A Dialética da Globalização

IANNI, O. A dialética da globalização. In: ________ Teorias da Globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

  • O capitalismo sempre foi um modo de produção internacional. No século XIV seus centros dinâmicos e dominantes foram a Holanda, a Inglaterra, a França, a Alemanha, os Estados Unidos e o Japão, sempre ultrapassando fronteiras, mais que isso, recobrindo, deslocando, dissolvendo ou recriando fronteiras. No século XX torna-se não apenas internacional, mas um modo de produção global.
  • O processo capitalista influencia, tensiona, modifica, dissolve ou recria todas e quaisquer formas com as quais entra em contato, exercendo influência sobre o Estado de acordo com seu tipo e formação social.
  • As forças produtivas básicas (capital, tecnologia, força de trabalho, divisão do trabalho social, mercado, planejamento etc) entram em conjugação e se desenvolvem de forma intensiva e extensiva, ultrapassando fronteiras, regimes políticos e civilizações.
  • As tradições culturais, religiosas, linguísticas e outras permanecem ou se reiteram, às vezes se expandindo, porém tudo se modifica graças ao capitalismo global.
  • Na globalização do capitalismo tudo se altera, modifica, anula, mutila, recria ou transfigura.
  • A competição entre os capitais, a busca de novos processos produtivos, a conquista de novos mercados e a procura de lucros provocam a dinamização das forças produtivas e da forma pela qual elas se combinam e aplicam nos diferentes setores em diferentes parte do mundo. Isso implica em dois processos:
    1. concentração do capital: contínua reinversão dos ganhos no mesmo ou em outros empreendimentos (reinversão do excedente, ou mais-valia);
    2. centralização do capital: absorção de outros capitais, próximos ou distantes, pelo mais ativo (forte), dinâmico e inovador.
  • Segundo Marx, o capitalismo possui uma lei que “continuamente empurra a produção capitalista além dos seus velhos limites e compele o capital a mobilizar sempre mais forças produtivas de trabalho pela mesma razão que já mobilizou anteriormente”.
  • O capitalismo redesenha o mapa do mundo na medida em que, desde o século XVI, multiplicam-se empresas, corporações e conglomerados (monopólios, trustes, carteis, multinacionais e transnacionais), sempre ultrapassando fronteiras geográficas e históricas.
  • O capital, de acordo com Marx, tende a “conquistar toda a Terra como um mercado” e a “reduzir a um mínimo o tempo tomado pelo movimento de um lugar a outro”. Assim, quanto mais desenvolvido o capital, mais extenso é o mercado em que circula e tanto mais se estende o mercado e se anula o espaço através do tempo.
  • O modo capitalista de produção é complexo, desigual, contraditório e dinâmico, está sempre em movimento, transformando-se e expandindo-se.
  • Conforme Marx, “a produção transcende além de si mesma na determinação da produção” e a partir daí o processo recomeça novamente. A troca e o consumo, assim como a distribuição, “não podem ser o transcendente”, mas como distribuição dos agentes da produção, constitui um momento da produção. Uma produção determinada determina um consumo, uma distribuição e uma troca determinadas e “relações recíprocas determinadas destes diferentes momentos”. Também a produção “sob sua forma unilateral” está determinada por outros momentos, quando a esfera de troca (mercado) estende-se, a produção amplia e se subdivide mais em profundidade. Por fim “as necessidades do consumo determinam a produção”.
  • Toda essa dinâmica é comandada pelo capital, através dos que detêm a propriedade e os movimentos do capital, nacional e mundial.
  • A forma como o capital se articula confere a ele primazia sobre as demais forças produtivas e, mesmo dependente da capacidade da força de trabalho produzir valor, ele determina a reprodução ampliada.
  • O capital desdobra-se e articula-se em diferentes formas de organização do trabalho e da produção, para que se realize a reprodução ampliada do capital. Ele adquire configurações singulares, particulares e gerais, cada vez mais sob a influência do capital em geral (abstrato e real). Na economia global, desenvolve-se ainda mais a forma geral do capital.
  • À medida que se desenvolve o capitalismo, o capital em geral adquire maior relevância sobre os singulares e particulares, em âmbito nacional, setorial, regional ou internacional.
  • Assim, a globalização do capitalismo pode ser vista como produto e condição do capital em geral, no qual se realizam e multiplicam todas as outras formas de capital.
  • O poder real não está totalmente nos escritórios das corporações, mas nos mercados financeiros, pois o capital financeiro constrange e controla os capitalistas e é operado por meio de redes globais.
  • No século XX o capital adquire características propriamente globais, num contexto em que se dissolvem fronteiras entre os mercados financeiros nacionais, emergindo um mercado global de capitais.
  • O dinamismo da reprodução ampliada do capital e seu caráter progressivo influenciam as mais diferentes formas de organização social e técnica do trabalho e da produção.
  • Marx: “em todas as formas de sociedade existe uma determinada produção que confere a todas as outras sua correspondente posição e influência”, através das relações dessa produção.
  • O capitalismo expande-se pelas diferentes nações e nacionalidades, dinamizado pelos processos de concentração e centralização do capital, concretizando sua globalização.
  • A acumulação originária pode ser vista como um processo genético e estrutural, inerente ao capitalismo, e que se desenvolve todo o tempo por toda a parte. Isso cria e recria de forma contínua e reiterada as forças produtivas e as relações de produção, o que leva à constante obsolescência e necessidade de novas formas.
  • A dinâmica da reprodução ampliada do capital, envolvendo concentração e centralização, produz e reproduz o desenvolvimento desigual e combinado em escala nacional, regional e mundial. Tal dinâmica provoca a reiteração de algo semelhante à acumulação original, transformando ou modernizando as formas de organização do trabalho e da produção.
  • “O processo capitalista de produção reproduz (…) pelo seu próprio mecanismo o divórcio entre a força de trabalho e as condições de trabalho, reproduzindo e eternizando desta maneira as condições de exploração do trabalhador. (…) A chamada acumulação originária não é, portanto, mais do que o processo histórico de dissociação entre o produtor e os meios de produção” – Marx, O Capital. Isso continua a acontecer nos desenvolvimentos do capitalismo global do século XX.
  • Processos que caracterizam a globalização do capitalismo:
    • da acumulação originária à concentração e centralização do capital;
    • do desenvolvimento quantitativo e qualitativo das forças produtivas ao desenvolvimento e à modernização das relações de produção;
    • da nova divisão internacional do trabalho e da produção à constituição do mercado mundial, influenciando/articulando mercados nacionais e regionais;
    • da formas singulares e particulares do capital ao capital em geral.
  • Com a desagregação do bloco soviético, generalizaram-se políticas de privatização, desregulação, desestatização, abertura de mercados, fluxo cada vez mais livre de forças produtivas, reformulação das normas e instituições que organizam as relações de produção, tudo isso de modo a transformar o capitalismo em universal.
  • A globalização do capitalismo foi decisiva na desagregação do bloco soviético e na transição de economias planificadas para economias de mercado, processo em que as organizações multilaterais e transnacionais desempenharam papel relevante na institucionalização e dinamização da economia de mercado.
  • O Leste Europeu, a Rússia, as repúblicas formadas com a desagregação da URSS, a China, o Vietnã e outras nações com regimes socialistas tornaram-se fronteiras de desenvolvimento intensivo e extensivo do capitalismo.
  • Marx já havia preconizado a globalização do capitalismo, quando em suas análises constatou que a vocação do capitalismo é mundial, com tendência a influenciar todas as formas de organização do trabalho e vida social.
  • O caráter internacional do capitalismo torna-se efetivo na segunda metade do século XX quando adquire todas as características de um modo de produção global. A mudança ocorrida no fim deste século, no entanto, é que o mundo tornou-se mais capitalista, logo, o debate sobre globalização significa principalmente a universalização do capitalismo.
  • A globalização do capitalismo reabre, recria e supera a controvérsia “imperialismo ou interdependência”.
  • Do ponto de vista histórico a globalização não é recente e envolve diferentes formas de organização das forças produtivas e das relações de produção. Porém, com o fim da Guerra Fria e a consequente expansão do capitalismo ao mundo antes socialista, houve uma transformação quantitativa e qualitativa do capitalismo, como modo de produção e processo civilizatório. Essa é a época da globalização propriamente dita do capitalismo.
  • Transformação qualitativa e qualitativa porque o capitalismo se torna concretamente global, influenciando, recriando ou revolucionando todas as outras formas de organização social do trabalho, da produção e da vida, passando tudo o mais a ser influenciado por padrões e valores do capitalismo.
  • O globalismo não anula nem a interdependência nem o imperialismo; na verdade, a dinâmica de reprodução ampliada do capital em escala global acentuou a concentração do poder econômico, agravando a questão social em âmbito mundial.
  • A industrialização se espalhou pelo globo e ocorreu uma nova divisão internacional do trabalho, agilizada pelos meios de comunicação e transporte. Tais globalismos estão baseados na organização das corporações transnacionais, que desenvolvem geoeconomias e geopolíticas mais ou menos independentes do Estado, mas sempre levando em conta esses Estados, tanto dominantes como dependentes, em seus diagnósticos sobre mercados reais e potenciais.
  • As transnacionais são corporações localizadas e desterritorializadas, pois enraízam-se em diversos lugares mas também se movem de acordo com a dinâmica das forças produtivas, segundo as exigências da concentração e centralização do capital → concretiza a reprodução ampliada do capital em escala global.
  • A interdependência cresce mais que nunca, pois se ampliam os mercados e se agilizam as forças produtivas concretizadas na nova divisão internacional do trabalho.
  • O imperialismo se acentua, generaliza e muda de figura, na medida em que agora são também atores relevantes as transnacionais nas estruturas mundiais de poder, reduzindo ou subordinando as possibilidades dos Estados.
  • As organizações multilaterais situam-se na confluência dos Estados nacionais e transnacionais. Enquanto estruturas mundiais de poder desenvolvem suas atividades reconhecendo também as transnacionais como estruturas mundiais de poder, contemplando crescentemente seus interesses.
  • A interdependência e o imperialismo são recriados e superados pelo globalismo.
  • Desde o fim da Guerra Fria, retoma-se a controvérsia “planejamento ou mercado”.
    • envolve governos de países antes socialistas empenhados na transição do planejamento estatal ao mercado aberto;
    • envolve empresas estatais e setores sociais de diversos países, corporações transnacionais e organizações multilaterais;
    • envolve também governos de países dominantes (G7).
  • A globalização do capitalismo reaviva a controvérsia “mercado ou planejamento” no nível dos setores produtivos, das economias nacionais, dos blocos regionais e da economia mundial como um todo, embora essa não seja uma controvérsia recente.
    • após a II Guerra, optou-se massivamente pelo planejamento, como forma de reconstruir as economias nacionais e de industrialização substitutiva de importações nos países do Terceiro Mundo.
  • Fortalecer as economias dominantes e desenvolver as do Terceiro Mundo, principalmente de países estrategicamente situados no mundo capitalista, tinha resultados importantes:
    1. reduziam-se as tensões sociais potencialmente revolucionárias;
    2. criavam-se ou desenvolviam-se mercados (para as economias dominantes);
    3. dinamizava-se o capitalismo como um todo, frente ao mundo socialista.
  • Com a desagregação do bloco soviético, a controvérsia “mercado ou planejamento” foi decisiva, mas desta vez se optou pelo princípio organizatório básico do “mercado”, provocando uma verdadeira revolução nos países socialistas, envolvendo forças produtivas e relações de produção.
  • O planejamento, no entanto, apenas mudou de lugar e passou a ser determinante para as corporações transnacionais.
  • O princípio do mercado não elimina o do planejamento, ambos subsistindo no âmbito do capitalismo, em seus níveis setoriais, nacionais, regionais e mundiais.
  • É raro ou improvável que os governos e as agências governamentais se ausentem totalmente do jogo das forças produtivas e das relações de produção, pois mesmo quando os governos reduzem sua interferência no jogo das forças produtivas eles sempre estipulam diretrizes, restrições e punições que orientam os proprietários dos meios de produção.
  • A globalização do capitalismo contempla todo o tempo o contraponto mercado-planejamento, pois o pleno domínio do princípio do mercado seria o caos, logo, governos, proprietários dos meios de produção, organizações multilaterais (tecnoestruturas transnacionais) planejam a expansão, a competição, políticas anti-cíclicas etc.
  • O planejamento é uma técnica de organização e dinamização das forças do mercado. Segundo Tinbergen, “chegou o tempo de formularem propostas de criação de uma organização para todas essas atividades (…) em nível mundial”. Além disso, é uma técnica versátil que pode influenciar a racionalização das forças produtivas.
  • O planejamento pode ser mobilizado como técnica de realização do excedente econômico potencial. Medidas como desregulação, desestatização e liberalização, de caráter neoliberal, também criam condições para a realização do excedente econômico potencial.
  • A técnica, para Marx, é uma poderosa força produtiva. Ela é fundamental no sentido de potenciar as demais forças produtivas, em especial a força de trabalho, o que pode intensificar a efetivação do trabalho excedente e, logo, diminuir a do necessário. A potenciação do aumento dessa força aumenta o excedente que ela pode produzir, favorecendo o proprietário dos meios de produção.
  • As metamorfoses da ciência em técnica e da técnica em força produtiva multiplicaram as condições e possibilidades de reprodução ampliada do capital, intensificando o caráter civilizatório deste. Isso tudo se acelerou na segunda metade do século XX, com a eletrônica e a informática, provocando surtos de potenciação da força produtiva em todos os níveis.
  • A globalização do capitalismo tem como uma das suas características mais notáveis justamente o fato de que as novas tecnologias intensificaram e generalizaram as capacidades dos processos de trabalho e produção. Os avanços técnicos e científicos, no entanto, aprofundaram as desigualdades.
  • As metamorfoses da ciência em técnica e da técnica em força produtiva permitem intensificar a reprodução do capital e simultaneamente contribuir para a centralização e concentração do capital. Essas metamorfoses ocorrem sob o controle de transnacionais, governos e organizações multilaterais, que atendem aos interesses do mercado, logo, não reduzem desigualdades sociais, econômicas ou políticas.
  • O modo capitalista de produção provoca a emergência de outras formas de sociabilidade, abrindo espaço para emancipação individual e coletiva, permitindo outras formas de criação também individuais e coletivas. Paralelo às formas de sociabilidade inovadoras/liberadoras, desenvolvem-se também as que alienam.
  • Para Marx, o capitalismo é um processo civilizatório, influenciando mais ou menos radicalmente todas as formas de organização do trabalho e da vida com as quais entra em contato. É um modo de produção que nasce, desenvolve-se e generaliza-se atravessando crises, realizando-se por ciclos de curta, média e longa duração e transformando-se continuamente.
  • O capitalismo é um processo civilizatório mundial, que invade todo o globo, envolve o intercâmbio universal e cria bases para um novo mundo, influenciando, destruindo ou recriando novas formas sociais de trabalho e vida e outras formas culturais e civilizatórias.

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