O Príncipe

Resumos do livro “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel – Política I: Teoria Política Clássica – Prof. Carlos Schmidt Arturi

DOS PRINCIPADOS HEREDITÁRIOS

DE PRINCIPATIBUS HEREDITARIIS
  • Os Estados hereditários são bem mais fáceis de governar e de se manter no poder.
  • Basta governar de acordo com as circunstâncias, sem ignorar os costumes dos antepassados.
  • Se o príncipe for dotado de ordinária capacidade, saberá governar um principado hereditário e só será destituído do poder por forças externas.
  • Um príncipe natural é mais amado pelo povo, pois não precisa usar artimanhas para ofender os seus.

DOS PRINCIPADOS MISTOS

DE PRINCIPATIBUS MIXTIS
  • O príncipe encontra a dificuldade de se afirmar perante o povo, que poderá usar da força contra o seu senhor. O príncipe novo sempre ofende os seus, pois usa forças militares e outros danos para se tornar legítimo e tem como inimigos todos aqueles que ofendeu com a ocupação deste principado e não pode contar como amigos aqueles que o colocaram no posto.
  • Quando não são da mesma região e mesma língua do Estado conquistador é muito fácil mantê-los, principalmente quando não estão acostumados a viver livres e a linhagem do seu soberano foi extinta. Para manter este tipo de principado deve-se eliminar a linhagem do príncipe antigo e não alterar as leis e impostos anteriormente vigentes.
  • Também é preciso que o soberano habite neste principado, para controlar a situação mais de perto.
  • Ainda, pode-se estabelecer colônias em lugares estratégicos para o Estado conquistado ou, então, manter força militar. No caso das colônias, é menos custoso e pode causar empobrecimento de uma parte da população local, o que é bom, pois pobres e dispersos não causam dano a um príncipe. No caso das tropas militares, seria oneroso demais para o Estado conquistador e causaria maior insatisfação nos conquistados, logo, maior número de inimigos emergeriam. Deve-se, ainda, tornar-se chefe e defensor dos Estados vizinhos mais fracos e impedir que um forasteiro poderoso penetre no território, alienando os inimigos a ele contra o novo príncipe.

COMO DEVEM SER GOVERNADOS OS PRINCIPADOS OU AS CIDADES QUE, ANTES DE SEREM OCUPADOS, VIVIAM COM SUAS PRÓPRIAS LEIS

QUOMODO ADMINISTRANDAE SUNT CIVITATES VEL PRINCIPATUS QUI ANTEQUAM OCCUPARENTUR SUIS LEGIBUS VIVEBANT
  • Nestes principados, há 3 formas de agir para os manter sob domínio:
  1. destrui-los;
  2. habitar neles pessoalmente;
  3. deixá-los viver com suas leis próprias, cobrando tributos e criando em seu interior um governo de poucos que mantém o Estado como amigo.
  • As duas últimas alternativas não são seguras para cidades acostumadas a viver livres (repúblicas), ou seja, o melhor a se fazer para manter este domínio é a destruição ou ir habitar nelas.
  • No caso de cidades ou províncias acostumadas a viver sob um príncipe, estas têm menos capacidade de se organizar contra o novo soberano, portanto, um príncipe pode cativá-los e depois sujeitá-los.

DOS PRINCIPADOS NOVOS QUE SÃO CONQUISTADOS COM ARMAS PRÓPRIAS E VIRTUOSAMENTE

DE PRINCIPATIBUS NOVIS QUI ARMIS PROPRIIS ET VIRTUTE ACQUIRUNTUR
  • Nos principados totalmente novos, para mantê-los, depende de o príncipe ter mais ou ter menos virtude ou sorte.
  • Há maior facilidade de se administrar este novo principado, pois o príncipe obrigatoriamente vai habitar nele (já que não possuía Estado anteriormente).
  • Os princípes muitas vezes podem aproveitar as oportunidades ao invés de contar com a sorte. Encontrarão dificuldades na conquista, porém facilidades na conservação do principado. Serão, assim, virtuosos.
  • As dificuldades que os príncipes virtuosos encontram na conquista dizem respeito à introdução da nova forma de administração (instituições, sistemas de governo, tributos etc), contra a qual encontrarão forças opositoras, pois os homens não acreditam na inovação, exceto se a percebem como resultante de uma experiência segura.
  • Quando os inimigos sustentam força própria são mais perigosos e geralmente vencem, mas quando dependem da força de outros, fracassam.

DO PRINCIPADO CIVIL

DE PRINCIPATU CIVILI
  • Um principado civil é governado por um cidadão privado, eleito pelo apoio do povo ou dos grandes, conforme cada um tenha oportunidade de conduzir o príncipe ao poder.
  • O povo não quer ser mandado nem oprimido pelos grandes, enquanto que os poderosos desejam justamente governar e oprimir o povo.
  • Os grandes, quando não podem resistir ao povo, elegem um dentre eles, emprestam-lhe prestígio e o fazem príncipe para poderem, dessa forma, conquistar seus interesses.
  • O povo, por sua vez, quando vê que não pode resistir aos poderosos, elegem um de seus cidadãos, para que este o defenda.
  • O príncipe que chega ao poder com o apoio dos grandes enfrenta mais dificuldades, pois não tem muita autonomia em suas decisões por estar cercado por uma oligarquia. Deve cativar o povo para se manter neste principado. Por outro lado, o que ascende com o apoio popular enfrenta facilidades, pois se encontra só no governo e é mais fácil fazer o bem ao povo, já que as reivindicações do povo são mais honestas que as dos poderosos – só querem não ser oprimidos. Deve tomá-lo como amigo.
  • Quando o povo é inimigo, um príncipe jamais poderá ser garantido por ser o povo plural, o qual poderá simplesmente abandoná-lo. Dos grandes pode-se assegurar, pois são poucos; entretanto, além de ser abandonado, poderão eles conspirar contra o príncipe por possuírem maior astúcia e visão.
  • Contra o povo, nada o príncipe pode fazer, pois tem de viver sempre com o mesmo.
  • Contra os poderosos, pode reduzir a influência deles, tirar-lhes reputação e, assim, livrar-se deles. Há dois tipos principais de poderosos:
  1. Aqueles que se obrigam ao príncipe e não são corruptos: devem ser considerados e amados.
  2. Aqueles que não se obrigam: devem ser considerados de dois modos.

2.1. Se fazem isso por covardia ou falta de espírito: deve o príncipe usá-los como conselheiros.

2.2. Se fazem isso por malícia ou por ambição de poder: pensam mais em si do que no príncipe, logo, devem ser considerados inimigos.

  • A um príncipe é necessário ter um povo como amigo, porém não pode esperar que o povo o salve de seus inimigos. Deve o soberano, portanto, ser virtuoso no modo de governar e ser um homem de coragem para, assim, manter todo o povo animado.
  • O perigo de se perder este tipo de principado está na transição da ordem civil para o governo absoluto. O príncipe não pode assumir autoridade absoluta em épocas de instabilidade, pois perderá a confiança de seu povo (acostumado a viver sob a ordem de magistrados). Também não pode se basear no que vive em épocas de paz, pois é nas adversidades que o Estado precisa dos cidadãos e, nesse momento, poucos serão encontrados.  O bom príncipe deve, por conseguinte, sempre e em qualquer circunstância fazer com que os cidadãos dependam do Estado e da sua autoridade para que sempre o sejam fiéis.

COMO DEVEM SER CONSIDERADAS AS FORÇAS EM TODOS OS PRINCIPADOS

QUOMODO OMNIUM PRINCIPATUUM VIRES PERPENDI DEBEANT
  • Príncipe com um Estado tão forte que possa manter-se por si mesmo: é aquele que possui abundância de homens e dinheiro para organizar um exército suficientemente forte para fazer uma batalha campal e defender-se de quem venha atacá-lo.
  • Príncipe que sempre necessita da defesa de outrém: não há outra coisa a fazer senão construir muralhas em torno do seu território, refugiar-se dentro delas e não se preocupar com a vizinhança, pois assim despertará temor nos inimigos. Um príncipe com uma cidade fortificada e que não se faça odiar pelos vizinhos, não poderá ser atacado.

DOS PRINCIPADOS ECLESIÁSTICOS

DE PRINCIPATIBUS ECLESIASTICIS
  • Modo de aquisição: pela sorte ou pela virtude.
  • Modo de conservação:  pelas ordens há muito tempo estabelecidas na religião. Quando indefesos não são tomados por ninguém, são seguros e felizes, por serem dirigidos por razões superiores que ultrapassam a compreensão humana. Bastam dois cuidados:
  1. Impedir a entrada de estrangeiros com exércitos em seus territórios.
  2. Jamais ampliar os seus domínios.
  • Na Itália havia facções que ameaçavam os principados eclesiásticos e a brevidade do governo dos pontífices (em média 10 anos) impedia que se enfraquecessem essas facções.

DE QUANTAS ESPÉCIES SÃO AS MILÍCIAS E DOS SOLDADOS MERCENÁRIOS

QUOT SINT GENERA MILITAE ET DE MERCENARIS MILITIBUS
  • Trata dos meios ofensivos e defensivos que podem ser usados pelos principados.
  • Um príncipe precisa de boas bases para não cair em ruína: boas leis e bons exércitos, estando as duas prerrogativas em dependência.
  • Exército de mercenários ou de auxiliares: inútil e perigoso. As tropas mercenárias são desunidas, ambiciosas, indisciplinadas, infiéis (frente a Deus e aos homens), corajosas entre os amigos e vis entre os inimigos. O único amor dessas tropas é o soldo e isso não é suficiente para morrer por alguém. São soldados apenas quando tempo de guerra, senão fogem ou vão embora. Os capitães mercenários, quando homens excelentes, não são confiáveis, pois aspiram à própria grandeza; quando incompetentes, levam à ruína. Exemplo: os cartagineses.
  • Exército próprio: o príncipe deve ir pessoalmente com as tropas e exercer funções de capitão e os soldados devem ser originados da República (cidadãos). Quando um soldado não for valente, deve-se substitui-lo; quando ambicioso demais, deve-se detê-lo com leis para que não avance os limites.

DOS SOLDADOS AUXILIARES, MISTOS E PRÓPRIOS

DE MILITIBUS AUXILIARIIS, MIXTIS ET PROPIIS
  • Tropas auxiliares: são inúteis e quase sempre danosas e perigosas para quem as utiliza, porém são unidas por terem sido contratadas para um fim específico (o que nada garante que obedecerão a quem as contratou);
  • Tropas mercenárias: são desunidas e, por isso, menos perigosas para o príncipe, já que foram montadas por ele, portanto, demorariam mais para se organizar contra quem as contratou; são marcadas pela covardia, pois não possuem amor ao que fazem.
  • Tropas próprias: todo príncipe prudente deve possui-las; são constituídas de súditos, de cidadãos ou de vassalos seus. Carlos VII utilizou-se dessas tropas para libertar a França dos ingleses e criou cavalaria e infantaria com sua própria gente.
  • Tropas mistas: constituídas por mercenários e por soldados próprios; são melhores que as auxiliares ou mercenárias, mas inferiores às tropas próprias; exemplo: o Império Romano, que passou a contratar os godos nas fronteiras e, a partir daí, viu a sua ruína.

O QUE COMPETE A UM PRÍNCIPE ACERCA DA MILÍCIA

QUOD PRINCIPEM DECEAT CIRCA MILITIAM
  • Um príncipe não deve ter outra preocupação senão a guerra e sua organização e disciplina, mesmo em tempo de paz, pois ao despreocupar-se dessa arte, certamente virá a perder seu principado.

  • O príncipe que não entende de tropas não pode ser estimado por seus soldados nem confiar neles. (G.T.: É por isso que Hitler, Stálin e outros grandes líderes – mesmo não sendo militares – faziam uso desse mandamento maquiavélico).
  • Duas maneiras de preocupar-se com a guerra:
  1. Pela ação: manter bem organizadas e disciplinadas suas tropas e ir sempre a caçadas, pois estas fornecem conhecimento de território, geografia e estratégia para utilizar na guerra.
  2. Pelo exercício da mente: ler a história da guerra e observar ações e falhas dos grandes líderes para imitar as vitórias e evitar as derrotas.

DAQUELAS COISAS PELAS QUAIS OS HOMENS, E ESPECIALMENTE OS PRÍNCIPES, SÃO LOUVADOS OU CENSURADOS

DE HIS REBUS QUIBUS HOMINES ET PRAESERTIM PRINCIPES, LAUDANTUR AUT VITUPERANTUR
  • Um príncipe que deseja se manter no poder deve aprender a não ser bom e usá-lo ou não, segundo a necessidade.

“Porque há tanta diferença de como se vive e de como se deveria viver que, aquele que abandona o que se faz por aquilo que deveria fazer, aprende antes o caminho de sua ruína do que o de sua preservação, porquanto um homem que queira em todas as suas palavras fazer profissão de bondade, haverá de se perder em meio a tantos que não são bons.”  (MAQUIAVEL)

  • Um príncipe deve ser tão prudente que saiba fugir à infâmia dos vícios que lhe tirariam o Estado e evitar aqueles que não o tirariam dele. Se não for possível evitá-los, deixar correr com menor escrúpulo.
  • Não é preciso evitar os vícios necessários para se manter no poder, pois considerando que tudo seja o bem, sempre se encontrará algo que pareça virtude e, que quando seguido, pode levar à ruína, enquanto que outra, que possa parecer vício, pode levar à segurança e bem-estar.

DA CRUELDADE E DA PIEDADE; SE É MELHOR SER AMADO QUE TEMIDO OU ANTES TEMIDO QUE AMADO

DE CRUDELITATE ET PIETATE;  ET AN SIT MELIUS AMARI QUAM TIMERI, VEL E CONTRA
  • Todo príncipe deve ser considerado piedoso e não cruel, tomando o cuidado de não fazer mal uso dessa piedade.
  • Um príncipe não deve se importar com a má fama de cruel para poder manter seus súditos unidos, pois com poucos julgamentos exemplares será considerado mais piedoso do que os excessivamente piedosos que deixam acontecer desordens.
  • O príncipe novo sempre terá fama de cruel, pois os novos Estados estão cobertos de perigos.
  • Um príncipe deve ser equilibrado e prudente no crer e no agir, sem ter, portanto, muita confiança (o que o torna ingênuo) nem demasiada desconfiança (o que o torna intolerável).
  • O príncipe deve ser temido, mas caso não conquiste o amor, deve fugir do ódio, pois podem coexistir o ser temido e o ser não-odiado.
  • Um príncipe nunca será odiado, desde que não tome os bens de seus cidadãos nem suas mulheres. Poderá até matar, desde que haja justificativa plausível e uma causa manifesta para tal ato. Deve-se, portanto, apoiar-se naquilo que é seu e não dos outros, e também, fugir do ódio.
  • Quando está comandando um exército em uma batalha, jamais deve se preocupar com a fama de cruel, pois esta pode constituir uma virtude e não um vício.

DE QUE MODO OS PRÍNCIPES DEVEM MANTER A PALAVRA DADA

QUOMODO FIDES A PRINCIPIBUS SIT SERVANDA
  • Há dois modos: através das leis ou através da força. Esta, é própria dos animais e, aquela, dos homens. Porém muitas vezes as leis não bastam e é preciso fazer uso da força para se manter a palavra dada.
  • Um príncipe precisa saber usar uma e outra dessas naturezas, pois uma sem a outra não é duradoura (G.T.: Maquiavel trata aqui de uma conjunção do tipo p^q, sendo ambas verdadeiras, conclusão verdadeira, argumento válido, ou, sendo p falso e q falso, ¬p^q será verdadeiro, argumento válido da mesma forma).
  • Quando desaparecem as causas que levaram um príncipe a prometer alguma coisa e quando isso se torna prejudical, ele não deve hesitar em não manter a sua palavra.
  • Os homens não são todos bons, logo, o príncipe também não deve manter a sua palavra para com eles.
  • Um príncipe deve ser simulador e dissimulador (G.T.: condições necessárias e suficientes).
  • Não é necessário ter todas as qualidades mencionadas, mas aparentar tê-las. Pelo contrário, possuindo-as e praticando-as sempre, são danosas, mas aparentando possui-las, são úteis.
  • Um príncipe (sobretudo um príncipe novo) não pode praticar sempre atos considerados bons, pois é frequentemente obrigado – para manter o Estado – a agir contra o que se pressupõe bom (fé, caridade, humanidade, religião).
  • Nas ações dos príncipes (G.T.: um julgamento de sua ética) não existe um tribunal para recorrer. O que importa são os resultados (G.T.: os fins), portanto, há de se aparentar ser bom, mas não o ser.
  • Os meios serão sempre julgados honrosos e louvados por todos, porque as massas sempre se deixam levar por aparências e resultados.
  • O príncipe prega paz e , porém delas é inimigo sempre, pois uma e outra, se praticadas integralmente, levam à ruína.

DE QUE MODO SE DEVE EVITAR SER DESPREZADO E ODIADO

DE CONTEMPTU ET ODIO FUGIENDO
  • Há uma regra geral para um príncipe ser virtuoso: não ser odioso e desprezível.
  • Odiado será quando usurpar dos bens e das mulheres dos súditos.
  • Desprezado será quando for leviano, inconstante, efeminado, fraco e indeciso.
  • Um príncipe deve ter duas preocupações: de ordem interna (com seus súditos) e externa (dos potentados estrangeiros).
  • A situação interna estará sempre garantida quando a externa estiver segura.
  • O príncipe deve tomar cuidado para que seus súditos não conspirem contra ele. Para isso, deve procurar não ser odiado ou desprezado pela maioria e manter o povo satisfeito com ele.
  • O príncipe não precisa temer às conspirações quando o povo estiver a seu favor, pois um homem não pode conspirar sozinho e quem conspira está cercado de medo, apreensão e suspeitao do castigo, enquanto que do lado do príncipe, há o Estado, as leis e os amigos que o defendem.
  • A França é um exemplo de Estado bem organizado e bem governado (G.T.: da época de Maquiavel) pois possui instituições bem organizadas que mantém o equilíbrio entre os grandes e o povo, como a autoridade do Parlamento, que tira da responsabilidade do príncipe as decisões que favorem mais aos poucos ou à maioria. Essa ordem é boa e prudente para a segurança do rei e do reino.
  • O príncipe deve atribuir aos outros as coisas que suscitam ódio no povo, reservando para si próprios as que suscitam gratidão.
  • Muitos imperadores romanos perderam seus Estados, mesmo sendo virtuosos, por enfrentarem uma terceira dificuldade: a crueldade e a avidez dos soldados. A dificuldade dos príncipes de Roma estava em equilibrar interesses do povo (que sempre queria a paz e príncipes moderados) e dos soldados (que sempre queriam príncipes de caráter militarista). A maioria deles preocupou-se em satisfazer os soldados.
  • Quando o príncipe não consegue evitar ser odiado, deve procurar primeiro não ser odiado pelas classes sociais; mas, quando isso não é possível, deve fugir do ódio dos mais poderosos. A permanência ou não no poder vai se basear nas habilidades do príncipe em agradar a quem optou por favorecer.
  • Os príncipes de hoje não precisam mais satisfazer os soldados, pois não há exércitos nos governos e nas administrações como no Império Romano. Hoje, portanto, faz-se mais necessário satisfazer o povo, o qual pode mais.

O QUE CONVÉM A UM PRÍNCIPE PARA SER ESTIMADO

QUOD PRINCIPEM DECEAT UT EGREGIUS HABEATUR
  • Um príncipe deve empenhar-se me deixar após si – em cada ação sua – fama de grande homem e de excelente ânimo.
  • O príncipe é estimado quando é verdadeiro amigo ou verdadeiro inimigo, devendo nunca ficar neutro.
  • Quando o príncipe se define e, aquele a quem se aliou vence, então terá a amizade dele, enquanto que, mesmo que aquele a quem se aliou perde, será dele companheiro de uma sorte que poderá ressurgir.
  • Quando dois combatem e é indiferente quem sairá vitorioso, um príncipe prudente deve aliar-se a um deles para que, vencendo, fique a mercê do príncipe que decidiu a batalha.
  • Um príncipe jamais deve fazer aliança com um mais poderoso que ele para atacar os outros, a menos que a necessidade isso impõe. Nesse caso, é melhor se aliar do que ser prisioneiro dele, porém sempre deve evitar ficar à mercê de outros.
  • Um príncipe deve mostrar-se amante das virtudes: dar hospitalidade aos homens virtuosos, honrar os melhores em uma arte, animar seus cidadãos a desenvolverem atividades no comércio e na agricultura ou qualquer outra ocupação, deve premiar quem quiser realizar essas coias e, também, em certas épocas do ano, distrair o povo com festas e espetáculos.

POR QUE OS PRÍNCIPES DA ITÁLIA PERDERAM SEUS ESTADOS

CUR ITALIAE PRINCIPES REGNUM AMISERUNT
  • Um príncipe novo é muito mais observado em suas ações do que um príncipe hereditário.
  • Os homens se sentem atraídos muito mais pelas coisas presentes do que as passadas e, quando encontram o bem no presente, ficam satisfeitos e nada mais procuram.
  • Os príncipes que perderam seus Estados na Itália, em primeiro lugar, não privilegiram os exércitos e a guerra. Alguns, ainda, tiveram o povo como inimigo ou, tendo o povo como amigo, não equilibraram os interesses dos poderosos.
  • Os príncipes italianos também não se preocuparam com o tempo de paz e, quando chegaram as adversidades esperavam que o povo fosse os salvar. Isso revela covardia e falta de prudência.
  • As defesas somente são boas e duradouras quando dependem do próprio príncipe e das virtudes dele e de mais ninguém.

QUANTO PODE A SORTE NAS COISAS HUMANAS E DE QUE MODO SE DEVE RESISTIR A ELA

QUANTUM FORTUNA IN REBUS HUMANIS POSSIT, ET QUOMODO ILLI SIT OCCURRENDUM
  • A sorte é responsável por metade de nossas ações, mas nos deixa ainda governar a outra metade (ou quase). Ela se manifesta onde não existe virtude predisposta para resistir-lhe ou ações para contê-la.
  • Um príncipe que não muda sua natureza ou suas qualidades e, mesmo assim, encontra a ruína, é porque se apóia totalmente na sorte e não suporta as variações dela.
  • O príncipe é afortunado quando tem capacidade de se adaptar aos novos tempos e desafortunado infeliz quando entra em choque com os tempos que atravessa.
  • Os homens são vistos de duas maneiras naquilo que os conduz ao fim que cada um tem por objetivo: uns procedem com cautela; outros, com ímpeto.
  • Há dois tipos de cautelosos: os que alcançam seus objetivos e os que não alcançam. Cada um desses vai ser, ao longo do modo de proceder perante às adversidades, mais cauteloso ou mais impetuoso.
  • Dois indivíduos, agindo de forma distinta, podem atingir um mesmo fim, mas quando dois operam da mesma forma, um atinge o fim e o outro não.
  • Para que a progressão ocorra, depende da variação do bem. Se alguém se comporta com cautela e paciência, seu comportamento vai ser bom, logo, vai progredir. Mas, se o tempo e as circunstâncias mudam, ele se arruína, pois não muda seu modo de proceder.
  • O homem cauteloso, quando chega o momento de ser impetuoso, não consegue sê-lo, pois a natureza o inclinar a seguir o que considera mais “seguro” ou certo.
  • Um príncipe deve, portanto, ser sempre impetuoso, porque a sorte é como mulher que, para dominar, é preciso bater nela e forçá-la.

EXORTAÇÃO PARA TOMAR A DEFESA DA ITÁLIA E LIBERTÁ-LA DAS MÃOS DOS BÁRBAROS

EXHORTATIO AD CAPESSENDAM ITALIAM IN LIBERTATEMQUE A BARBARIS VINDICANDAM
  • Para conhecer a virtude de um espírito italiano, era preciso que a Itália se reduzisse ao ponto em que se encontra no momento.
  • Os príncipes que ali governaram tiveram certo vislumbre, mas foram abandonados pela sorte.
  • A Itália está disposta e pronta para erguer uma bandeira, basta alguém para empunhá-la.
  • A Casa dos Médici é a única preparada no momento para realizar tal empresa, amparada por Deus e pela Igreja.
  • Justa é a guerra que é necessária e piedosas são as armas quando nenhuma esperança resta, senão pelas armas.
  • Para tomar a Itália, basta seguir os modos de agir mencionados e, sob o amparo de Deus, a oportunidade é extremamente favorável. Deus não quer fazer tudo para não nos tirar o livre-arbítrio e a parte da glória que cabe a nós.
  • A Itália precisa de reformas: novas instituições  e novas leis, o que cabe a um novo príncipe, que vai se encher de honra e grandeza com este feito.
  • É necessário prover-se de tropas própriasas mais fiéis, as mais seguras e com os melhores soldados – para realizar tal campanha. Os exércitos precisam ser preparados para, com a virtude itálica, defender-se dos estrangeiros.
  • O príncipe da Itália deverá conhecer os defeitos de uma e outra infantaria vizinha e organizar uma diferente, que resista à cavalaria e não tenha medo da infantaria.

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