Globalização Econômica: Aspectos Relevantes

MOREIRA, M. B. Globalização Econômica: Aspectos Relevantes. In: Jorge Alberto Machado (org.) Trabalho, Economia e Tecnologia. Novas Perspectivas para a Sociedade Global. São Paulo: Tendez e Praxis. p. 95-119, 2003.

  • Globalização é um conceito recente e polissêmico que pode ser entendido como “o resultado de um processo dialético envolvendo um sistema de forças muito diversificadas – econômicas, sociais, político-ideológicas (…) que desde as últimas três décadas do século XX vem modelando e remodelando a divisão internacional do trabalho, favorecendo a acumulação de capital e promovendo a homogeneização dos comportamentos e dos consumos humanos”.
  • O agente crítico da globalização é o capital financeiro internacional (conjunto das empresas transnacionais e instituições financeiras com dimensão e âmbito de atuação transnacional), que desenvolve estratégias para adaptar os padrões de acumulação a condições geoeconômicas e geopolíticas em mudança acelerada.
  • Aspectos da globalização que trouxeram implicações para o capitalismo mundial:
    • o processo ideológico que conduziu à hegemonia da ortodoxia neoliberal e a revolução nos transportes/logística e nas tecnologias de informação, como condições necessárias para a globalização;
    • a mudança dos modelos organizativos das empresas: pós-fordistas, novas formas de gestão à distância e articulação em rede;
    • a concentração espacial da vertente produtiva, acompanhando as tendências oligopolistas das grandes empresas transnacionais;
    • emergência de um mercado financeiro global: associada ao crescimento dos fluxos financeiros, maioria especulativos.
  • Reconhece-se a emergência do conceito ‘globalização’ para dar conta das mudanças no capitalismo mundial, porém não significa concordar com os que consideram o processo inevitável, irreversível e defensável.
  • Essas mudanças provocaram alterações significativas e dramáticas no relacionamento Estado-nação e capital, com efeitos nos povos que passam frequentemente pelo crescimento das desigualdades e pelo aumento da exclusão social.
  • Na esfera política, há convergência de autores de esquerda sobre a globalização ser uma nova roupagem do imperialismo americano, através do “globalizador” Consenso de Washington.
  • Num nível de análise mais abrangente, Rodrik fala no trilema da globalização: procura-se integração econômica, democracia e não se abdica da autodeterminação do Estado-nação, não sendo possível assegurar todas essas condições simultaneamente.

1 – A gênese da globalização

  • A abordagem proposta centra a gênese da globalização na ligação entre o mundo das ideias e a forma como elas servem para transformar o mundo através de fenômenos de agency. 
  • Esses fenômenos estão na base da emergência da hegemonia ideológica neoliberal e explicam por que essa ideologia se tornou instrumento para o início do processo de globalização. A globalização e o suporte ideológico neoliberal se reforçam mutuamente.
  • O deflagrar da globalização se deu graças à ação do governo hegemônico (EUA) e seu aliado ideológico preferencial (UK), mas isso num contexto em que a ideologia neoliberal já tinha se tornado hegemônica.
  • A contestação do paradigma keynesiano e a emergência da hegemonia da ideologia neoliberal devem-se muito em parte a círculos acadêmicos e opinion makers conservadores, em um contexto favorável à luta ideológica liberal contra os totalitarismos (especial a URSS).
  • O paradigma keynesiano foi substituído pelo neoclássico, segundo Krugman, graças à inevitabilidade de formalização matemática que dominava a produção teórica e o ensino das disciplinas econômicas. Isso também explica a queda da sub-disciplina Economia do Desenvolvimento e a consolidação do paradigma neoclássico.
  • Os estudos sobre falhas de governo também contribuíram para a hegemonia da ideologia neoliberal, pois a reforçavam e davam bases empíricas para se pregar a não intervenção do Estado, consequentemente pregando a extensão do mercado a esferas que antes não penetrava.
  • Esse movimento ocorre no contexto do final dos anos 1970 e início dos anos 1980, quando Thatcher inicia seu programa liberalizador.
  • Os EUA pressionaram o mundo para a liberalização do comércio internacional e, no âmbito das finanças, tanto Wall Street quanto Londres esforçaram-se para consolidar suas posições de domínio com a instauração de um mercado financeiro global.
  • Instituições de Bretton Woods ou da OCDE também contribuíram oferecendo estudos que demonstravam ganhos da liberalização dos mercados e a suposta superioridade dos países mais abertos. Essas instituições atendiam assim ao interesse do país economicamente hegemônico e mais influente, os EUA.
  • A hegemonia do paradigma neoclássico e a reafirmação das vantagens da liberdade de comércio permitiram aos seus defensores preparar um normativo de desenvolvimento, que seria usado pelo FMI, através da imposição de regras rígidas do Consenso de Washington aos países em dificuldades.
  • Assim foi possível passar uma mensagem, que sobrevaloriza o componente individual e privado, aos opinion makers e destes aos órgãos de poder e à opinião pública em geral, graças também aos meios de comunicação concentrados em redes globais. Redes estas que propagam a ideologia dominante como sua e ignoram as visões críticas.

2 – A lógica e a dinâmica do capitalismo global

  • A distinção entre capital nacional e internacional faz cada vez menos sentido, pois mesmo empresas voltadas apenas para mercados nacionais não deixam de obedecer a uma lógica e dinâmica compreendidas em uma perspectiva global. Entretanto, o local de origem das empresas transnacionais continua sendo importante no contexto de competitividade entre nações.
Os agentes econômicos da globalização
  • A hipótese do autor parte da ideia de que os agentes do capitalismo global mostram lógicas e dinâmicas diferenciadas, por vezes até concorrentes, cujos efeitos a nível local são também suficientemente diferentes.
  • A análise baseia-se na premissa de que os agentes do capitalismo que se regem por uma lógica e dinâmica globais obedecem a três modelos-tipo distintos.
    1. Os agentes do capitalismo global com preocupações produtivas:  são as empresas transnacionais envolvidas na produção de bens, que procuram economias de escala e baseiam sua competitividade em mecanismos oligopolistas para eliminar concorrência e garantir grandes mercados, além de fazerem uso de outsourcing para se adaptar aos desafios da globalização.  Exemplos: indústrias de capital intensivo (aeronáutica, petrolífera, química, high tech etc) e grandes firmas transnacionais no setor de infra-estrutura.
    2. Os agentes do capital global com preocupações comerciais:  esse modelo-tipo se baseia nas funções de intermediação, os agentes não necessitam estar envolvidos em qualquer atividade produtiva e permanecem próximos do consumidor, pois se interessam pela logística da distribuição e novas formas de vendas. Lidam com bens e serviços e procuram a maior flexibilidade possível, garantida pela possibilidade de se abastecer a nível global, pela capacidade organizativa de coordenação multi-espacial e pela alavanca financeira que lhes dá ligação de proximidade com os consumidores, que pagam à vista enquanto os fornecedores pedem prazos maiores. Exemplos: empresas detentoras de notórias marcas registradas (GAP, Liz Clairborne, Nike etc), cadeias de supermercados (Walmart, Ahold, Carrefour, Marks & Spencer etc). Um aspecto importante deste tipo de agentes transnacionais é o contínuo reforço do seu poder de mercado, em parte por seu país de origem, mas principalmente pela internacionalização, o que permite a eles negociarem com os agentes do capital global com preocupações produtivas em posição de força.
    3. Os agentes do capitalismo global com lógica financeira especulativa: baseia-se na especulação, que por sua vez confere enorme poder aos agentes do capital especulativo em razão dos elevados fluxos de capitais dedicados a atividades especulativas em escala global. Os movimentos especulativos tendem a um jogo de soma nula para os agentes envolvidos, porém há efeitos para a coletividade, como a instabilidade que provocam e o fato de as crises serem exponencialmente maiores no mundo globalizado. São maiores porque os montantes envolvidos na especulação crescem enormemente e tem efeitos imediatos sobre o globo. A lógica e a dinâmica deste modelo-tipo ganharam outra dimensão com a desregulação financeira e a liberdade de movimento de capitais. Os agentes especulativos foram os que mais aproveitaram a revolução das tecnologias e passaram a atuar em vários mercados em tempo real. O crescimento do poder deste tipo de capital está ligado ao peso dos investidores institucionais, detentores do “dinheiro estratégico”.
  • Em cada empresa transnacional encontramos um misto das características de cada modelo-tipo, sendo assim o capital global voltado para a produção de bens vai se adaptando a estas novas tendências.
  • Quanto ao capital especulativo, há de se destacar a possibilidade que ele tem de manipular cotações de empresas e influenciar taxas de câmbio, para obter mais-valias a curto prazo. Para isso precisa ter à disposição fundos avultados e ausência de forças reguladoras.
  • A dinâmica dos agentes especulativos depende muito da vontade política e da capacidade dos estados-nação ou de entidades reguladoras supranacionais. Quando se criam condições favoráveis à total desregulamentação, o poder do capital especulativo cresce.
  • Há uma evidente contradição entre o capital especulativo e os outros dois tipos, no sentido de que estes preferem um ambiente mais estável, enquanto aquele vê excelentes oportunidades de negócios na instabilidade e volatilidade dos mercados financeiros.
  • As preocupações especulativas estão presentes nos outros agentes do capitalismo global e são dele parte indissociável.

3 – Os impactos da globalização

A globalização e suas implicações políticas
  • Em razão da globalização, o papel do Estado se alterou significativamente e as empresas transnacionais passaram a mostrar-se mais impositivas e menos preocupadas em se adaptar às exigências dos países onde se instalam.
  • O capital global libertou-se de muitas formas de regulação do estado-nação e conseguiu assumir funções e poderes reguladores antes prerrogativas dos estados.
  • Com a conivência do estado-nação, o capital global se auto-investiu de poder de ditar políticas econômicas através do instrumento “julgamento do mercado”.
  • A ditadura do mercado é resultado da tirania financeira, é legitimada pela ideologia neoliberal e validada por instituições internacionais como o FMI, a OMC e o Banco Mundial.
  • Com a globalização, o capital global libertou-se de grande parte das atividades reguladoras do Estado, as que restringiam a mobilidade e as que defendem direitos do trabalho, sem que isso implicasse necessariamente em níveis superiores de integração econômica.
  • Os efeitos da globalização são sentidos em diferentes intensidades, dependendo de quão aberto o país é ao mercado internacional e da forma como esse país consegue pôr em práticas políticas econômicas e sociais que possam servir de contraponto aos efeitos devastadores do mercado livre.
  • Ofereceu-se ao capital global a possibilidade de instituir a racionalidade comercial, na medida em que a OMC ou acordos regionais como o NAFTA significam que legalmente se pode penalizar estados que interfiram na liberdade de comércio. Portanto, o poder e a legitimidade democrática ficam sujeitos à racionalidade comercial.
Impacto nas economias
  • A questão da liberdade do comércio e das finanças constituem pilares da globalização, porém não há evidência comprovada de que países mais abertos possuam desempenho melhor que os que mantêm graus de proteção → contestação ao Consenso de Washington.
  • Surgiram acadêmicos que questionaram o paradigma dominante, como Stiglitz (2001) e Rodrik (2000), que destacava a importância das instituições para o bom funcionamento do mercado; e críticos dentro da teoria mainstream, como Krugman (1997) e Bhagwati (1998), sobre os excessos da liberalização dos mercados financeiros.
  • O que se exige não é menos globalização, mas uma menos centrada no Consenso de Washington e na ditadura das finanças e dos mercados, sem deixar de se preocupar de procurar formas transnacionais para resolver questões econômicas, sociais e ambientais.
  • Questão dos bens e serviços públicos: um impacto negativo da tirania financeira resulta da dificuldade de criar e manter os bens públicos necessários para o bem estar das sociedades e respectivo desenvolvimento. Deixar tudo a critério do mercado corresponde alargar os espaços de exclusão.
  • Talvez nos países desenvolvidos o mercado possa ser mais ágil que o Estado, no entanto surgem dois problemas:
    1. o capital privado só se arrisca nessas áreas em parceria e com apoio do Estado.
    2. como assegurar aos excluídos que não podem pagar os preços de mercado para ter acesso a bens e serviços públicos.
  • Nos países subdesenvolvidos, a tendência é de o capital global só dotar de bens e serviços públicos áreas geográficas e setores atrativos para ele, deixando parte do globo condenada à exclusão  e subdesenvolvimento.

Conclusão

  • Estamos diante de um processo em que à utopia do capital se contrapõe a utopia de uma outra globalização necessária para resolver problemas como os que ultrapassam a dimensão econômica (ambiental, de saúde pública etc) e também os econômicos, que a lógica do mercado não está em condições de satisfazer, caso dos bens e serviços públicos de âmbito internacional.

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