Grandes estruturas, processos amplos, comparações enormes

TILLY, C. Comparación. In: ______ Grandes estructuras, procesos amplios, comparaciones enormes. Madrid: Alianza Editorial, 1984. cap. 4. p. 81-109.

Erradicar os postulados perniciosos

  • Enfoque direto: examinar com detalhes as bases da lógica e a evidência na hora de fazer generalizações sobre a mudança social, sobre o emprego da força ilegítima e sobre a diferenciação como processo condutor; e confrontá-las com casos históricos reais e descrições alternativas do que verdadeiramente ocorreu.
  • Enfoque indireto: consiste em acoplar os relatos de mudanças ocorridas a generalizações com uma base histórica; não se refere a enunciados universais, mas a épocas e zonas concretas que especificam as causas, recorrem à diversidade entre um sucesso e outro dentro de seu âmbito espacial-temporal e que são consistentes com a evidência que se dispõe para esse tempo e esse lugar.
  • As estruturas e processos ocorrem em quatro níveis históricos:
    1. nível histórico-mundial: trata de estabelecer as propriedades especiais de uma época e enquadrá-la no fluxo e refluxo da história. Ex.: surgimento e caída de impérios.
    2. nível sistêmico-mundial: trata de discernir as conexões e variações essenciais no interior de grupos mais amplos de estruturas sociais fortemente interdependentes. Ex.: estudos sobre civilizações (Toynbee).
    3. nível macro-histórico: tenta-se dar conta de certas grandes estruturas e processos amplos e explorar formas alternativas.
    4. nível micro-histórico: traçamos os modos de ligação de indivíduos e grupos com essas estruturas e processos, com a esperança de explicar como são as experiências das pessoas.
  • O autor estabelece quatro níveis na aposta de que ao longo da história o mundo se dividiu em pelo menos duas redes de produção, distribuição e coerção amplamente interdependentes: a era da uma única rede que nos encontramos agora começou quando seu centro na China se fez inseparável do seu oponente na Europa.
  • Os 4 níveis existem e quais são as unidades que os definem são em parte perguntas empíricas. Podemos recorrer à evidência a favor/contra a pretensão de Toynbee: as grandes civilizações, definidas pela participação interdependente das pessoas num sistema concreto de premissas culturais, constituem as unidades inteligíveis mais amplas da análise histórica. Ou apresentar evidência que apoie à pretensão de que em um determinado momento do tempo o mundo inteiro constituiu um único sistema.
  • A decisão sobre a evidência requer um acordo sobre as definições práticas de termos difíceis como “coerência” e “interdependência”. Em algum lugar entre os extremos encontra-se uma explicação útil da comunicação humana.
  • Quais são as estruturas e os processos cruciais?
    • no nível histórico-mundial: as principais estruturas são os sistemas mundiais; já os processos relevantes são a transformação, o contato e a sucessão de sistemas mundiais. Quando trabalhamos neste nível as comparações são as mais amplas, ou seja, entre sistemas mundiais.
    • no nível sistêmico-mundial:  o sistema mundial continua operando como unidade significativa, além dos seus principais componentes – grandes redes e catnets – definidas por relações de coerção/intercâmbio. As redes de coerção se agrupam em estados, enquanto as redes de intercâmbio podem se agrupar em modos de produção regionais; os processos são de subordinação, produção e distribuição em grande escala. As comparações estabelecem semelhanças e diferenças entre redes de coerção (ou de intercâmbio) e processos de subordinação, produção e distribuição.
    • no nível macro-histórico: dentro de um sistema mundial dado, podemos ter como unidades de análise os estados, os modos regionais de produção, as associações, as companhias, os exércitos; os processos analisados são as dimensões da proletarização, a urbanização, a acumulação de capital, criação de estados e burocratização. As comparações aqui trazem uniformidades e diferenças entre ditas unidades e processos, além de uma combinação de ambos.
    • no nível micro-histórico: as estruturas são as relações entre pessoas e grupos; os processos são as transformações das interações humanas que constituem tais relações. As necessárias comparações entre as relações e suas transformações deixam de ser imensas para ganhar em coerência a respeito das estruturas e processos relativamente amplos. Ex.: relações entre determinados capitalistas e trabalhadores revelam o esquema no qual se baseia dentro do contexto de processos mais amplos de proletarização e concentração de capital.
  • Surgiu uma corrente de história social populista, que recorre ao nível micro-histórico e sua evidência para resolver questões sobre as conexões entre a vida social na pequena escala, de um lado, e as grandes estruturas e os processos amplos, de outro. Essa corrente contribuiu para eliminar postulados perniciosos do séc. XIX sobre a interpretação a vida cotidiana e das ações das pessoas. (Hobsbawn, Rudé, Perrot, Levine entre outros)

Será a história total nossa salvação?

  • Os historiadores sonham com uma história total que abarque a totalidade da vida social e suas determinações, mas os trabalhos na área obtiveram resultados pavorosos.
  • Tilly critica a obra que, segundo ele, foi um dos maiores logros da história total: Civilização material, economia e capitalismo, de Fernand Braudel, cujo intento era relatar todos os processos que moldaram o mundo capitalista dos séculos XIX e XX, variando no tempo entre várias épocas.
    • Os capítulos são recheados de complexidades, contradições e dúvidas;
    • O recurso a gráficos, tabelas, ilustrações pouco agrega ao desenvolvimento do argumento;
    • Faz uma distinção explícita entre seu método e a coleta de evidências que apoiem um conjunto de proposições interconectadas;
    • Os temas tratados podem ser assim divididos: 1) cultura material e estrutura da vida cotidiana; 2) economia e operações de intercâmbio; e 3) capitalismo e outras etapas por que atravessou o mundo; tudo isso sem estabelecer uma hierarquia causal e um modelo analítico que guie a análise.
    • Vol. I: pretende descrever como as técnicas de produção, distribuição e consumo variaram de regiões a outras do mundo e de que modo essas técnicas moldaram a experiência cotidiana. Apesar da ampla documentação demográfica em que se apoia, o autor não está preocupado com os processos vitais em si, apresenta perguntas que ficam no ar e as conclusões são ambivalentes (“una compilación-sintesis”).
    • Vol. II: parte do estudo das técnicas pelas quais pessoas de diferentes partes do mundo realizavam intercâmbio de bens a uma discussão dos diversos tipos e escalas de mercado. Aqui põe mais ênfase nas condições de intercâmbio que nas relações de produção e afirma que o senhor feudal não era capitalista, mas parte do sistema. A visão do capitalismo de Braudel era de um sistema em que dois ou mais mundos econômicos extensos, coerentes e conectados dentro do mercado ligam-se e chegam a ser interdependentes graças à ação de manipuladores do capital, portanto, oferece uma configuração geral do capitalismo, não de suas relações sociais características. A definição de capitalismo que parte do intercâmbio rechaça a ênfase posta na tecnologia da produção, pois demonstra que frequentemente a indústria artesanal e outras formas similares operavam de modo profundamente capitalista; assim abandona por completo as relações de produção, recai em outras incoerências e dá “vueltas en círculo”.
    • Vol. III: começa com uma consideração sobre as economias mundiais como unidades fundamentais de análise e continua com uma descrição cronológica das sucessivas economias. Tenta explicar como e por que a Europa se tornou o núcleo principal da industrialização; pergunta-se por que a França não foi número um nesse processo e, para isso, passa a uma exploração das alternantes divisões regionais no interior da economia francesa (que Tilly chama de método conversacional). A concepção da vida material como obstáculo à capacidade de eleição humana desaparece neste volume, assim como todos os obstáculos elencados no volume I e deixa de analisar e incorporar no seu sistema explicativo a dinâmica demográfica, assim como a ação do Estado desvaneceu como possível explicação.
    • Braudel diz que no século XVI as populações eram próximas em diferentes partes do mundo e que uma mínima diferença bastava para originar “vantagens iniciais”, o que poderia explicar o abismo entre Europa e outras partes do mundo, mas o autor diz que esse abismo surgiu tarde e não pode ser atribuído unicamente à racionalização da economia de mercado. A explicação das vantagens iniciais perde credibilidade porque no séc. XVIII a Europa ocidental não possuía nenhuma vantagem significativa com relação a América do Norte ou China. (Bairoch)
    • Até o começo do volume III parece que Braudel apresenta seu “milagre explicativo” apoiando-se no modelo de Wallerstein sobre o sistema mundial europeu, porém apresenta argumentos contrários a ele, embora coincida quanto ao tema das sucessivas hegemonias das metrópoles capitalistas, além de se manter fiel à postura de Wallerstein de centrar-se nas condições de intercâmbio e não nas relações de produção como traço essencial do capitalismo; assim, não emprega o enfoque núcleo/periferia/semi-periferia nem tenta contrastá-lo com sua extensíssima informação.
  • Braudel confrontou as diversas teorias que acadêmicos propuseram e outorgou a elas o valor histórico correspondente, porém a soma de várias teorias não é uma nova teoria e seu intento de apresentar uma história total falhou, e talvez ninguém nunca consiga abarcar o desenvolvimento completo do capitalismo e da totalidade do crescimento do sistema europeu de Estados.

A ocasião para comparações enormes (mas não gigantescas)

  • Tilly diz que seus estudos se situam entre a análise micro-histórica e a macro-histórica, porque crê firmemente que entender a micro-história facilita a tarefa de entender a macro.
  • O objetivo é acomodar descrições de estruturas e processos específicos de sistemas mundiais concretos a generalizações apoiadas em dados históricos e relativas a tais sistemas mundiais.
  • Reduzindo o campo de ação para “Europa ocidental a partir de 1500”, temos possíveis princípios organizativos dos Estados nacionais e princípios de base histórica para o desenvolvimento do capitalismo.
  • Possíveis princípios organizativos referente aos estados nacionais:
    1. unidades políticas independentes carentes de exército centralizado, barreiras geográficas sólidas ou uma série de poderes adjacentes que perderam autonomia e foram absorvidos por estados de maiores dimensões.
    2. questões de guerra expandiram os aparatos fiscais nacionais e assuntos de guerra e seus preparativos deram lugar às estruturas principais do Estado nacional.
    3. ao cabo das guerras europeias, reduziu-se o número de estados europeus, houve reordenação das fronteiras e alterações nas relações entre os estados.
    4. produziram-se grandes rebeliões quando governantes exigiram aumento de contribuição para a guerra ou quando a guerra e seus efeitos debilitavam a capacidade repressiva dos governantes.
  • Princípios com uma base histórica enunciados para o desenvolvimento do capitalismo:
    • 5. a proletarização da população ocorreu fundamentalmente no campo e afetou a agricultura da mesma forma que a indústria, anterior ao século XIX.
    • 6. as manufaturas se organizaram predominantemente no campo na Europa entre séc. XVII e XVIII e amplas zonas rurais sofreram processo de desindustrialização durante a explosão do capital e do trabalho no século XIX.
    • 7. a explosão reduziu a mobilidade residencial na Europa ocidental e os fluxos temporais de trabalhadores não-especializados se acelerou consideravelmente, oriundos da periferia da Europa.
    • 8. até o século XIX poucos capitalistas sabiam como manufaturar qualquer produto e eram especializados na compra e venda dos produtos do trabalhadores, o que mudou aos fins do século quando os capitalistas passaram a deter os meios de produção.
  • Tais princípios não são postulados, e até que sejam revisados ou substituídos, servem de marco para uma análise mais específica de mudanças estruturais.
  • Pegando como exemplo a generalização 8, se tomamos como dado que provisoriamente durante o século XIX capitalistas e trabalhadores lutaram pelo controle da produção, podemos examinar condições através das quais os trabalhadores venceram. Mas se considerarmos que a capacidade do capitalista de controlar o acesso a fontes de energia e matéria-prima contribuiu para sua vitória nesta luta, então dispomos de garantia para pesquisar se o abandono de fontes de energia e matérias-primas proporcionou:
    1. aos capitalistas os meios para a concentração de capital como nunca antes;
    2. se se converteu em uma estratégia deliberada dos capitalistas que pretendiam reorganizar todo o processo produtivo;
    3. marcou a sentença de morte para a produção em pequena escala com amplo controle dos trabalhadores.
  • Uma generalização deve ter uma ampla validez dentro de seu próprio âmbito histórico, mas deve ser ao mesmo tempo contingente.

Nenhuma segurança nas cifras

  • Os estudos comparativos de grandes estruturas e processos amplos produzem um maior aporte intelectual quando os pesquisadores examinam um número relativamente pequeno de questões.
  • Com cifras menores, o estudioso de uma estrutura/processo centra-se nas circunstâncias históricas e nas características concretas dos casos que analisa e assim dedica-se com maior afinco para encontrar as condições lógicas para uma comparação eficaz.
  • Algumas exceções como descrições estatísticas (Paul Bairoch) e orientações teóricas junto com estudos de caso (Jeffery Paige) se mostraram relevantes sobre a mudança estrutural a grande escala, mas foram explícita e deliberadamente comparativas. Chega-se a seguinte lição: deve se concentrar em comparações detalhadas de cifras pequenas até que se tenha uma ideia clara de que se precisa das grandes cifras e de como conseguir que as comparações resultem válidas.
  • Os grandes estudos mais recentes sobre mudança estrutural em grande escala que empregam número reduzido de casos foram influenciados pelos clássicos (Durkheim, Tocqueville, Weber e Marx), mas nenhum dos autores recentes adota passivamente os princípios clássicos, porque se deram conta que nem os grandes solucionaram o problema com que estamos lidando.
  • O ressurgimento do pensamento marxista, graças à crítica às teorias da modernização e desenvolvimento, partiu de um duplo processo:
    1. os pesquisadores abandonaram os estudos de grandes estruturas e processos amplos que se concentram no presente e decidem levar a história a sério.
    2. descobrem mais tarde as enormes fontes teóricas que o pensamento marxista oferece para a pesquisa histórica.
  • Os marxistas estavam relativamente satisfeitos com sua capacidade de analisar a organização da produção, mas pecavam quanto à organização da coerção. A partir de Marx, a coerção estava ligada à mudança estrutural, por exemplo no feudalismo destaca a dependência desse modo de produção a respeito da coerção não-econômica dos camponeses. No capitalismo, havia uma genialidade do sistema que fazia com que a submissão ante à exploração servisse aos interesses dos trabalhadores no curto prazo a despeito de uma perda no longo prazo.
  • A organização da coerção tem sua própria lógica, paralela à lógica da organização da produção ou, ao contrário, se reduz à lógica da produção? Até que ponto, como e quando os estados atuam independentemente da organização da produção?
  • Theda Skocpol: viu na organização da coerção, em todos os níveis, incluindo o do Estado, uma lógica e uma influência independentes, não completamente redutível à lógica da produção.
  • A partir do abandono das teorias desenvolvimentistas e o renascimento do pensamento marxista, houve também um ressurgimento dos trabalhos genuinamente históricos, ou seja, estudos que tomam por dado que o tempo e o espaço em que surge uma estrutura ou um processo influenciam seu caráter, que a sequência dentro da qual se produzem sucessos similares impacta nos seus resultados, e que o conhecimento sobre estruturas e processos passados é problemático e por isso requer uma pesquisa sistemática própria. (Douglas Hibbs, Bertrand Badie, Pierre Birnbaum, Victoria Bonnel)

Formas de ver

  • Como podemos comparar grandes estruturas e processos amplos?
  • A lógica clássica da comparação, que incita a uma busca da variação concomitante, deve se ajustar aos nossos objetivos, permitindo um exercício mais eficaz ao invés de torná-lo impossível. As regras prescrevem que se examine a aparente co-variação com a máxima seriedade e que se eliminem as causas espúrias.
  • Devemos nos assegurar das unidades que estamos comparando. A chave está em ter critérios para identificar populações, categorias, redes e catnets reais como espécimes do tipo de unidade que estamos teorizando.
  • Unidades de análise: sociedades, estados, blocos de poder internacional, regiões marcadas pela hierarquia das cidades e dos mercados, distintos modos de produção regionais, classes sociais, grupos linguísticos etc.
  • A eleição entre múltiplas unidades de análise reside no campo teórico. Unicamente podemos esperar organizar a evidência de um modo eficaz e estar seguros de que seus princípios suportariam um escrutínio teórico quando os teóricos das grandes estruturas especificam a quais unidades se aplicam seus princípios.
  • Diferentes modos de comparar grandes estruturas e processos amplos:
    1. contribuição de todos os casos: o princípio resultante de uma comparação pode variar de um simples caso (apresentar as características do caso corretamente) a todos os casos possíveis de um fenômeno (apresentar características de todos os casos).
    2. multiplicidade de formas: o princípio que resulta de uma comparação pode ser simples (todos os casos possíveis de um fenômeno têm propriedades comuns) ou múltiplo (um fenômeno se manifesta de múltiplas formas).
  • Classificação das estratégias de comparação:
    • individualizadora: contrastar casos específicos de um fenômeno dado como meio de captar as peculiaridades de cada caso. (Bendix)
    • universalizadora: busca explicar o fato de que cada um dos casos de um fenômeno segue em essência a mesma regra.
    • identificação da diferença: estabelece um princípio de variação no caráter ou na intensidade de um fenômeno mediante o exame das diferenças sistemáticas entre os distintos casos. (Paige)
    • globalizadora: coloca distintos casos em diferentes pontos do mesmo sistema e com isso tenta explicar suas características como uma função de suas relações variáveis com o sistema como um todo. (Wallerstein)
  • As quatro estratégias funcionam de acordo com os propósitos da comparação, podendo, como no caso de Rebellious Century, dos Tilly, se apoiar em comparações individualizadoras mesmo que ocasionalmente faça comparações universalizadoras e também as que tratam de identificar a diferença.

Julgar as comparações

  • Bendix, Skocpol, Moore e Rokkan rechaçam em geral os argumentos perniciosos do século XIX e tratam de construir seus argumentos sobre uma sólida evidência histórica. Mostram que é preciso desligar a comparação a grande escala de algo abstrato e a-histórico e, ao contrário, ligar a comparação a experiências históricas concretas de mudança.
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Comparação e método comparativo

SARTORI, G. Comparación y método comparativo. In: SARTORI, G.; MORLINO, L. La comparación en las ciencias sociales. Madrid: Alianza, 1991. p. 29-49.

Por que comparar?

  • Em 1971, Sartori responde que “a comparação é um método de controle de nossas generalizações ou leis do tipo ‘se…então'”, porém com o passar dos anos a função de controle através da comparação perdeu importância.
  • O que ocorreu com o controle?
    1. A estrutura didática das universidades estadunidenses distingue entre política americana e política comparativa, onde esta última se utiliza para outros países, podendo ser um estudo de apenas um. A maioria dos comparatistas americanos não compara nada, logo, nada controla.
    2. Comparar é confrontar uma coisa com outra, mas se se ambiciona controlar, então o que controlamos? Controlamos leis? Submeter ao controle a validez universal de uma lei não tem sentido, pois o conceito “universal” significa válido sempre e em qualquer lugar, porém as ambições nomotéticas atuais nas ciências sociais não são universais, mas sim leis declaradas na forma “se…então”.

“Lei: uma generalização dotada de poder explicativo que expressa uma regularidade.” (Sartori, 1984)

  • Comparar serve para controlar – comprovar ou refutar – se uma generalização (regularidade) se corresponde com os casos aos quais se aplica. A razão que nos obriga a comparar seriamente é o controle.
  • Comparação explícita: quanto mais apoiado em comparações explícitas e sistemáticas, mais forte e atendível será o controle.
  • Comparação implícita: deve satisfazer a condição de Zelditch, ou seja, “a comparabilidade postula um universal lógico comum a todas as unidades de um universo de comparação dado”. Implica uso de parâmetros obtidos de casos comparáveis e emprego de categorias de análise deverivadas de algum framework generalizante.
  • Durkheim, Lasswell e Almond nos conduzem à interpretação de que se nosso enfoque não é comparativo, então não é científico. Essa tese pode ser interpretada como: na medida em que fazemos ciência, comparamos, mesmo que de modo inconsciente. A questão é que o comparatista inconsciente/subconsciente não compara nem sub-roga nada.

O que é comparável?

  • “A política comparativa é aquele setor da ciência política que se define mediante uma etiqueta metodológica mais que substantiva.” (Lipjhart, 1971)
  • Método comparativo: constitui uma parte do método das ciências sociais em geral. Entendido como sub-espécie do método lógico, graças a Mill, mas para Sartori se justifica e se desenvolve como uma especialização do método científico (científico-empírico/científico-lógico) em geral.
  • Há quatro técnicas de verificação: 1) método experimental; 2) método estatístico; 3) método comparado; e 4) método histórico. Frente a muitas variáveis e um N pequeno, não há como eleger o método estatístico (Lipjhart, 1971).
  • “O que é comparável?” nos leva a reformular a pergunta assim: comparável (bastante similar) em razão de quais propriedades ou características, ou não comparável (demasiado distinto) a respeito de que outras propriedades ou características?
  • As comparações que nos interessam se dão entre entidades que possuem atributos em parte compartilhados (similares) e em parte não compartilhados (e declarados não comparáveis).
  • Mas quando o mesmo é na verdade o mesmo e o diferente é na real diferente? (Osgood, 1967). O problema se revolve através das classificações. Classificar é ordenar um universo em classes que são mutuamente excludentes; portanto, classificar é estabelecer similitudes e diferenças.
  • Como “igual” é uma noção relativa, entende-se que dois objetos pertencentes a mesma classe são mais similares entre si do que objetos que pertencem a outras classes. Quanto menor o número de classes, maior será a variação (dissimilitude) intra-classe.
  • O essencial é que a pergunta “o que é comparável” seja sempre formulada “comparável em que aspecto?”.

O cão-gato

  • O cão-gato nasce de quatro fontes que se reforçam umas com as outras:
    1. o paroquialismo: estudos de um único país que ignoram categorias de análise pertencentes a teorias gerais e adotam com despropósito termos fabricados por medida ou sem medida.
    2. o classificar incorretamente: um correto classificar possui um único critério e necessariamente produz classes mutuamente excludentes, classes que não consentem que “um” e “mais de um” fiquem juntos.
    3. o gradualismo: produto do abuso da máxima de que todas as diferenças são diferenças de grau, que podem se estender sobre um continuum de mais-menos. Entretanto, nas ciências sociais não há graus naturais e os pontos de divisão (cut-off points) são arbitrários, sendo que variações nos cortes podem fazer desaparecer exceções à regra ou para se invalidar uma lei.
    4. o alargamento dos conceitos: através do esticamento conceitual se criam cães-gatos graças aos quais uma generalização verdadeira pode ser falsamente declarada falsa. Exemplos de conceitos alargados: mobilização, pluralismo, ideologia, constituição.
  • Com o cão-gato e derivados o controle se esvazia de utilidade. Quanto mais produzimos cães-gatos, menos somos capazes de testar a validade ou não sobre qualquer coisa.

Como comparar

  • A estratégia do comparatista pode prestar atenção nas diferenças (em contextos similares) ou buscará semelhanças/analogias (em sistemas diferentes).
    • sistemas mais semelhantes: similares na maior quantidade de características possíveis, o que permite deixar de lado um alto número de variáveis graças à cláusula ceteris paribus, declarando-as iguais. Os fatores comuns de países homogêneos são irrelevantes para explicar as diferenças, logo, o ideal seria encontrar semelhanças em todas as variáveis exceto em uma, que seria aquela que nos interessa investigar.
    • sistemas mais diferentes: diferem em tudo, salvo o fenômeno que se investiga. Por exemplo: as taxas de suicídio são as mesmas entre russos e suecos (sistemas muito diferentes), então está claro que o fenômeno não pode ser explicado por fatores sistêmicos (que devem ser ignorados).
  • O controle comparado se refere a hipóteses generalizantes, a “leis” (quase-leis), a respeito das quais o problema surge das exceções.

Regras e exceções

  • As leis em ciências sociais não são concebidas deterministicamente através da lógica “dada a causa, está dado o efeito”. Na verdade, dada uma causa não é certo o efeito, não é conhecido e seguro ex ante → indeterminação causal, porque os efeitos não são necessários como nas leis naturais.
  • As leis que nos interessam são generalizações (regularidades) explicantes que implicam em uma compreensão fundada sobre causas.
  • As generalizações (nossas quase-leis) são consideradas probabilísticas, mas apenas o são no sentido de que são leis de tendência.
  • Por não serem deterministas, as leis das ciências sociais podem ser facilmente refutadas através de uma ou algumas exceções. São leis do tipo “se…então”, onde “se” está constituído por condições necessárias (e não por condições suficientes).
  • Especificar as condições necessárias é especificar quando se aplica ou não uma lei.
  • Aumentar o número de condições necessárias é restringir seu âmbito de aplicação, ou seja, as exceções estão em função das condições necessárias no sentido de que são reduzidas (elimináveis) agregando condições adicionais.
  • Como enfrentar o problema das exceções: 1) reduzir o âmbito de aplicação de uma lei, precisando melhor as condições; 2) reformular uma lei de tal modo que se possam incorporar as exceções em sua mesma formulação.

Incomensurabilidade e generalidade

  • Incomensurabilidade dos conceitos: tese de Feyerabend (1975), que diz que nossos conceitos estão tão impregnados de contexto (enraizados em sua respectiva cultura, história e localidade) que resultam incomensuráveis.
  • A tese contrária resulta mais verdadeira: conceitos são generalizações camufladas, são contentores mentais que mesclam o fluir incessante de percepções sempre diferentes e discretas.
  • “O analista da sociedade deve eleger entre um enfoque primordialmente histórico ou primariamente comparado (…) mas não pode ignorar o outro.” (Lipset, 1963)
  • Impõe-se ao comparatista a eleição entre individualizar e generalizar, sendo importante  relacionar os dois procedimentos.
  • Onde estão as leis gerais? Não há, nem pode havê-las, pois até hoje não está claro como formulá-las e, mesmo que tivéssemos uma, produziríamos de imediato um cão-gato.
  • Em 1970, Sartori propôs um método capaz de relacionar universais e particulares, que fosse capaz de organizar nossas categorias ao longo de uma escala de abstração, regida pela regra de transformação (ascendente/descendente) pela qual a conotação/denotação dos conceitos está em relação inversa.
  • Assim, para criar um conceito mais geral devemos reduzir suas características/propriedades, enquanto que para se criar um conceito mais específico as aumentamos.

O estudo de caso

  • Estudo de caso aqui é entendido como case study heurístico, crucial ou desviante. O caso é eleito ou porque nos resulta útil para gerar hipóteses ou porque é crucial para confirmar ou não uma teoria.
  • Os estudos de caso em questão devem ser, para serem considerados como tais, implicitamente comparativos. Isso não impossibilita que o estudo de um único caso não pertença ao método comparativo.
  • Um único caso, mesmo se tratando de “caso crucial”, não basta para confirmar uma generalização (embora aumente sua plausibilidade) e tampouco para refutá-la (embora a debilite).
  • As críticas de Sartori recaem novamente sobre o desenvolvimento da ciência política nos EUA e a absurda distinção entre americanistas e comparatistas; em segundo lugar, critica a infra-utilização do método comparativo, com tímida formulação de hipóteses e com controle comparativo sempre suavizado.