Inflação inercial, hiperinflação e desinflação: notas e conjecturas

LOPES, Francisco L. Inflação inercial, hiperinflação e desinflação: notas e conjecturas. Revista de Política Econômica, v. 05, n. 02, p. 135-151, 1985.

  • Apesar de todos os esforços feitos pelo governo para reduzir a inflação que em 1984 estava em 200% ao ano, ela continua estabilizada, fato que, segundo Lopes, significa que o caráter da inflação é “predominantemente inercial”. Ele vai mais longe e afirma que toda inflação crônica é “sempre predominantemente inercial”.

INFLAÇÃO INERCIAL

Componentes do Processo Inflacionário: Choques e Tendência

  • Choques inflacionários: são determinados impulsos inflacionários ou deflacionários que contribuem para o ritmo de elevação dos preços e que resultam de ações dos agentes econômicos (exitosas ou não) com vistas a alterar os preços relativos.
  • Tendência inflacionária: é uma componente de inflação pura, resíduo não explicado pelos choques.
  • Natureza da tendência inflacionária:
    1. Literatura convencional: explica a tendência com base nas expectativas inflacionárias.
    2. Hipótese alternativa (defendida pelo autor): explica a tendência em termos da “inércia inflacionária que resulta de um padrão rígido de comportamento dos agentes econômicos em economias cronicamente inflacionadas”.
      • Alguns autores demonstram que a importância quantitativa dos choques de demanda é pequena quando comparada aos níveis correntes de inflação. Para se combater uma inflação de 3 dígitos fica fora de questão, segundo Lopes, instrumentos convencionais de controle da demanda agregada, exceto se se acredite que eles afetem o mercado através de repercussões sobre a tendência.
      • Outros autores dedicam-se aos choques de oferta que, quando desfavoráveis, produzem impulsos inflacionários. Lopes interpreta que a máxi de fevereiro de 1983 foi responsável pelo aumento de 100% da inflação.
      • Conclusão: “um programa efetivo de combate à inflação brasileira atual [1985] tem que se basear menos na geração de choques deflacionários que em políticas que atuem diretamente sobre a tendência inflacionária.” (p. 136)

Tendência Inflacionária e Expectativas

  • Teoria expectacional da tendência inflacionária: a inflação pode ser explicada como resultante de choques inflacionários (de demanda ou oferta) e expectativas, demonstrado através de uma curva de Philips aceleracionista.
  • Ideia das expectativas racionais (MUTH, 1961): as expectativas, ao invés de serem formadas com base em valores da variável observada no passado, resultam da intuição dos agentes econômicos sobre a trajetória futura de equilíbrio da economia.
  • Combate à inflação: combinação de credibilidade e boa (ou austera) gestão da política econômico-financeira do governo.

Se a configuração dos instrumentos de política econômica for alterada de modo a viabilizar uma trajetória de equilíbrio de longo prazo da economia compatível com o valor desejado da taxa de inflação, e os agentes econômicos acreditarem que esta nova configuração será efetivamente mantida no futuro, a tendência inflacionária, que é determinada pela expectativa racional da taxa de inflação, assumirá imediatamente este valor desejado. (LOPES, 1985, p. 137)

A Hipótese da Inflação Inercial

  • A teoria alternativa defendida pelo autor enfatiza a “natureza inercial da tendência inflacionária”, ou seja, na ausência de choques a inflação vigente é determinada pela passada independente das expectativas.
  • Hipótese inercial sobre a tendência inflacionária: num ambiente cronicamente inflacionário, os agentes econômicos desenvolvem um comportamento fortemente defensivo na formação de preços, que em condições normais é uma tentativa de recompor o pico anterior de renda real no momento de cada reajuste de preço. Quando todos os agentes adotam esta estratégia de recomposição periódica dos picos, a taxa de inflação existente tende a se perpetuar: a tendência inflacionária torna-se igual à inflação passada.
  • Hipótese da inflação inercial: em termos de salários, supondo-se a totalidade dos agentes econômicos, a tendência inflacionária (que é a taxa de inflação que vigora com preços relativos constantes) tende a reproduzir a taxa de inflação passada quando os agentes tem um comportamento defensivo dos seus picos de renda real → teoria da recomposição defensiva dos picos de renda.
  • Existe um comportamento aparentemente irracional: o agente econômico tenta defender seu pico de renda real ao invés de sua renda real média. Ainda, o agente resiste a uma redução da renda real média que resulte da manipulação do pico de renda real, mas aceita dentro de certos limites uma redução da renda real média que resulte de elevação da taxa de inflação. Essa “rigidez” não é compatibilizada com o postulado da racionalidade dos agentes econômicos, segundo Lopes.
  • Qual a relação entre inflação inercial e indexação de salários? Para o autor, são “fenômenos logicamente independentes” e que a inércia inflacionária surge em economias de inflações crônicas independentemente da indexação.
  • A simples eliminação dos mecanismos de desindexação seria uma “desindexação ilusória”, já que a mecânica fundamental da inflação inercial não seria eliminada. A indexação formal pode ser utilizada como elemento estabilizador da inflação inercial, porque impede a recomposição plena dos picos de renda real ou impede a redução do intervalo de tempo entre reajustes quando a inflação acelera.

HIPERINFLAÇÃO

  • O autor apresenta os casos de hiperinflação da Áustria (1921-22) e da Alemanha (1922-23) e afirma que o grande desafio que as hiperinflações apresentam ao modelo da inflação inercial é justamente seu “fim surpreendentemente abrupto”.
  • O término abrupto pode soar como evidência em favor do modelo expectacional da inflação, como aponta Sargent (1983) para algumas medidas de austeridade monetária e fiscal que foram tomadas “mais ou menos contemporaneamente” ao fim das hiperinflações. Nos casos analisados, entretanto, isso não ocorreu, e a política monetária parece ter sido passiva em todo o período.

O Fim de uma Hiperinflação

  • A redução do intervalo de reajuste provocando queda do pico de renda real torna-se dominante a partir de certa fase do processo inflacionário quando a moeda de curso legal começa a ser substituída por moedas estrangeiras.
  • A renda real torna-se independente da taxa de inflação, dependendo apenas da taxa de câmbio real. Acontece como se o agente tivesse reduzido a zero a dimensão de seu intervalo de reajuste, fazendo sua renda real média ser igual ao pico da renda real, qualquer que seja a taxa de inflação.
  • Se a maioria dos agentes mudar para moeda estrangeira a níveis de renda incompatíveis com a situação vigente anteriormente, a taxa de câmbio real vai se valorizar, com valorização da taxa de inflação acima da taxa de desvalorização do câmbio nominal → combinação de valorização do câmbio real e choque inflacionário.
  • EXPLICAÇÃO: Na fase final do processo os agentes repudiam cada vez mais a moeda local passando a utilizar a moeda estrangeira; a taxa de inflação da moeda doméstica torna-se progressivamente menos representativa da taxa de inflação relevante para a média dos agentes econômicos; a taxa relevante de inflação pode estar declinando muito antes da estabilização; na fase final, a moeda local praticamente desaparece e todas as transações são em moeda estrangeira e nesse ponto a melhor medida para a taxa de inflação é a taxa de câmbio real; o evento final da estabilização em termos da moeda doméstica é a fixação pelo governo da taxa de câmbio nominal, o que torna ela um substituto aceitável da moeda estrangeira; os preços voltam a ser cotados na moeda nacional com base na sua paridade fixa com a moeda estrangeira; a taxa de inflação em termos da moeda doméstica é igual à inflação efetiva em termos da moeda estrangeira, caindo abruptamente.
  • A forma repentina que se dá o fim da hiperinflação é apenas “ilusória” para o autor. “Acreditamos que a tendência inflacionária não se altera bruscamente, mas provavelmente tende a dissolver-se mais ou menos lentamente à medida que os agentes econômicos passar a utilizar alguma moeda estrangeira cada vez mais intensamente como unidade de conta e meio de transação.” (p. 145)

DESINFLAÇÃO

O Desafio da Desinflação

  • Quanto maior a taxa de inflação, maior a demanda (econômica ou política) por indexação e, consequentemente, maior a vulnerabilidade do sistema a choques de oferta. Uma taxa de inflação alta tende a produzir indexação mais intensa, o que por sua vez aumenta o risco de aceleração inflacionária.
  • É importante desenhar mecanismos que nos permitam quebrar a tendência inercial da inflação:
    1. O choque heterodoxo: congelamento total e generalizado de preços e rendimentos acompanhado de políticas monetárias e fiscais passivas. A proposta de Lopes é um congelamento temporário seguido de fase de descompressão com controle de preços. O congelamento pode produzir resultados extraordinários em termos de inflação, mas ao custo de “distorções no sistema produtivo”, que resultam em mecanismos extramercado e movimentos especulativos e para evitá-las seriam necessárias ressincronizações de reajustes. As dificuldades políticas do congelamento seriam menores se fosse possível anunciar a decisão bem antes de sua aplicação efetiva, porém isto detonaria movimentos especulativos que poriam em risco a viabilidade do programa.
    2. A moeda indexada: introdução de uma nova moeda indexada, o novo-cruzeiro, com uma taxa de conversão oficial em relação ao cruzeiro que é atualizada diariamente de acordo com a variação pro-rata-ida da ORTN do mês (proposta de Lara Resende). Como forma de estímulo à fixação de preços em termos da nova moeda, o governo deixaria a partir de certo ponto de publicar índices em preços em termos da moeda velha, estabelecendo uma taxa de desvalorização diária do cruzeiro em relação ao novo-cruzeiro, o que leva a economia a fazer uma “transição voluntária” para o novo-cruzeiro, em termos do qual toda a inflação inercial anteriormente existente teria sido eliminada. A chave para o sucesso seriam as fórmulas de conversão baseadas em valores reais médios que o governo imporia a si próprio e aos trabalhadores, mas na prática seria impossível fazer a conversão pela média para todos os preços. O que se pretende com a introdução da moeda indexada é reproduzir o mecanismo de autodestruição da hiperinflação sem passar por uma efetivamente. O problema desse programa é que a taxa de inflação na velha moeda, caso não funcione, será integralmente transformada em igual taxa de inflação na nova moeda.
    3. Uma reforma monetária com desindexação total: i) introduzida uma nova moeda, o cruzeiro-ouro, que passará a ser a única moeda legal de curso forçado após breve período de transição; ii) todas as transações financeiras e depósitos passam imediatamente a ser obrigatoriamente contabilizados em cruzeiro-ouro; iii) fica estabelecida uma taxa de câmbio fixa entre o cruzeiro-ouro e o dólar; iv) os preços administrados pelo governo são imediatamente fixados em cruzeiro-ouro com base no seu valor real médio dos seis meses anteriores à reforma; v) em qualquer momento no período de transição os contratos privados podem ser livremente recontratados em termos de cruzeiro-ouro, valendo para salários, alugueis e prestação de serviços; vi) a partir da introdução, o cruzeiro-ouro será moeda legal de curso forçado podendo ser utilizado em qualquer transação no território nacional; vii) a partir do início do programa o sistema de controle de preços será acionado para impedir aumentos especulativos de preços; viii) durante os 15 meses seguintes ao início do programa fica proibida a celebração de qualquer tipo de contrato com cláusula de indexação.

 

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