A Teoria Psicológica do Comportamento Eleitoral: o Modelo Michigan de Decisão

Resumo do capítulo 1 do livro A Decisão do Voto – Democracia e Racionalidade, de Marcus Faria Figueiredo – Política II: Teoria Política Contemporânea – Prof. Luis Gustavo Grohmann

Modelo Michigan

  • Indivíduos semelhantes, do ponto de vista social e de atitudes, tendem a ter comportamentos políticos semelhantes, independentemente de contextos históricos → Ci = f (Ai, Si)
  • Ci = comportamento político dos indivíduos
  • Ai = atitudes políticas dos indivíduos = fazem parte da psicologia humana, são integradas ao sistema político através de um sistema de personalidades e se consolidam através da socialização política
  • Si = ambiente social em que ocorre a socialização política = ambiente de construção de personalidade, geralmente a família (onde se forma ou não opinião política)
  • A teoria psicológica do comportamento eleitoral, através do Modelo Michigan, baseia-se em um método indutivo (generalização) – coleta de dados comportamentais particulares que são aplicados ao comportamento político geral + análise das motivações psicológicas destes indivíduos observados.
  • Si é determinado por um conjunto de atitudes expostas pelos outros (influência do meio) → Si = f [Cj = g(Aj, Sj)], onde Cj é o comportamento político dos indíviduos que influenciam, Aj são as atitudes dos indivíduos do meio “influenciador” e Sj é o próprio ambiente que influencia.
  • Logo, Ci = f [Ai, Cj(Aj, Sj)], ou seja, é um ciclo de influências que tem poder de alterar o comportamento político de indivíduos, que, por sua vez, também são influenciados por outros dentro de um mesmo ambiente social, mas não necessariamente o mesmo ambiente geográfico/temporal.
  • Portanto:

“O comportamento dos indivíduos é função da interação das atitudes a que esses indivíduos estão sujeitos em suas experiências sociais e políticas.”

  • o grau de interesse pela política vai estar associado diretamente a Aij e Sij, ou seja, pela intensidade de reação aos estímulos políticos (atitude política, que é individual) e a importância da política no seu ambiente (influência do ambiente social).
  • pessoas em ambientes sociais semelhantes têm comportamentos políticos parecidos, assim como pessoas em ambientes sociais díspares têm comportamentos políticos distintos.
  • a condição social dos indivíduos não tem influência no comportamento político destes, mas sim o sistema de atitudes compartilhado por indivíduos com características demográficas semelhantes é que permite esta análise (sistema atitudinal).

Teoria da Crença de Massa

  • Philipe Converse: o que une as ligações psicológicas individuais com as ações políticas são variáveis endógenas (sistema de crenças políticas) desenvolvidas pelo público e isso tudo depende da capacidade de compreensão da política. Assim, para entendermos/prevermos o comportamento eleitoral, é preciso interpretar as inter-relações entre atitudes e opiniões que podem ser manifestadas pelo povo.
  • A previsibilidade do comportamento político, segundo Converse, só é aplicável à porção altamente politizada da sociedade (aproximadamente 15% nos PD’s); a maior parte do eleitorado age segundo suas próprias convicções, o que não permite muita previsão acerca de seu comportamento político.
  • Converse estabelece dois métodos para solucionar essa falta de previsibilidade da parte não-politizada da sociedade:
  1. Grau de centralidade: elemento que endogenamente dá maior coerência aos níveis de conceituação; as questões relacionadas à política não são igualmente politizadas na sociedade; observam-se níveis de abrangência das questões públicas, conforme certos níveis de conceituação.
  2. Grau de motivação para a política: extremamente dinâmico; varia de acordo com os estímulos/situações; condicionam estabilidade (ou instabilidade) ao sistema atitudinal.
  • é uma condição necessária, segundo Converse, mas não suficiente, conhecer o campo ideológico dos indivíduos para prever seus comportamentos futuros.
  • opiniões contrárias ou favoráveis originam-se das motivações psicológicas (do campo atitudinal), que estão na base da formação de identidades, mas isso também não é suficiente para levar ao engajamento político ou à alienação.

Teoria da Alienação Política

  • Incorporada ao Modelo Michigan em fins dos anos 50 através da  via psicanalítica e da psicologia social; defensores: Robert Lane, Melvin Seeman, Joel Aberbach e Ada Finifter.

“Alienação Política implica mais do que desinteresse; ela implica rejeição, no sentido psicanalítico do termo ‘alienação’, mas não na versão marxista.” (LANE, 1962)

  • alienação política seria rejeição consciente de todo o sistema político, através da apatia → Síndrome das 3 Atitudes:
  1. Eu sou objeto e não sujeito da vida política (não tenho influência);
  2. O governo não cuida nem administra no meu interesse;
  3. Eu não aprovo o processo de tomada de decisões, as regras são injustas, ilegítimas e a Constituição parece fraudulenta.
  • Seeman apresenta um caráter multidimensional para o conceito de alienação:
  1. POWERLESSNESS: impotência do indivíduo frente ao sistema político
  2. MEANINGLESSNESS: ininteligibilidade (difícil de se compreender)
  3. NORMLESSNESS: anomia (descrença nas regras/leis do sistema)
  4. ISOLATION: isolamento
  5. SELF-ESTRANGEMENT: auto-alienação/auto-indiferença.
  • Aberbach e Finifter dividem o eleitorado entre não-alienados (engajados) e alienados (isolados), mas esse comportamento não é fixo para a determinação dos comportamentos futuros.
  • “Sentimentos de impotência política influenciam o comparecimento, mas não a escolha dos eleitores.” (ABERBACH)
  • Finifter identifica quatro fatores da alienação política:
  1. Political Powerlessness: impotência política, ou seja, eu não tenho influência alguma no que o governo faz.
  2. Political Meaninglessness: ininteligibilidade política, ou seja, as decisões políticas são imprevisíveis e não se vê sentido no rol de decisões.
  3. Political Normlessness: as normas são desrespeitadas pelos políticos.
  4. Political Isolation: rejeitar objetivos e normas políticas aceitos pela maioria da sociedade, votar é mera formalidade.
  • As dimensões 1 e 3 são as que melhor refletem a síndrome da alienação política e, analisando-as relacionadas com várias sociais, percebe-se que o grau de confiança das pessoas, a idade, a educação e a etnia influenciam sobre esses sentimentos.
  • grupos mais alienados (segundo Finifter): idosos, jovens, minorias sociais, pessoas com baixa escolaridade.
  • os sistemas políticos vão ser estáveis ou não, conforme o grau de pertencimento e de participação que as pessoas têm com relação a eles.
  • o sistema atitudinal, base para o comportamento dos indivíduos, tem dois níveis de profundidade:
  1. desenvolvimento de um sistema de crenças particulares, que orientam a formação de identidades (predisposição para agir em certa direção)
  2. desenvolvimento de um sistema atitudinal propriamente dito, que leva as pessoas a se situarem no continuum “engajamento-alienação” (predisposição para agir ou não).
  • os dois níveis apresentados por Finifter estão ligados por forças psicológicas interativas.
  • Assim, após a incorporação dos preceitos de Converse, Lane, Seeman, Aberbach e Finifter, podemos reformular a lei causal do comportamento dos indíviduos como: Ci = f (IPi, APi)
  • IPi = identidades políticas (pelo sistema de crenças)
  • APi = estado psicológico motivacional de aderência-alienação política
  • Ou seja, conhecendo os níveis de adesão-alienação e compreensão-identidade políticas do indivíduo, podemos prever comportamentos futuros; e, por indução, conhecendo as propensões comportamentais dos indivíduos, podemos prever o comportamento dos agregados sociais.

Por que os Indivíduos Votam: a Flutuação nas Taxas de Comparecimento

  • Eleitores assíduos: engajados, com alto grau de interesse político.
  • Eleitores periféricos: o engajamento depende de forças momentâneas.
  • Não-eleitores alienados: alienam-se e quase nada os motiva a participarem do processo eleitoral (no caso de países onde o voto não é obrigatório, isso implica comparecimento ou não nas eleições; onde o voto é obrigatório, pode ser refletido em votar nulo ou em branco).

“O comparecimento a uma eleição específica é basicamente uma questão de quantos entre os menos interessados são suficientemente estimulados pelas circunstâncias políticas momentâneas para fazerem o esforço de votar.” (CAMPBELL, 1967)

  • Ato de votar : Vti = f (IPi, APi, N)
  • IPi = grau de identidade político-partidária
  • APi = grau de engajamento/alienação
  • N = fatores momentâneos
  • Taxa de comparecimento/abstenção :  TxC = f (IP, AP, N)
  • Temos, portanto, 2 fatores endógenos (IP e AP) e 1 fator exógeno (N). Este último vai motivar ou não o indíviduo a participar de uma eleição específica.
  • Normal Vote: proporção de votos estimável a partir do conhecimento das variáveis identificação e envolvimento político – Converse:
  1. respostas a forças momentâneas variam inversamente com o grau de identificação partidária
  2. respostas a forças momentâneas variam inversamente com o nível de envolvimento político.
  • a identificação partidária origina-se de uma adesão psicológica aos partidos existentes, o que confere estabilidade ou não ao comportamento, pois os partidos funcionariam como catalisadores da síndrome adesão-alienação.
  • indivíduos engajados politicamente posicionam-se no espectro político-partidário mais facilmente que os demais (posição política mais rígida)
  • indivíduos menos envolvidos respondem mais rapidamente a estímulos de campanhas políticas (posição política extremamente variável)
  • por esta razão, um gráfico das respostas a forças momentâneas e participação eleitoral seria uma curva exponencial decrescente.

A Decisão do Voto no Modelo Michigan

  • Funnel Causality Analogy: a decisão final dos eleitores é produto de um complexo feixe de causalidades.
  • No nível mais amplo estariam as influências originárias: nível educacional, idade, posição de classe, origens étnicas, religiosas e demográficas e conformações institucionais (do sistema partidário). Estas influências são inseridas na socialização política, através do campo atitudinal.
  • A variável classe social é pouco considerada, por estar associada à educação, que se torna variável-chave para a formação dos níveis de conceituação da política.
  • No entanto, a relação entre classe social e identidade partidária pode ser mais intensa quando os partidos políticos têm ligações históricas com determinadas classes.
  • Os fatores sociológicos têm influência variável na orientação da opção partidária dos indivíduos.
  • Os efeitos das variáveis sociológicas manifestam-se indiretamente através da adesão partidária.
  • O indivíduo é (ou não) atraído psicologicamente pelos elementos centrais do processo político (partidos e candidatos), ou seja, a relação eleitor-candidato é de empatia.
  • O grau de fidelidade partidária dos eleitores é desafiado pelas forças mobilizadoras durante as campanhas e é o que vai comandar a direção do voto.
  • Eleições normais (não-estimulantes): os votos seguem a distribuição das identidades partidárias.
  • Eleições atípicas (estimulantes): maior grau de infidelidade partidária e concentração maior de não-identificados numa certa direção.
  • Por que os eleitores fiéis respondem menos aos apelos das forças mobilizadoras de uma campanha? A resposta está nos fatores psicológicos que formam o campo atitudinal desse eleitorado, ou seja, no mapeamento das transferências das motivações psicológicas na relação indivíduo-partido. Assim, tal comportamento segue a mesma lógica do comparecimento para votar (os menos engajados são mais influenciados que os engajados politicamente).
  • Para a teoria psicológica do voto, a participação e a volatilidade eleitorais são função da distribuição do grau de adesão-alienação política e partidária na sociedade e o peso desses últimos é determinado por fatores ad hoc. Logo, pela analise do que orienta os indivíduos no mundo político, pode-se prever suas reações à atração política e seus comportamentos eleitorais.

Um pensamento sobre “A Teoria Psicológica do Comportamento Eleitoral: o Modelo Michigan de Decisão

  1. Olá Guilherme,

    Sou estudante de psicologia e estou fazendo o meu trabalho de conclusão de curso. Tenho interesse em fazer uma pesquisa investigando as motivações psicológicas para o desinteresse pela política.

    Lí alguns materiais teus sobre o assunto, e gostaría de sabe se tu teria alguma bibliografia para me indicar.

    Obrigada pela atenção desde já!

    Att,
    Carolina Murlik

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