Comércio Internacional

Resumo do cap. 1 do livro A Nova Economia Internacional – Uma Perspectiva Brasileira, de Otaviano Canuto, Reinaldo Gonçalves, Luiz Carlos Delorme Prado e Renato Baumann – Economia Internacional I – Prof. Luis Augusto Estrella Faria

TEORIA DO COMÉRCIO INTERNACIONAL

  • as relações econômicas entre os povos antecedem às políticas e culturais pacíficas e atualmente ainda fazem parte de um processo inacabado de organização em um sistema jurídico internacional, aceito pela maioria dos países.
  • evolução da economia internacional: Estado nacional moderno (Absolutista) → mercantilismo → expansão dos países da Pen. Ibérica → conquista do continente Americano → colonização → capitalismo industrial.
  • comércio de longa distância: rede de feitoriais, entroncamentos, cidades, feiras, mercados → garantido pela capacidade bélica (dos comerciantes/soberanos) → dependia de infra-estrutura + segurança de rotas/estradas para a distribuição das mercadorias no interior dos Estados.
  • substituição do comércio de mercadorias exóticas e caras → produtos de grande consumo a preços moderados deu-se apenas graças ao uso da moeda + previsibilidade de instituições que garantissem minimamente a manutenção das atividades comerciais (regras, sistemas de peso e medidas, direito de propriedade, proteção legal etc).
  • entre a Rev. Industrial e a I Guerra Mundial, o mundo passou por um processo de aumento das relações comerciais, que possibilitou uma integração em uma escala até antes não vista.

Mercantilismo – A Economia Política do Estado Absolutista

  • MERCANTILISMO: conjunto de doutrinas de política econômica que acompanharam a consolidação do Absolutismo e dos primeiros Estados-nação europeus. Significou uma reação à ordem medieval, opondo-se ao poder local (nobreza rural) ou da cidade livre, e também ao poder universal (Igreja), ao passo que reforçava o poder do monarca absoluto, defendendo a unificação econômica, jurídica e administrativa nacional. Está amplamente ligado ao nacionalismo, pois embasava-se no argumento de que era preciso reforçar o poder nacional para defender-se de ameaças externas. Esse poder nacional, assim, seria consolidado através de um progresso econômico, criado pela ação política do Estado.
  • riqueza: fonte de poder do Estado → aumenta com o crescimento do estoque de meios de pagamento.
  • moeda: era vista como fator de produção. “Dinheiro” seria uma riqueza artificial, enquanto a “terra”, uma riqueza natural.
  •  John Locke → dinheiro tem duplo valor: 1) em forma de juros, é uma renda anual; 2) por meio da troca, tem caráter de mercadoria. Formas de aumentar a massa de $ em um país: 1) extrair das minas; 2) obter de outros países. comércio exterior + balança superavitária → ↑massa de dinheiro existente → ↑riqueza de uma nação.
  • a moeda/metais preciosos não deveriam ser entesourados, pois desempenhavam o papel de transformar a economia natural em economia monetária. No entanto, muitos países passaram a acumular metais (e adotar leis de restrição à exportação destes), pois acreditavam que a diferença nos estoques de moedas nos diferentes países poderia ser perigosa quando externamente o valor de uma mercadoria era maior que o preço doméstico. Nessa situação, o país com menor estoque de metal precisaria vender os seus produtos ao seu nível de preços e comprar do exterior ao nível de outro país, o qual poderia ser mais alto, e, por isso, precisava de metais para efetuar as trocas sem prejuízo à sua balança comercial.

“[…] pobreza de dinheiro […] acarretará, não obstante, as seguintes desditosas consequências: Primeira, preços muito baixos para nossos próprios produtos; segunda, preços muito altos para todos os produtos estrangeiros; e ambas as coisas nos trarão a pobreza…”  (LOCKE, 1696, pp.19)

  • protecionismo → associado a ideia de proteger a balança comercial, mas proteção essa voltada para a circulação monetária, e não à produção doméstica, pois um país que não possuía minas, só poderia aumentar seu estoque de moedas ampliando as exportações e restringindo as importações.
  • unificação econômica doméstica + liberdade de comércio interna ao Estado nacional: restrição de aduanas e pedágios impostos pela nobreza feudal; racionalização do sistema de pesos e medidas; unificação do regime monetário; redução do poder das guildas; liberdade de indústria etc.

Teorias Clássicas do Comércio Internacional

DAVID HUME

  • crítico do mercantilismo, primeiro defensor do livre-comércio e teórico que serviu de base para o sistema monetário do padrão ouro.
  • Hipótese do Preço-Fluxo de Metais Preciosos (specie flow-price hypothesis): ocorre transferência de metais/moedas metálicas de um país deficitário superavitário e isso gera ↑ preços dos produtos produzidos internamente. O aumento no nível doméstico de preços → ↓exportações → perda de metais preciosos → ↓nível de preços doméstico → ↑demanda no exterior. Assim, o país superavitário vai exportar menos e importar mais, enquanto o deficitário vai exportar mais e importar menos = tendência ao equilíbrio das balanças comerciais.
  • a riqueza de uma nação se dava pela prosperidade do comércio exterior, não pelo aumento do meio circulante tão-somente, mas por atender a necessidades internas dos diversos países que comerciavam entre si.

“[…] A emulação pelas nações rivais serve principalmente para manter a indústria viva em todas elas. E todos os povos serão mais felizes se possuírem uma variedade de manufaturas, que se tiverem uma única grande […] Eu devo, portanto, ousar reconhecer que, não apenas como um homem, mas como súdito britânico, eu rezo pelo florescimento do comércio da Alemanha, Espanha, Itália e mesmo da França. […]”  (HUME)

ADAM SMITH

  • também crítico do mercantilismo.
  • a natureza humana é propensa a trocar/negociar/vender produtos → gera divisão do trabalho → ↑produtividade do trabalho → riqueza das nações.
  • divisão do trabalho = limitada pela extensão do mercado, mas pode ser ampliada através do comércio internacional → ↑riqueza das nações.
  • Teoria das Vantagens Absolutas: cada país deve especializar-se completamente no(s) produto(s) em que tem vantagem(ns) absoluta(s) em termos de custos/produtividade, ou seja, em que o número de horas de trabalho requerido para a sua produção é menor.
  • comércio internacional → permite a um país exportar a mercadoria que consegue produzir mais barato que os demais e importar aquelas que produz mais caro, logo, produz mais dos produtos que faz com maior eficiência e consome mais produtos do que seria capaz na ausência desse comércio.
  • quando um produto qualquer excede a demanda interna, ele deve ser exportado e trocado por alguma coisa que tenha demanda internamente.
  • quando há excesso de produto importado, que foi pago com excedente doméstico, aquele pode ser trocado mais uma vez por um produto demandado domesticamente.
  • metais preciosos são um produto como qualquer outro, logo, país grande produtor de metais é naturalmente exportador desse produto.
  • a liberalização do comércio exterior deve ser feita paulatinamente, para não prejudicar a indústria nascente.

DAVID RICARDO

  • Teoria das Vantagens Comparativas: o comércio bilateral é sempre preferível a uma situação de autarquia para duas economias com estruturas de produção não-similares. Premissas do modelo ricardiano:
  1. comércio de 2 países com 2 produtos;
  2. único fator de produção: o trabalho;
  3. diferença de tecnologia nos 2 países;
  4. balança comercial equilibrada;
  5. custo de transportes = zero;
  6. rendimentos constantes de escala
  • os salários (w) no interior de uma economia seriam sempre iguais. Assim, os preços relativos no interior dessa economia dependem da quantidade de trabalho necessária para a produção de certo bem e não do nível de salário.
  • em países distintos os salários podem ser diferentes, mas mesmo assim é apenas relevante as quantidades relativas de trabalho para produzir, no caso, vinho e tecido (no exemplo usado por ele).
  • as quantidades relativas de trabalho para produzir V e T em cada economia devem ser distintas → condição necessária e suficiente.
  • Ricardo usa o exemplo de Portugal e Inglaterra, já adotado por Smith. Considerando a teoria das vantagens absolutas, Portugal seria absolutamente mais eficiente que a Inglaterra, na produção dos dois bens, conforme a tabela abaixo:


  • o conceito de vantagem comparativa ou relativa permite determinar padrões de especialização e troca. Dado que em economia fechada se verifica uma troca de equivalentes, ou seja, uma equivalência nos valores globais da produção em ambos os bens, pode determinar-se as Razões de Troca Autárcicas (RTA) em cada um dos países: Q – quantidades, C – custos unitários.

  • efetuando-se os cálculos, pode-se observar que Portugal, agora sim, possui vantagens relativas (comparativas) para a produção de vinho, enquanto que a Inglaterra possui para tecido.
  • o modelo ricardiano de comércio internacional implica, portanto, a especialização de cada país na exportação do produto no qual tem vantagens comparativas.
  • o aumento da taxa de lucro da economia não é necessariamente um resultado do comércio exterior, mas vai depender apenas de uma variação nos salários reais.
  • renda da terra + outros fatores → determinam o custo dos produtos de uma cesta de consumo = trigo → determina os salários reais.
  • o comércio exterior impede o uso de terras marginais, logo, mantém a taxa de lucro constante.
  • conclusões: para o modelo ricardiano, mais comércio é melhor que menos comércio, o que não implica necessariamente livre-comércio; ainda, vantagens comparativas não surgem de uma nação autárquica, mas na relação de pelo menos 2 países que comerciam entre si.

A Teoria Neoclássica do Comércio Internacional

  • Modelo Walrasiano de Equilíbrio Geral: foi do qual partiu o modelo de Hecksher. Os preços relativos são determinados por:
  1. dotação de fatores;
  2. tecnologia, na forma de coeficientes de insumo-produto;
  3. preferências dos consumidores.
  • Ohlin: aplicou o modelo de Heckscher no comércio internacional e inter-regional, considerando regiões onde a mobilidade de fatores era perfeita em seu interior, mas imperfeita/inexistente fora delas. Os preços relativos poderiam ser diferentes, pois as regiões possuíam diferentes dotações de fatores de produção, distintas tecnologias e preferências dos consumidores. Mais tarde, Ohlin altera sua abordagem, dizendo que as regiões diferiam apenas na dotação dos fatores de produção, mas possuíam tecnologias e preferências similares.
  • MODELO HECKSCHER-OHLIN: considerava 2 fatores de produção, 2 produtos e 2 regiões que comerciavam entre si. A troca seria baseada nos produtos produzidos relativamente mais baratos em cada região, pois eram esses que demandavam relativamente maior quantidade do fator abundante em termos domésticos.
  • a teoria neoclássica pode ser resumida em 4 teoremas básicos sobre o comércio internacional, os quais são abarcados em um modelo geral conhecido como Heckscher-Ohlin-Samuelson. Em linhas gerais, focam-se nas diferenças de dotações dos fatores de produção e na intensidade do uso destes fatores na produção de diferentes produtos, que varia em distintos países. Tal modelo permitiu o surgimento de outras teorias para explicar a influência disso na distribuição da renda.

1) Teorema de Heckscher-Ohlin

  • 2 países (N e S) produzem os mesmos produtos em um mercado competitivo domesticamente.
  • cada produto utiliza 2 fatores de produção: capital (K) e trabalho (L).
  • a oferta no interior de cada país é perfeitamente inelástica.
  • a tecnologia empregada pelos 2 países é idêntica e tem retornos constantes de escala.
  • cada país tem dotação distinta de fatores de produção. O país S tem maior dotação relativa de L, por exemplo.
  • w = preço de L em S; w* = preço de L* em N. Logo, a maior dotação relativa de L é porque, em autarquia, w < w*.
  • cada país tem padrões de preferência idênticos e homotéticos (semelhantemente distribuídos).

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