Grandes estruturas, processos amplos, comparações enormes

TILLY, C. Comparación. In: ______ Grandes estructuras, procesos amplios, comparaciones enormes. Madrid: Alianza Editorial, 1984. cap. 4. p. 81-109.

Erradicar os postulados perniciosos

  • Enfoque direto: examinar com detalhes as bases da lógica e a evidência na hora de fazer generalizações sobre a mudança social, sobre o emprego da força ilegítima e sobre a diferenciação como processo condutor; e confrontá-las com casos históricos reais e descrições alternativas do que verdadeiramente ocorreu.
  • Enfoque indireto: consiste em acoplar os relatos de mudanças ocorridas a generalizações com uma base histórica; não se refere a enunciados universais, mas a épocas e zonas concretas que especificam as causas, recorrem à diversidade entre um sucesso e outro dentro de seu âmbito espacial-temporal e que são consistentes com a evidência que se dispõe para esse tempo e esse lugar.
  • As estruturas e processos ocorrem em quatro níveis históricos:
    1. nível histórico-mundial: trata de estabelecer as propriedades especiais de uma época e enquadrá-la no fluxo e refluxo da história. Ex.: surgimento e caída de impérios.
    2. nível sistêmico-mundial: trata de discernir as conexões e variações essenciais no interior de grupos mais amplos de estruturas sociais fortemente interdependentes. Ex.: estudos sobre civilizações (Toynbee).
    3. nível macro-histórico: tenta-se dar conta de certas grandes estruturas e processos amplos e explorar formas alternativas.
    4. nível micro-histórico: traçamos os modos de ligação de indivíduos e grupos com essas estruturas e processos, com a esperança de explicar como são as experiências das pessoas.
  • O autor estabelece quatro níveis na aposta de que ao longo da história o mundo se dividiu em pelo menos duas redes de produção, distribuição e coerção amplamente interdependentes: a era da uma única rede que nos encontramos agora começou quando seu centro na China se fez inseparável do seu oponente na Europa.
  • Os 4 níveis existem e quais são as unidades que os definem são em parte perguntas empíricas. Podemos recorrer à evidência a favor/contra a pretensão de Toynbee: as grandes civilizações, definidas pela participação interdependente das pessoas num sistema concreto de premissas culturais, constituem as unidades inteligíveis mais amplas da análise histórica. Ou apresentar evidência que apoie à pretensão de que em um determinado momento do tempo o mundo inteiro constituiu um único sistema.
  • A decisão sobre a evidência requer um acordo sobre as definições práticas de termos difíceis como “coerência” e “interdependência”. Em algum lugar entre os extremos encontra-se uma explicação útil da comunicação humana.
  • Quais são as estruturas e os processos cruciais?
    • no nível histórico-mundial: as principais estruturas são os sistemas mundiais; já os processos relevantes são a transformação, o contato e a sucessão de sistemas mundiais. Quando trabalhamos neste nível as comparações são as mais amplas, ou seja, entre sistemas mundiais.
    • no nível sistêmico-mundial:  o sistema mundial continua operando como unidade significativa, além dos seus principais componentes – grandes redes e catnets – definidas por relações de coerção/intercâmbio. As redes de coerção se agrupam em estados, enquanto as redes de intercâmbio podem se agrupar em modos de produção regionais; os processos são de subordinação, produção e distribuição em grande escala. As comparações estabelecem semelhanças e diferenças entre redes de coerção (ou de intercâmbio) e processos de subordinação, produção e distribuição.
    • no nível macro-histórico: dentro de um sistema mundial dado, podemos ter como unidades de análise os estados, os modos regionais de produção, as associações, as companhias, os exércitos; os processos analisados são as dimensões da proletarização, a urbanização, a acumulação de capital, criação de estados e burocratização. As comparações aqui trazem uniformidades e diferenças entre ditas unidades e processos, além de uma combinação de ambos.
    • no nível micro-histórico: as estruturas são as relações entre pessoas e grupos; os processos são as transformações das interações humanas que constituem tais relações. As necessárias comparações entre as relações e suas transformações deixam de ser imensas para ganhar em coerência a respeito das estruturas e processos relativamente amplos. Ex.: relações entre determinados capitalistas e trabalhadores revelam o esquema no qual se baseia dentro do contexto de processos mais amplos de proletarização e concentração de capital.
  • Surgiu uma corrente de história social populista, que recorre ao nível micro-histórico e sua evidência para resolver questões sobre as conexões entre a vida social na pequena escala, de um lado, e as grandes estruturas e os processos amplos, de outro. Essa corrente contribuiu para eliminar postulados perniciosos do séc. XIX sobre a interpretação a vida cotidiana e das ações das pessoas. (Hobsbawn, Rudé, Perrot, Levine entre outros)

Será a história total nossa salvação?

  • Os historiadores sonham com uma história total que abarque a totalidade da vida social e suas determinações, mas os trabalhos na área obtiveram resultados pavorosos.
  • Tilly critica a obra que, segundo ele, foi um dos maiores logros da história total: Civilização material, economia e capitalismo, de Fernand Braudel, cujo intento era relatar todos os processos que moldaram o mundo capitalista dos séculos XIX e XX, variando no tempo entre várias épocas.
    • Os capítulos são recheados de complexidades, contradições e dúvidas;
    • O recurso a gráficos, tabelas, ilustrações pouco agrega ao desenvolvimento do argumento;
    • Faz uma distinção explícita entre seu método e a coleta de evidências que apoiem um conjunto de proposições interconectadas;
    • Os temas tratados podem ser assim divididos: 1) cultura material e estrutura da vida cotidiana; 2) economia e operações de intercâmbio; e 3) capitalismo e outras etapas por que atravessou o mundo; tudo isso sem estabelecer uma hierarquia causal e um modelo analítico que guie a análise.
    • Vol. I: pretende descrever como as técnicas de produção, distribuição e consumo variaram de regiões a outras do mundo e de que modo essas técnicas moldaram a experiência cotidiana. Apesar da ampla documentação demográfica em que se apoia, o autor não está preocupado com os processos vitais em si, apresenta perguntas que ficam no ar e as conclusões são ambivalentes (“una compilación-sintesis”).
    • Vol. II: parte do estudo das técnicas pelas quais pessoas de diferentes partes do mundo realizavam intercâmbio de bens a uma discussão dos diversos tipos e escalas de mercado. Aqui põe mais ênfase nas condições de intercâmbio que nas relações de produção e afirma que o senhor feudal não era capitalista, mas parte do sistema. A visão do capitalismo de Braudel era de um sistema em que dois ou mais mundos econômicos extensos, coerentes e conectados dentro do mercado ligam-se e chegam a ser interdependentes graças à ação de manipuladores do capital, portanto, oferece uma configuração geral do capitalismo, não de suas relações sociais características. A definição de capitalismo que parte do intercâmbio rechaça a ênfase posta na tecnologia da produção, pois demonstra que frequentemente a indústria artesanal e outras formas similares operavam de modo profundamente capitalista; assim abandona por completo as relações de produção, recai em outras incoerências e dá “vueltas en círculo”.
    • Vol. III: começa com uma consideração sobre as economias mundiais como unidades fundamentais de análise e continua com uma descrição cronológica das sucessivas economias. Tenta explicar como e por que a Europa se tornou o núcleo principal da industrialização; pergunta-se por que a França não foi número um nesse processo e, para isso, passa a uma exploração das alternantes divisões regionais no interior da economia francesa (que Tilly chama de método conversacional). A concepção da vida material como obstáculo à capacidade de eleição humana desaparece neste volume, assim como todos os obstáculos elencados no volume I e deixa de analisar e incorporar no seu sistema explicativo a dinâmica demográfica, assim como a ação do Estado desvaneceu como possível explicação.
    • Braudel diz que no século XVI as populações eram próximas em diferentes partes do mundo e que uma mínima diferença bastava para originar “vantagens iniciais”, o que poderia explicar o abismo entre Europa e outras partes do mundo, mas o autor diz que esse abismo surgiu tarde e não pode ser atribuído unicamente à racionalização da economia de mercado. A explicação das vantagens iniciais perde credibilidade porque no séc. XVIII a Europa ocidental não possuía nenhuma vantagem significativa com relação a América do Norte ou China. (Bairoch)
    • Até o começo do volume III parece que Braudel apresenta seu “milagre explicativo” apoiando-se no modelo de Wallerstein sobre o sistema mundial europeu, porém apresenta argumentos contrários a ele, embora coincida quanto ao tema das sucessivas hegemonias das metrópoles capitalistas, além de se manter fiel à postura de Wallerstein de centrar-se nas condições de intercâmbio e não nas relações de produção como traço essencial do capitalismo; assim, não emprega o enfoque núcleo/periferia/semi-periferia nem tenta contrastá-lo com sua extensíssima informação.
  • Braudel confrontou as diversas teorias que acadêmicos propuseram e outorgou a elas o valor histórico correspondente, porém a soma de várias teorias não é uma nova teoria e seu intento de apresentar uma história total falhou, e talvez ninguém nunca consiga abarcar o desenvolvimento completo do capitalismo e da totalidade do crescimento do sistema europeu de Estados.

A ocasião para comparações enormes (mas não gigantescas)

  • Tilly diz que seus estudos se situam entre a análise micro-histórica e a macro-histórica, porque crê firmemente que entender a micro-história facilita a tarefa de entender a macro.
  • O objetivo é acomodar descrições de estruturas e processos específicos de sistemas mundiais concretos a generalizações apoiadas em dados históricos e relativas a tais sistemas mundiais.
  • Reduzindo o campo de ação para “Europa ocidental a partir de 1500”, temos possíveis princípios organizativos dos Estados nacionais e princípios de base histórica para o desenvolvimento do capitalismo.
  • Possíveis princípios organizativos referente aos estados nacionais:
    1. unidades políticas independentes carentes de exército centralizado, barreiras geográficas sólidas ou uma série de poderes adjacentes que perderam autonomia e foram absorvidos por estados de maiores dimensões.
    2. questões de guerra expandiram os aparatos fiscais nacionais e assuntos de guerra e seus preparativos deram lugar às estruturas principais do Estado nacional.
    3. ao cabo das guerras europeias, reduziu-se o número de estados europeus, houve reordenação das fronteiras e alterações nas relações entre os estados.
    4. produziram-se grandes rebeliões quando governantes exigiram aumento de contribuição para a guerra ou quando a guerra e seus efeitos debilitavam a capacidade repressiva dos governantes.
  • Princípios com uma base histórica enunciados para o desenvolvimento do capitalismo:
    • 5. a proletarização da população ocorreu fundamentalmente no campo e afetou a agricultura da mesma forma que a indústria, anterior ao século XIX.
    • 6. as manufaturas se organizaram predominantemente no campo na Europa entre séc. XVII e XVIII e amplas zonas rurais sofreram processo de desindustrialização durante a explosão do capital e do trabalho no século XIX.
    • 7. a explosão reduziu a mobilidade residencial na Europa ocidental e os fluxos temporais de trabalhadores não-especializados se acelerou consideravelmente, oriundos da periferia da Europa.
    • 8. até o século XIX poucos capitalistas sabiam como manufaturar qualquer produto e eram especializados na compra e venda dos produtos do trabalhadores, o que mudou aos fins do século quando os capitalistas passaram a deter os meios de produção.
  • Tais princípios não são postulados, e até que sejam revisados ou substituídos, servem de marco para uma análise mais específica de mudanças estruturais.
  • Pegando como exemplo a generalização 8, se tomamos como dado que provisoriamente durante o século XIX capitalistas e trabalhadores lutaram pelo controle da produção, podemos examinar condições através das quais os trabalhadores venceram. Mas se considerarmos que a capacidade do capitalista de controlar o acesso a fontes de energia e matéria-prima contribuiu para sua vitória nesta luta, então dispomos de garantia para pesquisar se o abandono de fontes de energia e matérias-primas proporcionou:
    1. aos capitalistas os meios para a concentração de capital como nunca antes;
    2. se se converteu em uma estratégia deliberada dos capitalistas que pretendiam reorganizar todo o processo produtivo;
    3. marcou a sentença de morte para a produção em pequena escala com amplo controle dos trabalhadores.
  • Uma generalização deve ter uma ampla validez dentro de seu próprio âmbito histórico, mas deve ser ao mesmo tempo contingente.

Nenhuma segurança nas cifras

  • Os estudos comparativos de grandes estruturas e processos amplos produzem um maior aporte intelectual quando os pesquisadores examinam um número relativamente pequeno de questões.
  • Com cifras menores, o estudioso de uma estrutura/processo centra-se nas circunstâncias históricas e nas características concretas dos casos que analisa e assim dedica-se com maior afinco para encontrar as condições lógicas para uma comparação eficaz.
  • Algumas exceções como descrições estatísticas (Paul Bairoch) e orientações teóricas junto com estudos de caso (Jeffery Paige) se mostraram relevantes sobre a mudança estrutural a grande escala, mas foram explícita e deliberadamente comparativas. Chega-se a seguinte lição: deve se concentrar em comparações detalhadas de cifras pequenas até que se tenha uma ideia clara de que se precisa das grandes cifras e de como conseguir que as comparações resultem válidas.
  • Os grandes estudos mais recentes sobre mudança estrutural em grande escala que empregam número reduzido de casos foram influenciados pelos clássicos (Durkheim, Tocqueville, Weber e Marx), mas nenhum dos autores recentes adota passivamente os princípios clássicos, porque se deram conta que nem os grandes solucionaram o problema com que estamos lidando.
  • O ressurgimento do pensamento marxista, graças à crítica às teorias da modernização e desenvolvimento, partiu de um duplo processo:
    1. os pesquisadores abandonaram os estudos de grandes estruturas e processos amplos que se concentram no presente e decidem levar a história a sério.
    2. descobrem mais tarde as enormes fontes teóricas que o pensamento marxista oferece para a pesquisa histórica.
  • Os marxistas estavam relativamente satisfeitos com sua capacidade de analisar a organização da produção, mas pecavam quanto à organização da coerção. A partir de Marx, a coerção estava ligada à mudança estrutural, por exemplo no feudalismo destaca a dependência desse modo de produção a respeito da coerção não-econômica dos camponeses. No capitalismo, havia uma genialidade do sistema que fazia com que a submissão ante à exploração servisse aos interesses dos trabalhadores no curto prazo a despeito de uma perda no longo prazo.
  • A organização da coerção tem sua própria lógica, paralela à lógica da organização da produção ou, ao contrário, se reduz à lógica da produção? Até que ponto, como e quando os estados atuam independentemente da organização da produção?
  • Theda Skocpol: viu na organização da coerção, em todos os níveis, incluindo o do Estado, uma lógica e uma influência independentes, não completamente redutível à lógica da produção.
  • A partir do abandono das teorias desenvolvimentistas e o renascimento do pensamento marxista, houve também um ressurgimento dos trabalhos genuinamente históricos, ou seja, estudos que tomam por dado que o tempo e o espaço em que surge uma estrutura ou um processo influenciam seu caráter, que a sequência dentro da qual se produzem sucessos similares impacta nos seus resultados, e que o conhecimento sobre estruturas e processos passados é problemático e por isso requer uma pesquisa sistemática própria. (Douglas Hibbs, Bertrand Badie, Pierre Birnbaum, Victoria Bonnel)

Formas de ver

  • Como podemos comparar grandes estruturas e processos amplos?
  • A lógica clássica da comparação, que incita a uma busca da variação concomitante, deve se ajustar aos nossos objetivos, permitindo um exercício mais eficaz ao invés de torná-lo impossível. As regras prescrevem que se examine a aparente co-variação com a máxima seriedade e que se eliminem as causas espúrias.
  • Devemos nos assegurar das unidades que estamos comparando. A chave está em ter critérios para identificar populações, categorias, redes e catnets reais como espécimes do tipo de unidade que estamos teorizando.
  • Unidades de análise: sociedades, estados, blocos de poder internacional, regiões marcadas pela hierarquia das cidades e dos mercados, distintos modos de produção regionais, classes sociais, grupos linguísticos etc.
  • A eleição entre múltiplas unidades de análise reside no campo teórico. Unicamente podemos esperar organizar a evidência de um modo eficaz e estar seguros de que seus princípios suportariam um escrutínio teórico quando os teóricos das grandes estruturas especificam a quais unidades se aplicam seus princípios.
  • Diferentes modos de comparar grandes estruturas e processos amplos:
    1. contribuição de todos os casos: o princípio resultante de uma comparação pode variar de um simples caso (apresentar as características do caso corretamente) a todos os casos possíveis de um fenômeno (apresentar características de todos os casos).
    2. multiplicidade de formas: o princípio que resulta de uma comparação pode ser simples (todos os casos possíveis de um fenômeno têm propriedades comuns) ou múltiplo (um fenômeno se manifesta de múltiplas formas).
  • Classificação das estratégias de comparação:
    • individualizadora: contrastar casos específicos de um fenômeno dado como meio de captar as peculiaridades de cada caso. (Bendix)
    • universalizadora: busca explicar o fato de que cada um dos casos de um fenômeno segue em essência a mesma regra.
    • identificação da diferença: estabelece um princípio de variação no caráter ou na intensidade de um fenômeno mediante o exame das diferenças sistemáticas entre os distintos casos. (Paige)
    • globalizadora: coloca distintos casos em diferentes pontos do mesmo sistema e com isso tenta explicar suas características como uma função de suas relações variáveis com o sistema como um todo. (Wallerstein)
  • As quatro estratégias funcionam de acordo com os propósitos da comparação, podendo, como no caso de Rebellious Century, dos Tilly, se apoiar em comparações individualizadoras mesmo que ocasionalmente faça comparações universalizadoras e também as que tratam de identificar a diferença.

Julgar as comparações

  • Bendix, Skocpol, Moore e Rokkan rechaçam em geral os argumentos perniciosos do século XIX e tratam de construir seus argumentos sobre uma sólida evidência histórica. Mostram que é preciso desligar a comparação a grande escala de algo abstrato e a-histórico e, ao contrário, ligar a comparação a experiências históricas concretas de mudança.

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