano e o apoio governamental fizeram as operações de empresas no exterior menos arriscadas e criavam um ambiente favorável nos países hospedeiros;
    • durante as décadas 1950 e 1960, as grandes empresas americanas viram-se compelidas a ampliar  seu acesso a mercados em rápido crescimento, como Europa Ocidental e alguns países em desenvolvimento;
    • as empresas se internacionalizaram porque mudanças na tecnologia, estrutura da demanda, política governamental, infraestrutura nacional ou diferenças institucionais influenciavam a competição inter-empresarial de diferentes países.
  • As ETs controlavam a tecnologia e o capital não disponíveis para os novos países independentes da África e Ásia (descolonização), mas estes controlavam o acesso a fontes de matérias-primas (petróleo e outros). Os países grandes exportadores de petróleo do Oriente Médio passaram a ter maior poder de barganha, através da OPEP.
  • O processo mais importante de internacionalização de empresas deu-se no setor manufatureiro, e foram países de maior mercado interno e maior dinamismo econômico os mais beneficiados desse processo.
  • O resultado de como as empresas reagem aos desafios e oportunidades criadas pelas transformações na ordem econômica internacional, pela aceleração do progresso técnico e pela convergência dos níveis de renda per capita nas principais economias industrializadas é o que conhecemos por competição global.
  • A partir da década de 1970 houve menor regulação dos investimentos internacionais, gerando oportunidades crescentes às empresas transnacionais, porém houve ameaças também crescentes: a maior competição internacional, a velocidade de introdução de novas tecnologias, a rápida obsolescência (e até desaparecimento de certos produtos) obrigavam as empresas a manter alto nível de eficiência e desempenho.
  • Indústrias tradicionais dependiam de mão-de-obra abundante e barata, já que faziam uso de tecnologias estáveis difundidas no mercado internacional ou de fácil aquisição.
  • Indústrias de alta tecnologia dependiam de seu acesso a recursos financeiros e humanos para P&D, da imagem de confiabilidade e qualidade de suas marcas e sua capacidade gerencial.
  • Modelo do Ciclo do Produto: criado por Vernon (1966), classifica um produto em 3 estágios (novo produto, produto maduro e produto padronizado). Havia uma grande distância entre acesso aos conhecimentos científicos contemporâneos e a transformação desses em produtos comercializáveis. Uma vez introduzido o produto (novo produto) em um país industrializado, parte de sua produção alcançava outros países via exportação; logo passa a ser interessante produzi-lo em algum dos grandes mercados consumidores (produto maduro); após ser padronizado e produzido em larga escala com tecnologia difundida (produto padronizado), o principal fator para localização da produção é o custo dos fatores e o o que determina os custos é o preço da mão-de-obra.
  • Modelo dos Gansos Voadores: criado por Akamatsu (1962), descreve o processo de realocação das indústrias do país mais avançado para outros, através do comércio internacional e do investimento, o que ocorre por mudanças de competitividade. O investimento internacional levaria a uma divisão internacional do trabalho graças à difusão da tecnologia, o que permitiria aos países seguidores produzirem parte dos produtos desenvolvidos pelo país-líder, empregando a mão-de-obra mais barata que esses países ofereciam.
  • Retrospectiva da internacionalização das empresas: empresas americanas (1950’s), empresas europeias (1960’s) e empresas nipônicas (1970’s).
  • As empresas japonesas contribuíram para alterar a competição global, quando a partir da década de 1980 passa a ocupar porções de mercado antes dominadas por empresas ocidentais. Essa participação no mercado era possível porque as exportações de produtos finais não vinham apenas do Japão, mas a partir de várias bases produtivas no Leste Asiático, beneficiando da forte integração da estrutura produtiva naquela região.
  • O produto passou a ser identificado não mais pelo país em que era produzido, mas pela sua qualidade através da marca.
  • As empresas americanas e europeias reagem à ascensão nipônica e ampliam o grau de integração e divisão de trabalho da estrutura produtiva da matriz e suas afiliadas. Organizaram-se em cada mercado em função dos custos locais e da estratégia global formulada no centro de decisão. Qualquer parte da produção, ou mesmo todo o ciclo produtivo, poderia ser feito em um ou mais países em que a filial local fosse competitiva no mercado interno da empresa.
  • Novo padrão de investimento internacional: origina-se da necessidade das empresas de ocuparem espaços estratégicos nos grandes mercados, beneficiando-se das vantagens locacionais para produção e distribuição de seus produtos. As empresas tornam-se atores globais.
  • A globalização produtiva é uma das mais importantes dimensões do fenômeno da globalização.
  • As empresas globais não são apátridas, pois toda empresa está conectada a um determinado país ou conjunto de países, onde se localiza sua matriz e onde se encontra seu núcleo de decisão política. A partir desse núcleo que elas negociam com os governos para projeção de seus interesses estratégicos.

Globalização Financeira

  • É o processo de integração dos mercados financeiros locais (mercados de empréstimos e financiamentos, títulos públicos e privados, monetário, cambial etc) aos mercados internacionais.
  • A dimensão financeira é o aspecto mais importante da globalização.
  • A partir da década de 1970 houve crescimento das transações financeiras crossborder, caracterizadas por dois aspectos:
    1. crescimento da mobilidade da poupança: eficiência relativa do K na alocação intertemporal de recursos;
    2. desenvolvimento de transações que implicam em transferência de risco: internacionalização dos serviços financeiros.
  • Em uma economia aberta, a existência de déficits/superávits em transações correntes e a possibilidade de a conta capital ser superavitária ou deficitária permite uma dissociação entre o nível de poupança e o investimento doméstico dos diferentes Estados nacionais.
  • É fundamental para testar os efeitos da globalização financeira, analisar:
    • a capacidade desse processo de aumentar o nível de financiamento dos déficits em transações correntes na economia mundial;
    • se a globalização financeira tem reduzido a correlação entre poupança e investimento doméstico, ou seja, países com baixa taxa de poupança mas grandes oportunidades de investimento poderiam acelerar sua taxa de crescimento econômico importando poupança.
  • A capacidade de financiamento de déficits em conta corrente é muito menor no período recente do que no anterior à Primeira Guerra.
  • A globalização financeira recente não contribuiu de maneira significativa para aumentar a capacidade de investimento.
  • Paradoxo de Feldstein-Horioka: reforça evidências de que a globalização financeira não contribuiu para aumentar a mobilidade da poupança entre países.
  • Se os mercados fossem completamente integrados, um crescimento exógeno da poupança doméstica deveria ser investido no país que oferecesse a maior taxa de retorno, não afetando necessariamente o investimento doméstico.
  • Os estudos disponíveis mostram que os investidores têm grande preferência por manter maior parte de sua carteira de títulos nos mercados domésticos.
  • Globalização financeira é caracterizada pelo grande crescimento e integração de serviços financeiros em escala global, ou seja, um processo de criação de um mercado mundial integrado de serviços financeiros.
  • Serviços financeiros: atividades dos bancos comerciais, bancos de investimento, seguro, gestão de ativos, além de atividades do mercado financeiro internacional associadas à diversificação de risco (mercado cambial e de derivativos), vendas de produtos financeiros, garantia de transações etc.
  • Derivativo financeiro: instrumento financeiro cujo valor deriva do desempenho de outro ativo financeiro, índice ou investimento.
  • O crescimento dos fluxos internacionais e a desregulamentação dos serviços financeiros internacionalmente vem sendo acompanhada por frequentes crises. Isso oriunda do fim do sistema de Bretton-Woods.
  • Sistema de Bretton-Woods: negociado para reorganizar as relações econômicas internacionais depois da II Guerra, visando a evitar outra grande instabilidade monetária nas tentativas de recriação do padrão-ouro. Baseava-se nos seguintes compromissos:
    1. dólar seria a moeda de referência do sistema;
    2. outras moedas deveriam se manter com regime de taxas de câmbio fixas;
    3. seriam controlados movimentos especulativos na conta capital;
    4. o FMI seria a organização responsável por supervisionar a operação do novo sistema monetário.
  • O sistema de Bretton-Woods enfrentou um trilema macroeconômico: não é possível implementar simultaneamente taxas de câmbio fixas, liberdade de movimento de K e política monetária autônoma (voltada para fins domésticos).
  • Outros regimes de política cambial anteriores a Bretton-Woods: Padrão-Ouro (1880-1914) e sistema de taxa de câmbio flutuante (1918-1925 e após 1973).
  • O sistema de Bretton-Woods, combinado com políticas keynesianas, nos países da Europa Ocidental e EUA funcionou muito bem, viabilizando as maiores taxas de crescimento econômico entre 1948 e 1971.
  • Década de 1970: marcada por uma crise financeira no início da década, pela primeira crise do petróleo (1973) e pela crise gerada pela elevação da taxa de juros americana (1979).
  • Isso levou a mudanças profundas na política econômica dos países:
    • abandono das taxas de câmbio fixas nos países desenvolvidos e progressiva liberalização do movimento de capitais de curto prazo;
    • países em desenvolvimento também realizaram mudanças nas suas políticas econômicas;
    • países socialistas da Europa Oriental passaram gradativamente de economia centralizada para o capitalismo selvagem;
    • desvalorização do peso mexicano (1994-95);
    • economias desenvolvimentistas da Ásia oriental entram em crise;
    • Rússia entra em crise e desvaloriza o rublo → primeira crise econômica pós-socialismo.
    • crise na América Latina com a desvalorização do real e pressões sobre a taxa de câmbio fixa argentina.
  • Conclusão: a globalização financeira foi mais um produto da desintegração do sistema monetário internacional do que um objetivo perseguido por ela.