Comparação e método comparativo

SARTORI, G. Comparación y método comparativo. In: SARTORI, G.; MORLINO, L. La comparación en las ciencias sociales. Madrid: Alianza, 1991. p. 29-49.

Por que comparar?

  • Em 1971, Sartori responde que “a comparação é um método de controle de nossas generalizações ou leis do tipo ‘se…então'”, porém com o passar dos anos a função de controle através da comparação perdeu importância.
  • O que ocorreu com o controle?
    1. A estrutura didática das universidades estadunidenses distingue entre política americana e política comparativa, onde esta última se utiliza para outros países, podendo ser um estudo de apenas um. A maioria dos comparatistas americanos não compara nada, logo, nada controla.
    2. Comparar é confrontar uma coisa com outra, mas se se ambiciona controlar, então o que controlamos? Controlamos leis? Submeter ao controle a validez universal de uma lei não tem sentido, pois o conceito “universal” significa válido sempre e em qualquer lugar, porém as ambições nomotéticas atuais nas ciências sociais não são universais, mas sim leis declaradas na forma “se…então”.

“Lei: uma generalização dotada de poder explicativo que expressa uma regularidade.” (Sartori, 1984)

  • Comparar serve para controlar – comprovar ou refutar – se uma generalização (regularidade) se corresponde com os casos aos quais se aplica. A razão que nos obriga a comparar seriamente é o controle.
  • Comparação explícita: quanto mais apoiado em comparações explícitas e sistemáticas, mais forte e atendível será o controle.
  • Comparação implícita: deve satisfazer a condição de Zelditch, ou seja, “a comparabilidade postula um universal lógico comum a todas as unidades de um universo de comparação dado”. Implica uso de parâmetros obtidos de casos comparáveis e emprego de categorias de análise deverivadas de algum framework generalizante.
  • Durkheim, Lasswell e Almond nos conduzem à interpretação de que se nosso enfoque não é comparativo, então não é científico. Essa tese pode ser interpretada como: na medida em que fazemos ciência, comparamos, mesmo que de modo inconsciente. A questão é que o comparatista inconsciente/subconsciente não compara nem sub-roga nada.

O que é comparável?

  • “A política comparativa é aquele setor da ciência política que se define mediante uma etiqueta metodológica mais que substantiva.” (Lipjhart, 1971)
  • Método comparativo: constitui uma parte do método das ciências sociais em geral. Entendido como sub-espécie do método lógico, graças a Mill, mas para Sartori se justifica e se desenvolve como uma especialização do método científico (científico-empírico/científico-lógico) em geral.
  • Há quatro técnicas de verificação: 1) método experimental; 2) método estatístico; 3) método comparado; e 4) método histórico. Frente a muitas variáveis e um N pequeno, não há como eleger o método estatístico (Lipjhart, 1971).
  • “O que é comparável?” nos leva a reformular a pergunta assim: comparável (bastante similar) em razão de quais propriedades ou características, ou não comparável (demasiado distinto) a respeito de que outras propriedades ou características?
  • As comparações que nos interessam se dão entre entidades que possuem atributos em parte compartilhados (similares) e em parte não compartilhados (e declarados não comparáveis).
  • Mas quando o mesmo é na verdade o mesmo e o diferente é na real diferente? (Osgood, 1967). O problema se revolve através das classificações. Classificar é ordenar um universo em classes que são mutuamente excludentes; portanto, classificar é estabelecer similitudes e diferenças.
  • Como “igual” é uma noção relativa, entende-se que dois objetos pertencentes a mesma classe são mais similares entre si do que objetos que pertencem a outras classes. Quanto menor o número de classes, maior será a variação (dissimilitude) intra-classe.
  • O essencial é que a pergunta “o que é comparável” seja sempre formulada “comparável em que aspecto?”.

O cão-gato

  • O cão-gato nasce de quatro fontes que se reforçam umas com as outras:
    1. o paroquialismo: estudos de um único país que ignoram categorias de análise pertencentes a teorias gerais e adotam com despropósito termos fabricados por medida ou sem medida.
    2. o classificar incorretamente: um correto classificar possui um único critério e necessariamente produz classes mutuamente excludentes, classes que não consentem que “um” e “mais de um” fiquem juntos.
    3. o gradualismo: produto do abuso da máxima de que todas as diferenças são diferenças de grau, que podem se estender sobre um continuum de mais-menos. Entretanto, nas ciências sociais não há graus naturais e os pontos de divisão (cut-off points) são arbitrários, sendo que variações nos cortes podem fazer desaparecer exceções à regra ou para se invalidar uma lei.
    4. o alargamento dos conceitos: através do esticamento conceitual se criam cães-gatos graças aos quais uma generalização verdadeira pode ser falsamente declarada falsa. Exemplos de conceitos alargados: mobilização, pluralismo, ideologia, constituição.
  • Com o cão-gato e derivados o controle se esvazia de utilidade. Quanto mais produzimos cães-gatos, menos somos capazes de testar a validade ou não sobre qualquer coisa.

Como comparar

  • A estratégia do comparatista pode prestar atenção nas diferenças (em contextos similares) ou buscará semelhanças/analogias (em sistemas diferentes).
    • sistemas mais semelhantes: similares na maior quantidade de características possíveis, o que permite deixar de lado um alto número de variáveis graças à cláusula ceteris paribus, declarando-as iguais. Os fatores comuns de países homogêneos são irrelevantes para explicar as diferenças, logo, o ideal seria encontrar semelhanças em todas as variáveis exceto em uma, que seria aquela que nos interessa investigar.
    • sistemas mais diferentes: diferem em tudo, salvo o fenômeno que se investiga. Por exemplo: as taxas de suicídio são as mesmas entre russos e suecos (sistemas muito diferentes), então está claro que o fenômeno não pode ser explicado por fatores sistêmicos (que devem ser ignorados).
  • O controle comparado se refere a hipóteses generalizantes, a “leis” (quase-leis), a respeito das quais o problema surge das exceções.

Regras e exceções

  • As leis em ciências sociais não são concebidas deterministicamente através da lógica “dada a causa, está dado o efeito”. Na verdade, dada uma causa não é certo o efeito, não é conhecido e seguro ex ante → indeterminação causal, porque os efeitos não são necessários como nas leis naturais.
  • As leis que nos interessam são generalizações (regularidades) explicantes que implicam em uma compreensão fundada sobre causas.
  • As generalizações (nossas quase-leis) são consideradas probabilísticas, mas apenas o são no sentido de que são leis de tendência.
  • Por não serem deterministas, as leis das ciências sociais podem ser facilmente refutadas através de uma ou algumas exceções. São leis do tipo “se…então”, onde “se” está constituído por condições necessárias (e não por condições suficientes).
  • Especificar as condições necessárias é especificar quando se aplica ou não uma lei.
  • Aumentar o número de condições necessárias é restringir seu âmbito de aplicação, ou seja, as exceções estão em função das condições necessárias no sentido de que são reduzidas (elimináveis) agregando condições adicionais.
  • Como enfrentar o problema das exceções: 1) reduzir o âmbito de aplicação de uma lei, precisando melhor as condições; 2) reformular uma lei de tal modo que se possam incorporar as exceções em sua mesma formulação.

Incomensurabilidade e generalidade

  • Incomensurabilidade dos conceitos: tese de Feyerabend (1975), que diz que nossos conceitos estão tão impregnados de contexto (enraizados em sua respectiva cultura, história e localidade) que resultam incomensuráveis.
  • A tese contrária resulta mais verdadeira: conceitos são generalizações camufladas, são contentores mentais que mesclam o fluir incessante de percepções sempre diferentes e discretas.
  • “O analista da sociedade deve eleger entre um enfoque primordialmente histórico ou primariamente comparado (…) mas não pode ignorar o outro.” (Lipset, 1963)
  • Impõe-se ao comparatista a eleição entre individualizar e generalizar, sendo importante  relacionar os dois procedimentos.
  • Onde estão as leis gerais? Não há, nem pode havê-las, pois até hoje não está claro como formulá-las e, mesmo que tivéssemos uma, produziríamos de imediato um cão-gato.
  • Em 1970, Sartori propôs um método capaz de relacionar universais e particulares, que fosse capaz de organizar nossas categorias ao longo de uma escala de abstração, regida pela regra de transformação (ascendente/descendente) pela qual a conotação/denotação dos conceitos está em relação inversa.
  • Assim, para criar um conceito mais geral devemos reduzir suas características/propriedades, enquanto que para se criar um conceito mais específico as aumentamos.

O estudo de caso

  • Estudo de caso aqui é entendido como case study heurístico, crucial ou desviante. O caso é eleito ou porque nos resulta útil para gerar hipóteses ou porque é crucial para confirmar ou não uma teoria.
  • Os estudos de caso em questão devem ser, para serem considerados como tais, implicitamente comparativos. Isso não impossibilita que o estudo de um único caso não pertença ao método comparativo.
  • Um único caso, mesmo se tratando de “caso crucial”, não basta para confirmar uma generalização (embora aumente sua plausibilidade) e tampouco para refutá-la (embora a debilite).
  • As críticas de Sartori recaem novamente sobre o desenvolvimento da ciência política nos EUA e a absurda distinção entre americanistas e comparatistas; em segundo lugar, critica a infra-utilização do método comparativo, com tímida formulação de hipóteses e com controle comparativo sempre suavizado.

 

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