Guerra Fria e Descolonização

Questionário Final – História das Relações Internacionais – Prof. Paulo Gilberto Fagundes Vizentini

1. Por que a Guerra Fria pode ser considerada simultaneamente um conflito e um sistema?

A Guerra Fria constituiu um sistema conflitante, podendo ser entendida como o novo sistema articulado em termos de política internacional após as deliberações pelas conferências do pós-II Guerra (Yalta, Washington, Potsdam) que resultou em uma bipolaridade entre as duas potências do período, EUA e URSS, originando dois blocos ideológico-político-econômicos dentro da balança-de-poder que se configurara. As discrepâncias entre os dois blocos resultou em um sistema não-pacífico, embora não tenha ocorrido a tão temida guerra nuclear entre os dois polos,  mesmo assim, pode-se dizer que o sistema internacional  constituía um conflito. Conflito marcado por inúmeras movimentações de cada um dos lados no sentido de defender e expandir o modelo que cada um pregava, através da veiculação propagandística em escala global, da corrida armamentista (nuclear principalmente) e espacial, da ânsia pelo desenvolvimento de novas tecnologias e de investimentos na ciência, pelo aumento do fluxo econômico  e cultural que vai acentuar a globalização e pela expansão e interferência em diferentes povos e culturas, como o chamado Terceiro Mundo, por exemplo, na tentativa de cooptar novos atores para fortalecer os bloocos. As tensões que ocorreram a partir da década de 50 também asseveram a característica conflituosa da Guerra Fria, acentuada pela grande capacidade nuclear dos líderes dos dois blocos. Os Estados Unidos possuíam uma vantagem econômica com relação à União Soviética, porém a sua tentativa de tornar-se um hegêmona global e definitivamente acabar com bloco soviético, aos poucos foi afetando a economia americana, principalmente com a Guerra do Vietnã, por exemplo. A URSS, por outro lado, também se viu cada vez mais acuada economicamente diante da tentativa de se equiparar aos EUA na busca de um maior arsenal nuclear e outras investidas em diferentes partes do mundo. O sistema em questão, muitas vezes irracional e agressivo, por vezes foi equilibrado por uma aproximação entre os dois pela via diplomática e por outras posicionou o conflito na iminência de uma terceira guerra mundial. No entanto, na década de 80, a URSS, principalmente por questões domésticas, passou a afrouxar seus antagonismos visando a salvar o próprio país, o que resultou na queda do muro de Berlim e na desfragmentação do bloco socialista, culminando no fim do sistema.

2. Que fatores impulsionaram a descolonização e quais os caminhos básicos pelos quais ela se materializou?

  • a descolonização foi um processo resultante de um conjunto de fatores e de ações envolvendo o poder colonial + condições internas das colônias + conjuntura internacional propícia à alteração do status quo político dos impérios coloniais
  • marco: Conferência de Bandung (1955), reunindo vários países colonizados engajados na luta pela sua libertação.

Fatores:

  1. A nova posição dos EUA como potência aspirante à hegêmona global dentro de uma bipolaridade conflitante com a URSS. Os EUA queriam o deter o avanço do comunismo e a expansão da ideologia marxista. A URSS desenvolvia ações políticas no meio esquerdista e simpatizava com os movimentos anticolonialistas.
  2. A Guerra Fria na década de 50 voltou-se para o chamado Terceiro Mundo, países que não estavam alinhados a nenhum dos dois blocos antagônicos e que faziam parte do mundo colonial.
  3. EUA: o capitalismo se modificava, sendo chamado por alguns autores de neocapitalismo, marcado pela inovação tecnológica, corrida espacial, avanço da cibernética e das ciências e aumento da capacidade nuclear.
  4. URSS: crise do regime comunista, desestalinização na União Soviética, desavenças dentro do bloco, corrida espacial, tentantiva de acompanhar os EUA no incremento do armamento nuclear e nova política no Extremo Oriente.
  5. CHINA: ruptura com a URSS e proclama-se a verdadeira representante do socialismo, alterando a balança de poder no EO.
  6. PORTUGAL: tenta impedir as independências de suas colônias e passa a sofrer com déficits em sua balança comercial e a oposição da maioria dos países da ONU, apesar do apoio de aliados como a África do Sul.

Caminhos da Descolonização:

  • Primeiramente uma ação conjunta, através da Conferência de Bandung, no sentido de desenvolver uma ideologia própria terceiro-mundista que visava a findar com o colonialismo.
  • Em segundo lugar, partiu-se para a luta armada, havendo grande heterogeneidade na solução dos litígios: 1) em alguns houve uma relativa rápida aceitação da metrópole (o caso das colônias francesas, por exemplo), 2) em outros houve lutas prolongadas com divisão do movimento anticolonialista (Angola, por exemplo, onde os grupos receberam apoio dos EUA, URSS, China, Zaire e Cuba); 3) o conflito transformou-se em guerra civil com a necessidade de intervenção das forças de paz da ONU, gerando instabilidade prolongada mesmo após a independência.

Que caminhos o Ocidente poderia mostrar aos povos conquistados? Necessariamente aquele por ele mesmo trilhado: o liberalismo político e econômico, o código civil, o capitalismo e suas leis de mercado, a ganância e  o lucro a qualquer sacrifício. (LINHARES, 1981)

3. O que foi a Détente ou Coexistência Pacífica entre as superpotências e como ela se tornou possível?

  • Equiparidade mútua entre EUA e URSS quanto ao arsenal nuclear em fins da década de 50 – “equilíbrio do terror”.
  • Incomunicabilidade e deterioração da diplomacia: falta de comunicação entre os líderes dos dois grandes blocos até mesmo através das embaixadas.
  • A política de coexistência pacífica partiu da URSS, após a morte de Stálin, sob as mãos de Nikita Kruschev e iniciou dentro do país através da veiculação propagandística do perigo iminente de uma guerra atômica. As idéias foram afirmadas por Kruschev em 1956:

“O princípio da coexistência pacífica está ganhando cada vez mais a aceitação internacional. E isso é lógico, pois não há outra saída para a situação atual. Na realidade só existem duas soluções: a coexistência pacífica, ou então, a mais devastadora guerra da História. Não há uma terceira alternativa (…) Não há qualquer inevitabilidade fatal de guerra.”

  • Os generais norte-americanos como John Foster Dulles, o Pentágono e o Parlamento viram a tentativa de aproximação soviética com desconfiaça e ignoraram as provas concretas de que a URSS queria um diálogo sobre a questão nuclear: 1) retirada do Exército Vermelho da Áustria (1955); 2) aproximação diplomática com a RFA; 3) redução do seu efetivo militar em 640 mil homens.
  • Os anos seguintes foram de sérias crises e tensões entre os dois blocos, estendendo-se ao Terceiro Mundo e ao Oriente Médio. No entanto, Kruschev não desistiu da sua prepotência em projetar-se internacionalmente após ter acabado com o ídolo de Stálin no sentido de liderar a luta pela paz.
  • Em 1959 os líderes das duas potências, Kruschev e Eisenhower, aceitaram os convites para visitas recíprocas.
  • Em sua visita aos EUA, em discurso na ONU, Kruschev argumentou que a coexistência pacífica era uma questão de sobrevivência, recebendo inúmeros aplausos e saindo nas capas dos principais jornais do mundo.

“Quero afirmar aos delegados da Assembleia Geral que a ONU continuará tendo na União Soviética o participante mais ativo em todos os esforços voltados para livrar a Humanidade do fardo dos armamentos e para consolidar a paz mundial.” (Kruschev)

  • Entretanto um conflito tão complexo e abrangente como a Guerra Fria não terminaria apenas com o início do entendimento direto entre os principais envolvidos. Novos fatores abalaram novamente as relações:
  1. A derrubada do avião norte-americano U2 em missão de espionagem sobre território soviético por Kruschev (1960);
  2. A invasão da Baía dos Porcos por Kennedy na tentativa de derrubar o regime socialista de Fidel Castro (1961);
  3. A construção do muro de Berlim pelos soviéticos (1961);
  4. O descontentamento de Mao Tsé-Tung com a diplomacia de Krutschev, passando a considerar os chineses os verdadeiros revolucionários e defensores do Terceiro Mundo,  que levou a um rompimento entre URSS e China.
  5. A crise dos mísseis, quando a URSS instala projéteis na ilha de Cuba, despertando a ira dos EUA. A crise foi resolvida com a retirada dos mísseis por Kruschev mediante o compromisso de Kennedy em respeitar a soberania cubana e não mais apoiar exilados anticastristas.
  • Em 1963 o entendimento diplomático foi retomado através da instalação do telefone vermelho, que permitia contato direto entre os dirigentes dos EUA e URSS. No mesmo ano foi assinado o Tratado de Proibição das Provas Nucleares (na atmosfera e no oceano) pela URSS, EUA e Grã-Bretanha.
  • 1963: Kennedy foi assassinado. 1964: Kruschev é destituido do seu cargo.
  • As alterações na estrutura econômica e sócio-política internacional tornaram a lógica do confrontamento da década de 50 insustentável. Portanto, entre as décadas de 70 e 80 vai imperar a política da détente, ou seja, EUA e URSS vão coexistir no plano internacional, havendo ora descontentamentos ou adesões a um, ora a outro.
  • A política de coexistência pacífica gerou estagnação econômica, atraso político-cultural e supressão das políticas burocráticas no Bloco Soviético.
  • 1968: Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares assinado por EUA, China, URSS, França e Grã-Bretanha.
  • 1972: Nixon visita a China e defende a possessão chinesa sobre o Taiwan. No mesmo ano, o presidente dos EUA recebe convites da URSS, preocupada com a aproximação com os chineses e, então, Nixon visita o país em um importante encontro com o dirigente soviético. O encontro de Nixon com Brezhnev resulta na afirmação da détente através do SALT I (Strategic Arms Limitation Talks) e do Tratado sobre Mísseis Anti-Balísticos.
  • 1979: Carter assina com Brezhnev o SALT II.

4. Analisando a evolução social interna dos Estados Unidos, da Europa Ocidental e do Bloco Soviético, identifique traços em comum e diferenças básicas.


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